
A ESTÁTICA E A ESTÉTICA DO AMOR PERFEITO
Nesse Dia dos Namorados eu vou comentar em todas as fotos de casais que eu vir: Ué…?
Essa frase foi dita num vídeo curto do comediante Yuri Marçal em suas redes sociais na semana do dia 12. Assisti ao vídeo e dei uma boa gargalhada espontânea. Mas eu não poderia somente rir, se na clínica percebo o exercício que é, entre chistes e recalques, captar as mensagens subliminares por trás de falas carregadas de humor. A graça é a permissão para falar do que incomoda de uma maneira que não assuste, que não abra brechas para o julgamento. Longe de mim julgar o Yuri, e até agradeço o gancho para abrir a coluna desse mês.
É interessante pensar no que os conteúdos aos quais somos expostos despertam em nós. O que o Yuri quis dizer com essa piadinha disfarçada? O que se pensa tanto ao ver casais completamente felizes, quanto ao ver alguém zombar e brincar com esse incomodo?
Afinal, junho é o mês do amor, dos presentes, dos buquês de flores, das viagens. Das declarações com trezentos caracteres escritas na legenda de uma foto em alta resolução, onde uma mão é puxada por alguém que carrega no rosto um sorriso refletindo o pôr-do-sol. É o mês dos jantares à luz de velas, dos finais de semana num chalé com duas taças de vinho harmonizadas com o fogo de uma lareira, das duas xícaras de café fumegantes diante de um horizonte desfocado. Junho é o mês dos pares. De mostrar pares que não brigam, que não traem, que não erram, que não falham. Para permanecer assim, só na estática e na estética da foto mesmo.
Par é um conjunto de dois. Precisa de outro presente para ser par, mesmo que a meia fure, ela ainda vai ser guardada com a outra na gaveta. O problema é quando uma delas some para sempre na máquina de lavar. Algumas pessoas têm seus pares, outras não, mas pode ser que em ambos os casos, o que haja em comum seja a indignação sobre a forma que esse amor tem se expressado nas redes. Há quem admita, há quem não. Há quem use o humor para deixar vazar essa angústia causada pela falta.
Como pode o amor, esse sentimento tão sublime e capaz de produzir imagens e textos tão tocantes, despertar tantos outros sentimentos opostos a ele? Sentimentos estes que em muitos momentos, só se permitem sair através de uma piada mesmo, sem o risco da má interpretação. Sentir amor não significa sentir somente amor. E estar ou não numa relação, não é garantia de amor. Aliás aí estão dois conceitos dignos de apaixonamento na Psicanálise: Garantia & Amor. O que se sabe sobre a garantia, é que não há garantias. Mas o que se sabe sobre o amor?
Sem precisar entrar em teoria, pode-se pensar no amor como forma de identificação. Se um influenciador, assim como o Yuri, consegue alcançar tantas pessoas, é através do quanto as pessoas se identificam com o que ele fala. Amamos ver nossos sentimentos e pensamentos sendo traduzidos e reproduzidos. Gerar identificação é uma forma potente de comunicação. Logo, a não identificação gera a recusa, a rechaça, às vezes o ranço. Acontece no amor, na política, no futebol e em tudo onde cabe a ambiguidade. A verdade é que sempre há algo, mesmo que oposto, que precisa ser visto. Nada é ignorado, por mais que se acredite nisso. Se produz algo, mesmo que seja uma fala engraçada, há de ter sua importância, e necessite ser identificado, trabalhado, lapidado, amado ou odiado.
Sendo assim, não se identifica como amor, o amor que não está ali representado nesses conteúdos. Se não é possível identificar a relação que se vive, com a relação que se vende, não há amor de verdade. A falta que se sente do que os outros casais demonstram ter, elimina as possibilidades de viver uma experiência de amor ao pé da letra. Encobre com fantasias as chances de estar em um relacionamento em que haja espaço para o jantar em casa, sem velas, mas com diálogos; sem presentes caros, mas com demonstrações genuínas de carinho. A fantasia pode ser a porta de entrada para o início do que se aproxima do amor, mas a realidade é que oferece a opção de escolher ficar mesmo depois de atravessadas as primeiras impressões, e principalmente ao viver momentos em que se compartilham a dois, que não são necessariamente instagramáveis.
É ainda mais interessante pensar que o que se posta, pode esconder uma necessidade de validação que o próprio sujeito não acredita, não sustenta no cotidiano. O que sustenta é o olhar dos demais. Quanto mais os outros curtem e comentam, maior a necessidade dessa validação. Um círculo vicioso perigoso.
Na literatura mais antiga, muitos dos romances distribuem estórias de amores impossíveis vencendo bravas lutas para no final viverem felizes para sempre, ou morrer. Oito ou oitenta. Ou se é eternamente feliz ou o amor morre. Uma grande mentira. O amor pode justamente ser o não se ver feliz o tempo todo, e sentir-se feliz em reconhecer isso.
Carla Madeira em seu livro “Tudo é Rio”, obra amada por muitos, odiada por tantos outros, traz uma história de amor carregada de realidade e muita dor. Talvez por isso incomode tanto. Impossível não odiar o que se lê naquelas páginas, mas totalmente possível de compreender e amar a história. Conhecer o outro também exige disponibilidade para compreensão. O amor pode ser quase tudo. Tudo de bonito, de feio, de gostoso, de amargo. Tudo menos fácil como vemos nas fotos. As lentes do olhar humano têm uma resolução diferente das câmeras que registram apenas os bons momentos postados no Instagram. Não temos escolha, senão olhar para o outro inteiro. E se olhar para o outro inteiro, ainda fizer querer ficar, pode ser que se chame amor.
A realidade é um alívio. Segundo Ana Suy, esse será o nome do seu próximo livro. A escritora, que fala de amor em todas as suas publicações como “A gente mira no amor e acerta na solidão” e “Não pise no meu vazio” deixa nessa afirmação um pensamento possível para o que esperar dos relacionamentos amorosos. Uma delícia passear por seus escritos, que reforça o quanto somos seres sociais e capazes de amar e sermos amados, de se identificar até com a estranheza do outro.
É possível se aquecer no afeto de alguém sem precisar da lareira. Para focar no futuro, pode ser necessário tirar as xícaras da frente e enxergar no horizonte os planos que realmente fazem sentido para a vida a dois. É possível se reconhecer dentro de um convívio, com um parceiro, parceira e não apenas um par para sair na foto. E ainda, é importante ser quem caminha do lado, e não apenas ser arrastado para ver o pôr-do-sol. É necessário realmente querer ver o pôr-do-sol também. E por fim, rir de si mesmo e do outro, das diferenças suportáveis. No amor, também tem que caber o humor. As risadas e as piadas nem sempre serão chistes ocultando algo, mas podem ser refúgio para o enfrentamento das dificuldades que o amor pode oferecer.
E para não deixar de fora quem não tem alguém, o amor pode ser sempre distribuído (e deve!) nas demais relações, no lazer, no trabalho e no descanso, sem nunca se esvaziar de amor-próprio.





