Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
Muitos de nossos pacientes têm conflitos no domínio da intimidade e são ajudados na terapia simplesmente por meio de um relacionamento íntimo com o terapeuta. Alguns temem a intimidade porque acreditam que há algo inaceitável neles, algo repugnante e imperdoável.
Diante disso, o ato de revelar-se por completo a outro e ainda assim ser aceito pode ser o principal veículo de ajuda terapêutica. Outros podem evitar a intimidade por medo de exploração, colonização ou abandono; para eles, também, uma relação terapêutica íntima e carinhosa que não resulte na catástrofe esperada torna-se uma experiência emocional corretiva.
Portanto, nada tem precedência sobre o cuidado e a manutenção do meu relacionamento com o paciente, e eu presto atenção a cada nuance de como nos avaliamos um ao outro. O paciente parece distante hoje?
Competitivo? Desatento aos meus comentários? Ele faz uso do que eu digo em particular, mas se recusa a reconhecer minha ajuda? É excessivamente respeitoso? Obsequioso? Expressa muito raramente qualquer objeção ou desacordo? Está distante ou suspeitoso? Consigo entrar em seus sonhos ou devaneios? Quais são as palavras que usa em conversas imaginárias comigo? Quero saber todas essas coisas e muito mais.
Nunca deixo passar uma sessão sem verificar nosso relacionamento, às vezes com simples perguntas: “Como você e eu estamos hoje?” ou “O que está achando do espaço entre nós hoje?”.
Às vezes, peço ao paciente que se projete no futuro: “Imagine daqui a meia hora – você está voltando para casa, relembrando nossa sessão. Como você se sentirá sobre você e eu hoje? Quais serão as declarações não ditas ou perguntas não feitas sobre nosso relacionamento hoje?”.
Maria Fernanda | Estudante de Psicologia
Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Um dos maiores desafios na psicoterapia (para mim, pelo menos rs) é mostrar as suas sombras que você já conhece, e ao longo da análise descobrir algumas novas sombras. Causa um desconforto natural. Aliás, fazer psicoterapia é quase sempre um desconforto constante.
É um processo a criação da intimidade e desse vínculo terapêutico, principalmente se for a primeira vez fazendo psicoterapia. A gente costuma vestir máscaras ao longo da vida, e entender que na psicoterapia é importante se desfazer de algumas máscaras é desconfortável mesmo. E doloroso muitas vezes.
A preocupação do profissional da Psicologia em se questionar e questionar o paciente sobre o vínculo é importante principalmente pensando nessas máscaras vestidas.
A intimidade é uma construção baseada na transferência, no tempo, na identificação e também na energia investida nesse processo. E um vínculo terapêutico bem fortalecido contribui para que o paciente se sinta seguro o suficiente para entrar em contato com partes de si que muitas vezes passaram anos sendo evitadas, negadas ou escondidas. E isso não acontece de uma vez. É uma construção gradual, feita entre avanços, resistências, silêncios e descobertas.
O vínculo terapêutico precisa ser pensado com cuidado e sensibilidade, porque é justamente nessa relação que o paciente pode experimentar novas formas de existir e de se relacionar.
Rafa Dutra | Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
Construir vínculo e intimidade é sempre um desafio, sejam nas relações pessoais, sejam nas profissionais. E com a relação terapêutica não é diferente!
Esta é uma relação muito singular que não se reproduz em nenhum outro contexto que não o da terapia, essa relação psicóloga-paciente é única e é o nosso principal “instrumento” de trabalho. Mediamos um processo em que construímos uma intimidade que é de via única e que para além das tantas reflexões, escutas, provocações, insights e acolhimentos, se torna ela própria – a relação – uma intervenção na vida da paciente.
Envolver o paciente pode parecer algo óbvio e simples, mas o óbvio precisa ser dito e o simples às vezes é bem difícil de executar. Sobretudo nos dias de hoje com as tantas cobranças por resultados e por pessoas cada vez mais adoecidas e com dificuldades de entrar, de fato, em contato com as próprias questões.
