Desafios da Terapia | Ensine Empatia

DESAFIOS DA TERAPIA | ENSINE EMPATIA

Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
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A precisão empática é uma característica essencial não apenas para os terapeutas, mas também para os pacientes, e devemos ajudá-los a desenvolver empatia pelos outros. Tenha em mente que, em geral, nossos pacientes vêm nos ver por causa de sua falta de sucesso em desenvolver e manter relacionamentos interpessoais gratificantes. Muitos fracassam em simpatizar com os sentimentos e experiências dos outros.

Acredito que o aqui e agora oferece aos terapeutas uma maneira poderosa de ajudar os pacientes a desenvolver empatia. A estratégia é direta: ajude os pacientes a sentir empatia por você e eles automaticamente farão as extrapolações necessárias para outras figuras importantes em suas vidas. É bastante comum que os terapeutas perguntem aos pacientes como uma determinada afirmação ou ação deles pode afetar os outros. Sugiro que o terapeuta se inclua nessa questão.

Quando os pacientes arriscam um palpite sobre como me sinto, geralmente me concentro nisso. Se, por exemplo, um paciente interpreta algum gesto ou comentário e diz: “Você deve estar muito cansado de me ver”, ou “Sei que você sente muito por ter se envolvido comigo”, ou “Minha sessão deve ser a mais desagradável do dia”, farei um teste de realidade e comentarei: “Tem alguma pergunta aí para mim?”.

Isso é, obviamente, um simples treinamento de habilidades sociais: eu incito o paciente a me abordar ou me questionar diretamente, e me esforço para responder de maneira direta e útil. Por exemplo, posso responder: “Você está me interpretando errado. Eu não tenho nenhum desses sentimentos. Estou satisfeito com o nosso trabalho. Você tem mostrado muita coragem, você trabalha duro, nunca perdeu uma sessão, nunca se atrasou, você se arrisca compartilhando muitas coisas íntimas comigo. Em todos os sentidos aqui, você faz o seu trabalho. Mas percebo que, sempre que você arrisca um palpite sobre como me sinto em relação a você, muitas vezes isso não combina com minha experiência interior, e o erro é sempre na mesma direção: você me vê como alguém que se incomoda, mas eu não me incomodo de jeito nenhum”.

Outro exemplo:

“Eu sei que você já ouviu essa história antes, mas..” (e o paciente passa a contar uma longa história).
“Estou impressionado com a frequência com que você diz que eu já ouvi essa história antes e depois continua a contá-la.”
“É um mau hábito, eu sei. Eu não entendo.”
“Qual é o seu palpite sobre como me sinto ouvindo a mesma história de novo?”
“Deve ser entediante. Você provavelmente fica esperando o final da sessão – deve ficar olhando o relógio.”
“Existe uma pergunta aí para mim?”
“Bem, é entediante?”
“Eu fico mesmo impaciente por ouvir a mesma história mais uma vez”.”Sinto que ela se interpõe entre nós dois, como se você não estivesse realmente falando comigo. Você estava certo sobre eu verificar o relógio. Sim, mas foi com a esperança de que, quando sua história terminasse, ainda tivéssemos tempo para fazer contato antes do final da sessão.”


Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia

Estudante do 8º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Para mim, a empatia começa consigo mesmo. Entendo que, para algumas pessoas, pode ser mais fácil sentir empatia pelos outros e tratá-los com carinho do que fazer isso consigo mesmas. Claro que também existe o contrário, mas, neste momento, vamos focar nesse exemplo.

Aceitar que você erra e, ao mesmo tempo, reconhecer seus potenciais também faz parte do processo terapêutico. Um exercício que faz muito sentido para mim, e que talvez dialogue com o que Yalom diz, é pensar: “será que essas palavras duras que digo a mim mesma eu conseguiria repetir, em voz alta, para a pessoa que mais amo na vida?” Seja um familiar, um amigo, um parceiro ou qualquer pessoa por quem eu tenha carinho e apreço.

E, acredite, muitas vezes você não diria isso a outra pessoa. Então, por que ser tão duro consigo mesmo?

