
DESAFIOS DA TERAPIA | ENSINE EMPATIA
Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
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A precisão empática é uma característica essencial não apenas para os terapeutas, mas também para os pacientes, e devemos ajudá-los a desenvolver empatia pelos outros. Tenha em mente que, em geral, nossos pacientes vêm nos ver por causa de sua falta de sucesso em desenvolver e manter relacionamentos interpessoais gratificantes. Muitos fracassam em simpatizar com os sentimentos e experiências dos outros.
Acredito que o aqui e agora oferece aos terapeutas uma maneira poderosa de ajudar os pacientes a desenvolver empatia. A estratégia é direta: ajude os pacientes a sentir empatia por você e eles automaticamente farão as extrapolações necessárias para outras figuras importantes em suas vidas. É bastante comum que os terapeutas perguntem aos pacientes como uma determinada afirmação ou ação deles pode afetar os outros. Sugiro que o terapeuta se inclua nessa questão.
Quando os pacientes arriscam um palpite sobre como me sinto, geralmente me concentro nisso. Se, por exemplo, um paciente interpreta algum gesto ou comentário e diz: “Você deve estar muito cansado de me ver”, ou “Sei que você sente muito por ter se envolvido comigo”, ou “Minha sessão deve ser a mais desagradável do dia”, farei um teste de realidade e comentarei: “Tem alguma pergunta aí para mim?”.
Isso é, obviamente, um simples treinamento de habilidades sociais: eu incito o paciente a me abordar ou me questionar diretamente, e me esforço para responder de maneira direta e útil. Por exemplo, posso responder: “Você está me interpretando errado. Eu não tenho nenhum desses sentimentos. Estou satisfeito com o nosso trabalho. Você tem mostrado muita coragem, você trabalha duro, nunca perdeu uma sessão, nunca se atrasou, você se arrisca compartilhando muitas coisas íntimas comigo. Em todos os sentidos aqui, você faz o seu trabalho. Mas percebo que, sempre que você arrisca um palpite sobre como me sinto em relação a você, muitas vezes isso não combina com minha experiência interior, e o erro é sempre na mesma direção: você me vê como alguém que se incomoda, mas eu não me incomodo de jeito nenhum”.
Outro exemplo:
“Eu sei que você já ouviu essa história antes, mas..” (e o paciente passa a contar uma longa história).
“Estou impressionado com a frequência com que você diz que eu já ouvi essa história antes e depois continua a contá-la.”
“É um mau hábito, eu sei. Eu não entendo.”
“Qual é o seu palpite sobre como me sinto ouvindo a mesma história de novo?”
“Deve ser entediante. Você provavelmente fica esperando o final da sessão – deve ficar olhando o relógio.”
“Existe uma pergunta aí para mim?”
“Bem, é entediante?”
“Eu fico mesmo impaciente por ouvir a mesma história mais uma vez”.”Sinto que ela se interpõe entre nós dois, como se você não estivesse realmente falando comigo. Você estava certo sobre eu verificar o relógio. Sim, mas foi com a esperança de que, quando sua história terminasse, ainda tivéssemos tempo para fazer contato antes do final da sessão.”

Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia
Estudante do 8º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Para mim, a empatia começa consigo mesmo. Entendo que, para algumas pessoas, pode ser mais fácil sentir empatia pelos outros e tratá-los com carinho do que fazer isso consigo mesmas. Claro que também existe o contrário, mas, neste momento, vamos focar nesse exemplo.
Aceitar que você erra e, ao mesmo tempo, reconhecer seus potenciais também faz parte do processo terapêutico. Um exercício que faz muito sentido para mim, e que talvez dialogue com o que Yalom diz, é pensar: “será que essas palavras duras que digo a mim mesma eu conseguiria repetir, em voz alta, para a pessoa que mais amo na vida?” Seja um familiar, um amigo, um parceiro ou qualquer pessoa por quem eu tenha carinho e apreço.
E, acredite, muitas vezes você não diria isso a outra pessoa. Então, por que ser tão duro consigo mesmo?
Em janeiro deste ano, fui à exposição “A alma humana, você e o universo de Jung” e havia uma parede com algumas frases. Uma delas, em especial, me marcou muito e também dialoga com esse capítulo e com o exemplo que dei:
“Cada palavra dura contra si mesmo é como um machado contra a raiz da árvore.” — Sidnei Nogueira
Sinta empatia pelos outros, mas não se esqueça de sentir empatia pela sua própria raiz também.

Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
O deslocamento educativo do lugar da empatia que Yalom propõe neste capítulo é algo interessante, mas entendo que ela é usada como exemplo de algo maior que me chama mais atenção para trazer nesta discussão.
Logo no começo do capítulo ele traz que “em geral, nossos pacientes vêm nos ver por causa de sua falta de sucesso em desenvolver e manter relacionamentos interpessoais gratificantes. Muitos fracassam em simpatizar com os sentimentos e experiências dos outros“; e então desenvolve a sua provocação a partir da ideia de que podemos, do lugar de terapeuta, “emprestar” a nossa relação com o paciente para que ele consiga enxergar coisas que provavelmente não conseguiria nas outras relações.
E transformar a relação terapêutica em uma relação educativa sobre “como me relaciono com os outros“, de fato, me parece algo bastante potente. Não é toda relação que pode nos oferecer um feedback direto, assertivo e, ao mesmo tempo, acolhedor e reflexivo, como a relação terapêutica.
Compartilhar como a gente se sente naquela relação, compartilhar pensamentos que nos ocorrem e trazer a própria relação terapeuta-paciente para a discussão pode parecer uma
“heresia” para algumas profissionais, mas na minha experiência, via de regra este exercício é muito produtivo, pois permite uma expansão da percepção do próprio paciente sobre como ele esta se posicionando, o lugar que ele se coloca, o lugar que ele me coloca, e os acertos e os equívocos que acaba tendo na percepção dele sobre mim ou sobre os impactos deles em mim.
Para além das interpretações, insights, provocações e reflexões, a dimensão educativa que uma relação de tamanha profundidade pode ter merece e precisa ser explorada num processo terapêutico!