É na relação que o processo acontece e é preciso cuidar com muito apreço dela, sem romantizar nem idealizar ser a “super-psicóloga”, mas uma relação atenta, profissional, pautada na ética do cuidado e construída no detalhe a cada encontro. Este cuidado é conjunto, com a participação ativa das pacientes, caso contrário, deslocamos o eixo da relação para a psicóloga, e daí as coisas podem sair do caminho que deveriam estar.
A relação não é padronizada e nem está dada, não é porque conseguimos construí-la uma vez que deixaremos de nos preocupar. Ela sempre se reconfigura e exige novos alinhamentos e posicionamentos, é uma relação viva, em movimento, com encontros e desencontros, atravessada por diferentes afetos, frágil e potente, como toda e qualquer intimidade, por isso mesmo precisa ser cuidada!
DESAFIOS DA TERAPIA | TERAPEUTA E PACIENTE COMO “COMPANHEIROS DE VIAGEM”
Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
O romancista francês André Malraux escreveu sobre um padre com quem se confessou por muitas décadas e resumiu desta maneira o que aprendeu com ele a respeito da natureza humana: Em primeiro lugar, as pessoas são muito mais infelizes do que se pensa (…) e “pessoa adulta’ é coisa que não existe”. Todos – e isso inclui terapeutas e pacientes – estão destinados a experimentar não apenas a euforia da vida, mas também sua escuridão inevitável: desilusão, envelhecimento, doença, isolamento, perdas, falta de sentido, escolhas dolorosas e morte.
Ninguém definiu essas coisas de forma mais direta e sombria do que o filósofo alemão Arthur Schopenhauer:
No início da juventude, ao contemplarmos nossa vida futura, somos como crianças em um teatro antes que a cortina seja levantada, sentadas ali de bom grado e esperando ansiosamente pelo início da peça. É uma bênção não sabermos o que de fato vai acontecer. Se pudéssemos prever, há momentos em que as crianças podem parecer prisioneiras condenadas – condenadas não à morte, mas à vida, e ainda totalmente inconscientes do significado de sua sentença.
Ou ainda:
Somos como cordeiros no campo, divertindo-nos sob o olhar do açougueiro, que escolhe primeiro um e depois outro para sua faca. Assim é que, em nossos dias bons, todos nós estamos inconscientes do mal que o Destino pode ter reservado para nós – doença, pobreza, mutilação, perda da visão ou da razão.
Embora a visão de Schopenhauer seja fortemente influenciada pela própria infelicidade pessoal, ainda assim é difícil negar o desespero inerente à vida de cada indivíduo autoconsciente. Minha esposa e eu às vezes nos divertimos planejando jantares imaginários para grupos de pessoas que compartilham propensões semelhantes – por exemplo, uma festa para monopolistas, ou fogosos narcisistas, ou passivo-agressivos engenhosos que conhecemos ou, inversamente, uma festa “feliz” para a qual convidamos apenas as pessoas de fato felizes que encontramos. Embora não tenhamos encontrado problemas para preencher todos os tipos de outras mesas caprichosas, nunca fomos capazes de preencher uma mesa completa para nossa festa de “pessoas felizes”. Cada vez que identificamos alguns indivíduos alegres e os colocamos em uma lista de espera enquanto continuamos nossa busca para completar a mesa, descobrimos que um ou outro de nossos convidados felizes acaba sendo atingido por alguma adversidade importante na vida – muitas vezes uma doença grave, da própria pessoa ou de um filho ou cônjuge.
Essa visão da vida – trágica, mas realista – há muito influencia meu relacionamento com aqueles que buscam minha ajuda. Embora existam diversos termos para a relação terapêutica – paciente/terapeuta, cliente/conselheiro, analisando/analista, cliente/facilitador e (o mais recente – e, de longe, o mais repulsivo) usuário/provedor -, nenhum deles transmite com precisão minha percepção da relação terapêutica. Em vez disso, prefiro pensar em meus pacientes e em mim como companheiros de viagem, um termo que anula as distinções entre “eles” (os aflitos) e “nós” (os curandeiros). Durante meu treinamento, inúmeras vezes fui exposto à ideia do terapeuta totalmente analisado, mas, à medida que progredi na vida, estabeleci relacionamentos íntimos com muitos de meus colegas terapeutas, conheci as figuras mais importantes da área, fui chamado para prestar auxílio aos meus antigos terapeutas e professores e tornei-me um professor e um ancião, percebendo a natureza mítica desta ideia. Estamos todos juntos nisso e não há terapeuta nem pessoa imune às tragédias inerentes à existência.