Em janeiro deste ano, fui à exposição “A alma humana, você e o universo de Jung” e havia uma parede com algumas frases. Uma delas, em especial, me marcou muito e também dialoga com esse capítulo e com o exemplo que dei:

Cada palavra dura contra si mesmo é como um machado contra a raiz da árvore.” — Sidnei Nogueira

Sinta empatia pelos outros, mas não se esqueça de sentir empatia pela sua própria raiz também.


Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor

Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.

O deslocamento educativo do lugar da empatia que Yalom propõe neste capítulo é algo interessante, mas entendo que ela é usada como exemplo de algo maior que me chama mais atenção para trazer nesta discussão.

Logo no começo do capítulo ele traz que “em geral, nossos pacientes vêm nos ver por causa de sua falta de sucesso em desenvolver e manter relacionamentos interpessoais gratificantes. Muitos fracassam em simpatizar com os sentimentos e experiências dos outros“; e então desenvolve a sua provocação a partir da ideia de que podemos, do lugar de terapeuta, “emprestar” a nossa relação com o paciente para que ele consiga enxergar coisas que provavelmente não conseguiria nas outras relações.

E transformar a relação terapêutica em uma relação educativa sobre “como me relaciono com os outros“, de fato, me parece algo bastante potente. Não é toda relação que pode nos oferecer um feedback direto, assertivo e, ao mesmo tempo, acolhedor e reflexivo, como a relação terapêutica.

Compartilhar como a gente se sente naquela relação, compartilhar pensamentos que nos ocorrem e trazer a própria relação terapeuta-paciente para a discussão pode parecer uma
“heresia” para algumas profissionais, mas na minha experiência, via de regra este exercício é muito produtivo, pois permite uma expansão da percepção do próprio paciente sobre como ele esta se posicionando, o lugar que ele se coloca, o lugar que ele me coloca, e os acertos e os equívocos que acaba tendo na percepção dele sobre mim ou sobre os impactos deles em mim.

Para além das interpretações, insights, provocações e reflexões, a dimensão educativa que uma relação de tamanha profundidade pode ter merece e precisa ser explorada num processo terapêutico!

Desafios da Terapia | Empatia: olhando pela janela do paciente

DESAFIOS DA TERAPIA | EMPATIA: OLHANDO PELA JANELA DO PACIENTE

Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
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É estranho como certas frases ou eventos se alojam na mente de alguém e oferecem orientação ou conforto contínuos. Décadas atrás, atendi uma paciente com câncer de mama que passou toda a adolescência travada em uma longa e amarga luta com seu pai pessimista.

Ansiosa por alguma forma de reconciliação, por um novo começo para o relacionamento deles, esperava viajar com seu pai para a faculdade – um momento em que ficaria sozinha com ele por várias horas. Mas a tão esperada viagem provou-se um desastre: ele se comportou como sempre, reclamando sobre o riacho feio e cheio de lixo ao longo da estrada. Ela, por outro lado, não viu lixo algum no belo, rústico e intocado riacho. Como a minha paciente não encontrava jeito de responder, por fim, caiu em silêncio e os dois passaram o resto da viagem sem olhar um para o outro.

Em outro momento, ela fez a mesma viagem sozinha e ficou surpresa ao notar que havia dois riachos – um de cada lado da estrada. “Dessa vez eu estava dirigindo“, disse ela com tristeza, “e o riacho que vi pela janela do lado do motorista era tão feio e poluído quanto meu pai tinha descrito“. Quando aprendeu a olhar pela janela de seu pai, porém, já era tarde demais – seu pai estava morto e enterrado.

Essa história permaneceu comigo e, em muitas ocasiões, lembrei a mim mesmo e a meus alunos: “Olhe pela janela do outro. Tente ver o mundo como seu paciente o vê“. A mulher que me contou essa história morreu pouco tempo depois, de câncer de mama, e lamento não poder contar a ela como sua história foi útil ao longo dos anos, para mim, meus alunos e muitos pacientes.

Cinquenta anos atrás, Carl Rogers identificou a “precisão empática” como uma das três características essenciais do terapeuta eficaz (juntamente com a “aceitação positiva incondicional” e a “autenticidade”) e lançou o campo da pesquisa em psicoterapia, que acabou reunindo consideráveis evidências para apoiar a eficácia da empatia.

