
DESAFIOS DA TERAPIA | EVITE O DIAGNÓSTICO
Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!

Os estudantes de psicoterapia de hoje em dia estão expostos a uma ênfase excessiva no diagnóstico. Os administradores de planos de saúde exigem que os terapeutas cheguem rapidamente a um diagnóstico preciso e, em seguida, prossigam com um curso de terapia breve e focada que corresponda a esse diagnóstico específico. Parece bom. Parece lógico e eficiente. Mas tem muito pouco a ver com a realidade. Em vez disso, representa uma tentativa ilusória de impor a precisão científica quando ela não é possível nem desejável.
Embora o diagnóstico seja inquestionavelmente crítico nas considerações de tratamento para muitas condições graves com um substrato biológico (por exemplo, esquizofrenia, transtornos bipolares, transtornos afetivos graves, epilepsia do lobo temporal, toxicidade de drogas, doença orgânica ou cerebral causada por toxinas, causas degenerativas ou agentes infecciosos), o diagnóstico é muitas vezes contraproducente na psicoterapia cotidiana de pacientes menos gravemente prejudicados.
Por quê? Primeiro, a psicoterapia consiste em um processo de desenvolvimento gradual em que o terapeuta tenta conhecer o paciente do modo mais pleno possível. Um diagnóstico limita a visão; ele diminui a capacidade de se relacionar com o outro enquanto pessoa. Uma vez que fazemos um diagnóstico, tendemos a desatentar seletivamente para aspectos do paciente que não se encaixam naquele diagnóstico específico e, por consequência, a superestimar características sutis que parecem confirmar um diagnóstico inicial. Além disso, um diagnóstico pode atuar como uma profecia autorrealizável.
Relacionar-se com um paciente como “borderline” ou “histérico” pode servir para estimular e perpetuar essas mesmas características. De fato, há uma longa história de influência iatrogênica na forma de entidades clínicas, incluindo a atual controvérsia sobre transtorno de personalidade múltipla e memórias reprimidas de abuso sexual. E tenha em mente, também, a baixa confiabilidade da categoria de transtorno de personalidade do DSM (com frequência, os próprios pacientes se envolvem em psicoterapia de longo prazo).
E que terapeuta não se impressionou com o quanto é mais fácil fazer um diagnóstico baseado no DSM-IV depois da primeira entrevista do que muito mais tarde – digamos, da décima sessão em diante -, quando sabemos muito mais sobre o indivíduo? Não é um tipo estranho de ciência? Um colega meu traz essa questão para seus residentes psiquiátricos perguntando: “Se você está fazendo psicoterapia pessoal ou está considerando fazer, que diagnóstico do DSM-IV você acha que seu terapeuta poderia usar para descrever alguém tão complicado quanto você?”.
Na empreitada terapêutica, devemos traçar uma linha tênue entre alguma, mas não muita, objetividade; se levarmos o DSM muito a sério, se acreditarmos que estamos mesmo manipulando as articulações da natureza, então podemos ameaçar o humano, o espontâneo, a natureza criativa e incerta do empreendimento terapêutico. Lembre-se de que os clínicos envolvidos na formulação de sistemas diagnósticos anteriores, agora descartados, eram competentes, orgulhosos e tão confiantes quanto os atuais membros dos comitês do DSM. Sem dúvida, chegará o tempo em que o formato de menu de restaurante chinês do DSM-IV parecerá ridículo para os profissionais de saúde mental.

Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia
Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Esse segundo capítulo aborda um assunto que, atualmente, acompanhando as redes sociais, é um dos tópicos mais comentados: a patologização excessiva e a busca por diagnóstico a todo custo. A sensação que eu tenho é que tudo precisa virar diagnóstico e há uma necessidade de se encaixar em alguma “categoria”.
Na faculdade debatemos bastante sobre como o diagnóstico pode limitar o paciente e o profissional. Ao ponto de deixar de vê-lo como um indivíduo e passar a vê-lo como o diagnóstico. Desconsiderando a complexidade e limitando um sujeito inteiro em uma categoria. E que bom que Yalom já vem problematizando isso!
Para mim, faz sentido e eu acredito que o diagnóstico não pode substituir o encontro, a escuta, a profundidade e a complexidade que é ser humano. É necessário considerar e entender todas as nuances, condições de desenvolvimento, aspectos sociais, políticos e históricos.
Ser humano é ser complexo. E nenhum sujeito cabe inteiro em uma categoria. E isso precisa ser problematizado e pautado ainda mais.

Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
A primeira edição deste livro está prestes a completar bodas de prata, Yalom traz esta provocação em 2002, e ele termina o texto dizendo que “chegará o tempo em que o formato de menu de restaurante chinês do DSM-IV parecerá ridículo para os profissionais de saúde mental“. Pois bem, com o DSM-V e o que temos visto acontecer, penso que este tempo chegou.
Hoje temos todo um movimento que faz a discussão, no Brasil e no mundo, sobre o fenômeno da patologização e medicalização da vida. Um movimento que problematiza o quanto essa ênfase no diagnóstico, com a desculpa de que “isso sim é Ciência” vem desconsiderando a complexidade que constitui o ser humano e, sobretudo, as condições sociais que produzem determinadas condições psicológicas.
Achei muito interessante e provocativa a fala dele dizendo que é muito mais fácil fazer um diagnóstico nas primeiras sessões do que depois da décima, quando toda a complexidade da pessoa que esta diante de nós vai se desdobrando e aparecendo no processo terapêutico, e concordo.
Eu, particularmente, sempre gostei de substituir a palavra diagnóstico pela palavra mapeamento. Primeiro, para fugir do vocabulário médico, segundo porque penso que vamos de fato mapeando e conhecendo a pessoa, sua história, suas questões, suas relações e seus projetos, um mapa inacabado, que nos ajuda a criar estratégias terapêuticas, mas que se sabe inacabado e em movimento.
Finalizo fazendo minhas as palavras do Yalom: evite o diagnóstico!