Uma das minhas histórias favoritas de cura, encontrada em O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, envolve José e Dion, dois curandeiros renomados que viveram nos tempos bíblicos. Embora ambos fossem altamente eficazes, eles funcionavam de maneiras diferentes, O curandeiro mais jovem, José, curava por meio de uma escuta silenciosa e inspirada. Os peregrinos confiavam em José. O sofrimento e a ansiedade derramados em seus ouvidos desapareciam como água na areia do deserto, e os penitentes deixavam sua presença esvaziados e acalmados. Dion, o curandeiro mais velho, por sua vez, confrontava ativamente aqueles que buscavam sua ajuda. Ele adivinhava seus pecados não confessados. Era um grande juiz, castigador, repreensivo e retificador, e curava por meio de intervenção ativa. Tratando os penitentes como crianças, dava conselhos, punia com penitências, ordenava peregrinações e casamentos e obrigava inimigos a se reconciliarem.
Os dois curandeiros nunca se encontraram e trabalharam como rivais por muitos anos, até que José adoeceu espiritualmente, caiu em profundo desespero e foi assaltado por ideias de autodestruição. Incapaz de se curar com os próprios métodos terapêuticos, ele partiu em uma jornada para o sul em busca da ajuda de Dion.
Em sua peregrinação, José descansou uma noite em um oásis, onde começou a conversar com um viajante mais velho. Quando José descreveu o propósito e o destino de sua peregrinação, o viajante se ofereceu como guia para ajudar na busca por Dion. Mais tarde, no meio de sua longa jornada juntos, o velho viajante revelou sua identidade a José.
Mirabile dictu: ele mesmo era Dion – o homem que José procurava.
Sem hesitar, Dion convidou seu rival mais jovem e desesperado para sua casa, onde viveram e trabalharam juntos por muitos anos. Dion primeiro pediu a José que fosse um servo. Mais tarde, ele o elevou a aluno e, por fim, a colega de trabalho. Anos depois, Dion adoeceu e em seu leito de morte chamou seu jovem colega para ouvir uma confissão. Ele narrou a terrível doença anterior de José e sua viagem ao velho Dion para pedir ajuda. Falou sobre como José sentiu que era um milagre que seu companheiro de viagem e guia fosse o próprio Dion.
Agora que ele estava morrendo, era chegada a hora, disse Dion a José, de quebrar o silêncio a respeito daquele milagre. Dion confessou que na época também lhe pareceu um milagre, pois ele também caíra em desespero. Ele também se sentia vazio e morto espiritualmente e, incapaz de se ajudar, partiu em uma jornada em busca de ajuda. Na mesma noite em que se encontraram no oásis, ele estava em peregrinação a um famoso curandeiro chamado José.
A história de Hesse sempre me comoveu de uma forma sobrenatural. Parece-me uma declaração profundamente esclarecedora sobre dar e receber ajuda, sobre honestidade e duplicidade e sobre o relacionamento entre o curador e o paciente. Os dois homens receberam ajuda poderosa, mas de maneiras muito diferentes. O curandeiro mais jovem foi nutrido, cuidado, ensinado e orientado, teve a atenção de um pai. O curandeiro mais velho, por outro lado, foi ajudado servindo ao outro, obtendo um discípulo de quem recebeu amor filial, respeito e bálsamo para seu isolamento.
Mas agora, reconsiderando a história, questiono se esses dois curandeiros feridos não poderiam ter prestado ainda mais serviços um ao outro.