A terapia é aprimorada se o terapeuta entrar com precisão no mundo do paciente. Os pacientes lucram muito apenas com a experiência de serem enxergados e compreendidos por completo. Portanto, é importante que apreciemos como nosso paciente vivencia o passado, o presente e o futuro. Faço questão de verificar repetidamente minhas suposições. Por exemplo:

“Bob, quando penso em seu relacionamento com Mary, é isso que entendo. Você diz que está convencido de que você e ela são incompatíveis, que deseja muito se separar dela, que se sente entediado em sua companhia e evita passar noites inteiras com ela. No entanto, agora, quando ela fez o movimento que você queria e se afastou, você mais uma vez anseia por ela. Acho que ouvi você dizer que não quer ficar com ela, mas não suporta a ideia de ela não estar disponível quando você precisar dela. Estou certo até agora?”.

A precisão empática é mais importante no domínio do presente imediato – isto é, o aqui e agora da sessão da terapia. Tenha em mente que os pacientes veem as sessões de terapia de maneira muito diferente dos terapeutas. Repetidas vezes, os terapeutas, mesmo os mais experientes. ficam muito surpresos ao redescobrir esse fenômeno. Não é incomum que um de meus pacientes comece uma sessão descrevendo uma intensa reação emocional a algo que ocorreu durante a sessão anterior, e eu me sinto perplexo, sem poder imaginar o que aconteceu para provocar uma reação tão poderosa.

Essas visões divergentes entre paciente e terapeuta chamaram minha atenção pela primeira vez anos atrás, quando eu estava conduzindo uma pesquisa sobre a experiência dos membros de grupos, tanto de terapia quanto os de encontro. Pedi a muitos deles que preenchessem um questionário no qual identificassem os acontecimentos críticos de cada reunião. Os ricos e variados acontecimentos descritos diferiam muito das avaliações dos líderes de seus grupos sobre os acontecimentos críticos de cada reunião, e uma diferença semelhante existia entre a seleção dos membros e líderes dos acontecimentos mais críticos para toda a experiência do grupo.

Meu próximo encontro com as diferenças nas perspectivas do paciente e do terapeuta ocorreu em um experimento informal, no qual um paciente e eu escrevemos resumos de cada sessão de terapia. A experiência tem uma história curiosa. A paciente, Ginny, era uma talentosa escritora que estava sofrendo não só de um grave bloqueio de escrita, mas também de todas as formas de expressividade. A participação de um ano em meu grupo de terapia foi relativamente improdutiva: ela revelou pouco de si mesma, deu pouco de si aos outros membros e me idealizou tanto que nenhum encontro genuíno foi possível.

Então, quando Ginny teve que deixar o grupo por causa de pressões financeiras, propus um experimento incomum. Ofereci-me para encontrá-la em terapia individual com a condição de que, como pagamento, ela escrevesse um resumo livre e sem censura de cada sessão, expressando todos os sentimentos e pensamentos que não tivesse verbalizado durante os encontros. Eu, de minha parte, propus fazer exatamente o mesmo e sugeri que cada um de nós entregasse nossos relatórios semanais lacrados à minha secretária e que, a cada poucos meses, lêssemos as anotações um do outro.

Minha proposta tinha muitas serventias. Eu esperava que a tarefa de redação pudesse não apenas liberar a escrita de minha paciente, mas também encorajá-la a se expressar mais livremente na terapia. Talvez, eu esperava, ela ler minhas anotações pudesse melhorar nosso relacionamento. Eu pretendia escrever notas sem censura, revelando minhas experiências durante a sessão: meus prazeres, frustrações e distrações.

Era possível que, se Ginny pudesse me enxergar de forma mais realista, ela pudesse começar a me desidealizar e se relacionar comigo de uma forma mais humana.