Talvez tenham perdido a oportunidade de algo mais profundo, mais autêntico, mais poderosamente transformador. Talvez a verdadeira terapia tenha ocorrido na cena do leito de morte, quando eles foram sinceros com a revelação de que eram companheiros de viagem, ambos simplesmente humanos, demasiadamente humanos. Os vinte anos de segredo, por mais úteis que tenham sido, podem ter obstruído e impedido um tipo mais profundo de ajuda. O que poderia ter acontecido se a confissão de Dion no leito de morte tivesse ocorrido vinte anos antes, se curador e buscador tivessem se unido para enfrentar as questões que não têm respostas?
Tudo isso ecoa as cartas de Rilke a um jovem poeta nas quais ele aconselha: “Tenha paciência com tudo o que não está resolvido e tente amar as questões em si”. Eu acrescentaria: “Tente amar também os questionadores”.
Maria Fernanda | Estudante de Psicologia
Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Olhar para o terapeuta na poltrona da frente e enxergá-lo como um ser humano que não está imune ao sofrimento e aos acontecimentos da vida rompe com a ideia de que o terapeuta ocupa um lugar de saber absoluto ou estabilidade emocional. A ideia de Yalom sobre pensar paciente e terapeuta como “companheiros de viagem” reconhece o que há de maior potência nessa troca: a humanidade.
A partir da reflexão do Schopenhauer também podemos pensar sobre a humanidade que todos nós compartilhamos enquanto vivos: o sofrimento, a falta de garantias, os problemas e as alegrias.
Esses sentimentos e acontecimentos cada um de nós experienciamos de uma forma, mas de fato, todos nós experienciamos. E para mim, não há nada mais humano e sinônimo de vida do que isso.
Somos seres completos em nossa incompletude.
E o final da história dos curandeiros neste capítulo evidencia que o cuidador também precisa ser cuidado e, principalmente, a importância de um encontro humano, transparente e verdadeiro.
Que os papéis de terapeuta e paciente não nos limite, mas sim nos potencializem como seres humanos.
Rafa Dutra | Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
Há uns 15 anos eu utilizo esta metáfora do “companheiros de viagem” quando, na primeira sessão com um novo paciente, eu vou explicar a minha maneira de entender o que é a terapia. E depois de todo esse tempo e de ter realizado milhares de atendimentos com centenas de pacientes, essa metáfora me faz ainda mais sentido.
Enquanto psicólogas/terapeutas não estamos acima de nenhuma das grandes questões humanas, estamos imersos, talvez até de maneira mais profunda, em todas elas. E nosso lugar nesta relação terapêutica jamais será a posição de um “guru” que já atingiu a iluminação, tão pouco de um “coach” que já atingiu o sucesso.
Esta partilha humana, verdadeira e transparente é, sem dúvida, uma das maiores potências e, ao mesmo tempo, uma das maiores dificuldades no encontro terapêutico. Levei anos para conseguir construir este tipo de relacionamento do lugar de psicólogo, e ainda hoje às vezes não consigo.
Penso que esta concepção é ainda mais importante nos dias de hoje em que o trabalho é atravessado pelas redes sociais, em que muitas das vezes as psicólogas se apresentam como aquelas que estão bem, fazendo os enfrentamentos das questões e dos desafios da vida e vencendo, cuidando da saúde, estudando, tendo vida social, construindo suas famílias, fazendo suas viagens, construindo uma imagem de sucesso e bem-estar. Esta imagem não condiz com a vida privada em que estamos todos tentando dar conta de um mundo difícil e uma vida que cheia de faltas, dúvidas, angústias e carências.
A cultura da performance e o marketing pessoal atravessou as profissionais da Psicologia (não só as que estão no início da carreira, mas principalmente elas) de um jeito muito intenso e precisamos olhar para tudo isso com atenção. É indispensável lembrar que, do início ao fim, seremos apenas companheiros de uma viagem.
Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
Os estudantes de psicoterapia de hoje em dia estão expostos a uma ênfase excessiva no diagnóstico. Os administradores de planos de saúde exigem que os terapeutas cheguem rapidamente a um diagnóstico preciso e, em seguida, prossigam com um curso de terapia breve e focada que corresponda a esse diagnóstico específico. Parece bom. Parece lógico e eficiente. Mas tem muito pouco a ver com a realidade. Em vez disso, representa uma tentativa ilusória de impor a precisão científica quando ela não é possível nem desejável.
Embora o diagnóstico seja inquestionavelmente crítico nas considerações de tratamento para muitas condições graves com um substrato biológico (por exemplo, esquizofrenia, transtornos bipolares, transtornos afetivos graves, epilepsia do lobo temporal, toxicidade de drogas, doença orgânica ou cerebral causada por toxinas, causas degenerativas ou agentes infecciosos), o diagnóstico é muitas vezes contraproducente na psicoterapia cotidiana de pacientes menos gravemente prejudicados.
Por quê? Primeiro, a psicoterapia consiste em um processo de desenvolvimento gradual em que o terapeuta tenta conhecer o paciente do modo mais pleno possível. Um diagnóstico limita a visão; ele diminui a capacidade de se relacionar com o outro enquanto pessoa. Uma vez que fazemos um diagnóstico, tendemos a desatentar seletivamente para aspectos do paciente que não se encaixam naquele diagnóstico específico e, por consequência, a superestimar características sutis que parecem confirmar um diagnóstico inicial. Além disso, um diagnóstico pode atuar como uma profecia autorrealizável.
Relacionar-se com um paciente como “borderline” ou “histérico” pode servir para estimular e perpetuar essas mesmas características. De fato, há uma longa história de influência iatrogênica na forma de entidades clínicas, incluindo a atual controvérsia sobre transtorno de personalidade múltipla e memórias reprimidas de abuso sexual. E tenha em mente, também, a baixa confiabilidade da categoria de transtorno de personalidade do DSM (com frequência, os próprios pacientes se envolvem em psicoterapia de longo prazo).
E que terapeuta não se impressionou com o quanto é mais fácil fazer um diagnóstico baseado no DSM-IV depois da primeira entrevista do que muito mais tarde – digamos, da décima sessão em diante -, quando sabemos muito mais sobre o indivíduo? Não é um tipo estranho de ciência? Um colega meu traz essa questão para seus residentes psiquiátricos perguntando: “Se você está fazendo psicoterapia pessoal ou está considerando fazer, que diagnóstico do DSM-IV você acha que seu terapeuta poderia usar para descrever alguém tão complicado quanto você?”.
Na empreitada terapêutica, devemos traçar uma linha tênue entre alguma, mas não muita, objetividade; se levarmos o DSM muito a sério, se acreditarmos que estamos mesmo manipulando as articulações da natureza, então podemos ameaçar o humano, o espontâneo, a natureza criativa e incerta do empreendimento terapêutico. Lembre-se de que os clínicos envolvidos na formulação de sistemas diagnósticos anteriores, agora descartados, eram competentes, orgulhosos e tão confiantes quanto os atuais membros dos comitês do DSM. Sem dúvida, chegará o tempo em que o formato de menu de restaurante chinês do DSM-IV parecerá ridículo para os profissionais de saúde mental.
Maria Fernanda | Estudante de Psicologia
Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Esse segundo capítulo aborda um assunto que, atualmente, acompanhando as redes sociais, é um dos tópicos mais comentados: a patologização excessiva e a busca por diagnóstico a todo custo. A sensação que eu tenho é que tudo precisa virar diagnóstico e há uma necessidade de se encaixar em alguma “categoria”.
Na faculdade debatemos bastante sobre como o diagnóstico pode limitar o paciente e o profissional. Ao ponto de deixar de vê-lo como um indivíduo e passar a vê-lo como o diagnóstico. Desconsiderando a complexidade e limitando um sujeito inteiro em uma categoria. E que bom que Yalom já vem problematizando isso!
Para mim, faz sentido e eu acredito que o diagnóstico não pode substituir o encontro, a escuta, a profundidade e a complexidade que é ser humano. É necessário considerar e entender todas as nuances, condições de desenvolvimento, aspectos sociais, políticos e históricos.
Ser humano é ser complexo. E nenhum sujeito cabe inteiro em uma categoria. E isso precisa ser problematizado e pautado ainda mais.