(Como um aparte não pertinente a essa discussão sobre empatia, eu acrescentaria que essa experiência ocorreu em um momento em que eu estava tentando desenvolver minha voz como escritor, e minha oferta de escrever em paralelo com minha paciente também teve um motivo autointeressado: ela me proporcionou um exercício de escrita incomum e uma oportunidade de quebrar meus grilhões profissionais para, liberando minha voz, escrever tudo o que me viesse à mente de imediato depois de cada sessão).

A troca de notas a cada poucos meses forneceu uma experiência semelhante ao efeito Rashomon. Embora tivéssemos compartilhado a sessão, nós a vivenciamos e nos recordamos dela de forma idiossincrática. Por um lado, valorizamos partes muito diferentes da sessão. Minhas interpretações elegantes e brilhantes? Ela nem as ouviu. Em vez disso, Ginny valorizava os pequenos atos pessoais que eu mal notava: elogiar suas roupas, aparência ou escrita, minhas desculpas desajeitadas por chegar alguns minutos atrasado, rir de sua sátira, provocá-la quando encenávamos.

Todas essas experiências me ensinaram a não supor que o paciente e eu tivemos a mesma experiência na sessão. Quando os pacientes discutem sentimentos que tiveram na sessão anterior, faço questão de indagar sobre sua experiência e quase sempre aprendo algo novo e inesperado.

Ser empático é tão parte do discurso cotidiano – cantores populares cantam platitudes sobre estar na pele do outro – que tendemos a esquecer a complexidade do processo. É extraordinariamente difícil saber de fato o que o outro sente; com muita frequência, projetamos nossos sentimentos no outro.

Ao ensinar os alunos sobre empatia, Erich Fromm com frequência citava a declaração de Terêncio de dois mil anos atrás – “Sou humano: nada do que é humano me é estranho” – e nos exortava a estarmos abertos para aquela parte de nós mesmos que corresponde a qualquer ação ou fantasia trazidas pelos pacientes, não importa quão hedionda, violenta, lasciva, masoquista ou sádica. Se não agíssemos assim, ele sugeria que investigássemos por que escolhemos fechar essa parte de nós mesmos.

Claro, o conhecimento do passado do paciente aumenta muito nossa capacidade de olhar pela janela do paciente. Se, por exemplo, os pacientes sofreram uma longa série de perdas, eles verão o mundo através das lentes da perda. Eles podem não estar inclinados, por exemplo, a deixar você chegar muito perto por medo de sofrer mais uma perda. Portanto, a investigação do passado pode ser importante não para construir cadeias causais, mas porque nos permite ser empáticos com mais precisão.


Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia

Estudante do 8º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Esse conceito de “olhar pela janela do paciente” me trouxe na lembrança as aulas de fenomenologia. Lembrei de um exemplo que discutimos em sala sobre uma garrafa de vinho. O capítulo II do livro “O paciente psiquiatrico” de J.H. Van den Berg dizia que uma garrafa de vinho não possui um significado único e fixo, ela pode representar coisas completamente diferentes para pessoas diferentes e, inclusive, assumir significados distintos para a mesma pessoa, dependendo do momento da vida em que ela se encontra.

Olhar pela perspectiva do paciente é essencial na psicoterapia justamente porque aquilo que aconteceu, ou aquilo que está sendo vivido, nunca carrega um significado universal. Cada pessoa atribui sentidos às suas experiências a partir da própria história, das relações que construiu e da forma como enxerga o mundo naquele momento.

Também ficou marcado o trecho que Yalom fala sobre as diferentes percepções da sessão. Muitas vezes o terapeuta considera uma interpretação muito importante, enquanto o paciente guarda justamente um comentário que o terapeuta considera simples. Isso reforça que por mais que planejemos nossas intervenções e falas, nunca temos total controle sobre aquilo que será significativo para o outro. 

Para mim, a empatia é um exercício contínuo de reconhecer que sempre haverá algo da experiência do outro que ainda não conseguimos enxergar ou compreender. E de construir, junto com o paciente, um ambiente seguro para ele possa nos mostrar e falar sobre suas interpretações e significados. 


Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor

Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.