Rafa Dutra | Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
A primeira edição deste livro está prestes a completar bodas de prata, Yalom traz esta provocação em 2002, e ele termina o texto dizendo que “chegará o tempo em que o formato de menu de restaurante chinês do DSM-IV parecerá ridículo para os profissionais de saúde mental“. Pois bem, com o DSM-V e o que temos visto acontecer, penso que este tempo chegou.
Hoje temos todo um movimento que faz a discussão, no Brasil e no mundo, sobre o fenômeno da patologização e medicalização da vida. Um movimento que problematiza o quanto essa ênfase no diagnóstico, com a desculpa de que “isso sim é Ciência” vem desconsiderando a complexidade que constitui o ser humano e, sobretudo, as condições sociais que produzem determinadas condições psicológicas.
Achei muito interessante e provocativa a fala dele dizendo que é muito mais fácil fazer um diagnóstico nas primeiras sessões do que depois da décima, quando toda a complexidade da pessoa que esta diante de nós vai se desdobrando e aparecendo no processo terapêutico, e concordo.
Eu, particularmente, sempre gostei de substituir a palavra diagnóstico pela palavra mapeamento. Primeiro, para fugir do vocabulário médico, segundo porque penso que vamos de fato mapeando e conhecendo a pessoa, sua história, suas questões, suas relações e seus projetos, um mapa inacabado, que nos ajuda a criar estratégias terapêuticas, mas que se sabe inacabado e em movimento.
Finalizo fazendo minhas as palavras do Yalom: evite o diagnóstico!
DESAFIOS DA TERAPIA | REMOVA OS OBSTÁCULOS DO CRESCIMENTO
Nesta coluna vamos apresentar um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
Capítulo 1: Remova os obstáculos do crescimento (Irvin D. Yalom)
Quando eu estava descobrindo meu caminho, ainda um jovem estudante de psicoterapia, o livro mais útil que li foi Neurose e desenvolvimento humano, de Karen Horney. E um dos conceitos mais proveitosos daquelas páginas era a noção de que o ser humano tem uma propensão inata para a autorrealização. Se os obstáculos forem removidos, acreditava Horney, o indivíduo se tornará um adulto maduro e realizado por completo, assim como uma noz se transformará em um carvalho.
“Assim como uma noz se transformará em um carvalho…” Que imagem maravilhosamente libertadora e esclarecedora! Ela mudou para sempre minha abordagem psicoterapêutica, oferecendo-me uma nova visão do meu trabalho: minha tarefa era remover os obstáculos que bloqueavam o caminho do meu paciente. Não precisava fazer todo o trabalho; não precisava inspirar o paciente com desejo de crescer, com curiosidade, vontade, gosto pela vida, carinho, lealdade ou qualquer uma das inúmeras características que nos tornam plenamente humanos. Não, o que eu tinha que fazer era identificar e remover os obstáculos. O resto se seguiria de modo automático, alimentado pelas forças autoatualizadoras dentro do paciente.
Lembro-me de uma jovem viúva com, como ela disse, um “coração fracassado” – uma incapacidade de amar mais uma vez. Parecia assustador lidar com a incapacidade de amar. Eu não sabia como fazer isso.
Mas me dedicar a identificar e desenraizar seus muitos bloqueios ao amor? Isso eu poderia fazer.
Logo aprendi que o amor parecia traiçoeiro para ela. Amar outra vez era trair o marido morto; era como martelar os últimos pregos no caixão dele. Amar alguém tão profundamente quanto o amou (e ela não se contentaria com nada menos) significava que aquele amor tinha sido de alguma forma insuficiente ou imperfeito. Amar outro seria autodestrutivo porque a perda e sua dor lancinante eram inevitáveis. Amar de novo parecia irresponsável: seria algo mau e agourento, e seu beijo seria o beijo da morte.
Trabalhamos duro por muitos meses para identificar todos esses obstáculos a que ela amasse outro homem. Durante meses, lutamos contra cada obstáculo irracional. Mas, uma vez feito isso, os processos internos da paciente assumiram o controle: ela conheceu um homem, apaixonou–se, casou-se novamente. Não precisei ensiná-la a procurar, a se dar, a gostar, a amar – eu não saberia como fazer isso.
Algumas palavras sobre Karen Horney: seu nome não é familiar para a maioria dos jovens terapeutas. Como a vida útil de teóricos eminentes em nosso campo se tornou muito curta, devo, de tempos em tempos, cair em reminiscências – não apenas para homenagear, mas para destacar o fato de que nosso campo tem uma longa história de contribuições notavelmente capazes, que lançaram fundações profundas para o nosso trabalho de terapia atual.
Um acréscimo norte-americano à teoria psicodinâmica está representado no movimento “neofreudiano” – um grupo de clínicos e teóricos que reagiram contra o foco original de Freud na teoria da pulsão, isto é, a noção de que o indivíduo em desenvolvimento é controlado, de modo amplo, pelo desdobramento e expressão de impulsos inerentes.
Em ver disso, os neofreudianos ressaltaram que consideramos a vasta influência do ambiente interpessoal que envolve o indivíduo e que, ao longo da vida, molda a estrutura do caráter. Os teóricos interpessoais mais conhecidos – Harry Stack Sullivan, Erich Fromm e Karen Horney – foram tão profundamente integrados e assimilados em nossa linguagem e prática terapêutica que somos todos, sem saber, neofreudianos. Isso nos faz lembrar de Monsieur Jourdain em O burguês fidalgo, de Molière, que, ao aprender a definição de “prosa”, exclama com admiração: “E pensar que toda a minha vida tenho falado em prosa sem saber”.
YALOM, I.D. Remova os obstáculos do crescimento, In: YALOM, I. D. Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas. São Paulo: Editora Paidós, 2024. p. 23-25.
Maria Fernanda | Estudante de Psicologia
Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Achei esse primeiro capítulo muito interessante e de certa forma, me trouxe um alívio pensando na minha atuação como futura psicóloga. Como estudante e paciente, acredito que não há ninguém que conheça mais o indivíduo do que ele mesmo!
Esse trecho reforça e retira essa responsabilidade do psicólogo de que é dele o papel de resolução dos problemas do paciente, quando na verdade a função é outra! Confesso que também já tive esse tipo de pensamento antes da faculdade e da psicoterapia… não sabia qual era de fato, o papel do psicólogo.
Uma frase que ouvi no decorrer do curso e me marcou até hoje é: “futuro psicólogo, você não tem o poder de SALVAR o paciente de todos os problemas e irá se frustrar se não entender qual é de fato o seu papel. E principalmente, iniciem a psicoterapia de vocês!”
Depois disso, iniciei minha psicoterapia! E entendi, ainda mais, a importância de ocupar o lugar de paciente para um dia atuar como psicóloga.
Rafa Dutra | Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
A ideia de uma “propensão inata para a autorrealização” me é um tanto estranha, afinal a ideia de um comportamento inato vai na contramão daquilo que compreendo a partir da construção social do sujeito.
No entanto, a reflexão sobre o papel do terapeuta como aquele que vai contribuir para a conscientização do paciente sobre seus obstáculos mergulhando em reflexões profundas e não como aquele que vai dar respostas e ensinar qual desejo deve ser realizado ou como realizar este desejo já é algo que me faz bastante sentido.
Minha compreensão histórico-social me impede de compreender que tais obstáculos sejam apenas do sujeito, sua história de vida e/ou aos significados atribuídos a sua experiência de vida, pois existem obstáculos estruturais e sociais que o terapeuta não será capaz de “remover”, e eles também constituem a subjetividade e as possibilidades de vida que se apresentam para cada um de nós.
Feitas tais ressalvas, a ideia de que nosso trabalho é remover os obstáculos que impedem o crescimento é, também, a ideia de trabalhar na potência do nosso paciente; compreender quais elementos o impedem de efetivar sua potência, alcançando novas possibilidades de viver suas relações, seus projetos de vida e de maneira mais ampla, a própria existência!
Ampliar a consciência, trabalhar na potência e reconhecer nossa contribuição, nossas possibilidades e nossos limites são elementos fundamentais para a realização de um trabalho efetivo enquanto psicólogos clínicos, conscientes do nosso papel e também conscientes do que não seremos capazes de realizar em um processo terapêutico.