Empatia talvez seja um dos maiores clichês no universo da Psicologia, e como sempre gosto de dizer, não é por acaso que os clichês são clichês, é preciso reconhecer o valor deles. Se por um lado resumir o encontro terapêutico apenas à empatia é reduzir toda a potência deste encontro, por outro, sem empatia, o encontro terapêutico não acontece.

Lembro da primeira vez que uma professora falou sobre empatia em sala de aula, ela deu o exemplo de “vestir o sapato do outro e caminhar pelo mundo a partir dos passos do outro”, mas logo depois nos advertiu: “só não esqueçam de tirar os sapatos dele e voltar para os seus!”.

Penso que o importante é este movimento, compreender o mundo do outro para se conectar, mas intervir a partir do seu mundo para produzir reflexões e deslocamentos, como uma dança, mas de improviso. De fato, não temos tanto controle como gostaríamos (e algumas psis e abordagens teóricas tentam).

Este exercício que Yalom comenta que fez com sua paciente se tornou um livro, “Cada dia mais perto” é o nome em português, e sem dúvida vale a leitura. Perceber tão explicitamente a diferença de percepção do terapeuta e da paciente sobre a mesma sessão é uma maneira bastante didática de nos colocar para pensar sobre como devemos nos movimentar neste encontro.

A declaração de Terêncio citada por Erich Fromm que Yalom traz para o texto: “Sou humano: nada do que é humano me é estranho”, reforça algo que acredito muito; quanto mais repertório humano eu tenho, mais facilidade (ou menos dificuldade) eu terei de me conectar com meu paciente. Por isso sempre digo às estudantes e psis que tenho a oportunidade de conversar que ampliar nossa visão e vivência de mundo nos faz uma psicóloga melhor.

É preciso olhar pela janela do outro, é preciso calçar os sapatos do outro, mas não se esqueçam de tirar os dele, calçar os seus e seguir construindo a relação a partir do seu papel de terapeuta. Explorar sentidos, significados, percepções de mundo é parte essencial de um bom processo e de um vínculo terapêutico que permita produz trocas, deslocamentos e transformações, mas isso é apenas o ponto de partido, é preciso ir muito além.

Desafios da Terapia | Ofereça apoio

DESAFIOS DA TERAPIA | OFEREÇA APOIO

Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
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Um dos grandes valores da terapia pessoal intensiva é experimentar por si mesmo o grande valor do apoio positivo. Pergunta: de que os pacientes se lembram quando, anos depois, olham para trás, para a experiência na terapia? Resposta: não são os insights, não são as interpretações do terapeuta. Na maioria das vezes, eles se lembram das declarações positivas de apoio de seu terapeuta.

Faço questão de expressar regularmente meus pensamentos e sentimentos positivos sobre meus pacientes, perpassando uma ampla gama de atributos – por exemplo, suas habilidades sociais, curiosidade intelectual, cordialidade, lealdade aos amigos, articulação, coragem para enfrentar seus demônios internos, dedicação para mudar, vontade de se revelar, gentileza amorosa com seus filhos, compromisso de quebrar o ciclo de abuso e decisão de não passar a “batata quente” para a próxima geração.

Não seja mesquinho – não faz sentido; há todos os motivos para expressar essas observações e seus sentimentos positivos. E tome cuidado com elogios vazios – torne seu apoio tão incisivo quanto seu feedback ou interpretações. Tenha em mente o grande poder do terapeuta – poder que, em parte, decorre de termos conhecimento do evento, pensamentos e fantasias mais íntimas da vida de nossos pacientes. A aceitação e o apoio de alguém que o conhece em seu íntimo são positivos ao extremo.

Se os pacientes derem um passo terapêutico importante e corajoso, elogie-os por isso. Se estive profundamente envolvido na sessão e lamento que ela tenha chegado ao fim, digo que é uma pena ter que encerrar. E (uma confissão – todo terapeuta tem um estoque de pequenas transgressões secretas!) não hesito em expressar isso de forma não verbal, ultrapassando a sessão em alguns minutos.

Com frequência, o terapeuta é o único público que assiste a grandes dramas e atos de coragem. Tal privilégio exige uma resposta ao ator. Embora os pacientes possam ter outros confidentes, é provável que nenhum tenha a compreensão abrangente que o terapeuta tem de certos atos importantes. Por exemplo, anos atrás, um paciente, Michael, um romancista, um dia me informou que acabara de fechar sua caixa postal secreta.

Durante anos, essa caixa de correio foi seu meio de comunicação em uma longa série de casos extraconjugais clandestinos. Portanto, fechar a caixa foi um ato importante, e considerei minha responsabilidade apreciar a grande coragem de seu ato e fiz questão de expressar a ele minha admiração por sua ação.

Alguns meses depois, ele ainda se sentia atormentado por imagens e desejos recorrentes por sua última amante. Ofereci apoio.

Sabe, Michael, o tipo de paixão que você teve nunca se evapora rapidamente. Claro que você vai sentir saudades. É inevitável, isso faz parte da sua humanidade.”

“Parte da minha fraqueza, você quer dizer. Eu gostaria de ser um homem de aço e poder deixá-la para sempre.

Temos um nome para esses homens de aço: robôs. E robô, graças a Deus, você não é. Falamos com frequência sobre sua sensibilidade e sua criatividade – essas são suas qualidades mais ricas -; é por isso que sua escrita é tão poderosa e é por isso que outras pessoas são atraídas por você. Mas essas mesmas características têm um lado sombrio – a ansiedade -, que torna impossível para você viver essas circunstâncias com tranquilidade.

Um belo exemplo de comentário que me trouxe muito conforto ocorreu algum tempo atrás, quando expressei a um amigo – William Blatty, autor de O exorcista – meu desapontamento com uma crítica negativa de um de meus livros. Ele respondeu de uma maneira maravilhosamente solidária, que num instante curou minha ferida: “Irv, é claro que você está chateado com a crítica. Graças a Deus! Se você não fosse tão sensível, não seria um escritor tão bom“.

Todos os terapeutas descobrirão a própria maneira de apoiar os pacientes. Tenho uma imagem indelével em minha mente: Ram Dass descrevendo sua despedida de um guru com quem estudou por muitos anos em um asbram na Índia. Quando Ram Dass lamentou não estar pronto para partir por causa de suas muitas falhas e imperfeições, seu guru levantou-se e, lenta e solenemente, andou à sua volta em minuciosa inspeção, a qual concluiu com um pronunciamento oficial: “Não vejo imperfeições“.

Nunca circulei os pacientes, inspecionando-os visualmente, e nunca sinto que o processo de crescimento termina, mas, no entanto, essa imagem muitas vezes guiou meus comentários.

O apoio pode incluir comentários sobre a aparência: alguma peça de roupa, um semblante bem descansado e bronzeado, um novo penteado. Se um paciente fica obcecado com a falta de atratividade física, acredito que a coisa humana a fazer é comentar (se de fato se sentir assim) que você o considera atraente e se perguntar sobre as origens do mito de sua falta de atratividade.

Em uma história sobre psicoterapia em Mamãe e o sentido da vida, meu protagonista, Dr. Ernest Lash, é encurralado por uma paciente excepcionalmente atrativa que o pressiona com perguntas explícitas: “Sou atraente para os homens? Para você? Se você não fosse meu terapeuta, você se atrairia sexualmente por mim?”. Essas indagações são um pesadelo – ⁠questões que os terapeutas temem acima de todas as outras. É o medo de tais perguntas que faz muitos terapeutas darem tão pouco de si. Mas acredito que o medo é injustificado. Se você achar que isso é o melhor para o paciente, por que não dizer, como fez meu personagem fictício:

“Se tudo fosse diferente, nos conhecêssemos em outro mundo, eu fosse solteiro, não fosse seu terapeuta, aí sim eu acharia você muito atraente e com certeza faria um esforço para conhecê-la melhor”. Qual é o risco? Na minha opinião, tal franqueza simplesmente aumenta a confiança do paciente em você e no processo de terapia. É claro que isso não exclui outros tipos de indagação a respeito da questão – sobre, por exemplo, a motivação ou o momento do paciente (sendo “Por que agora?” a pergunta padrão), ou uma preocupação desordenada com fisicalidade ou sedução, que podem obscurecer questões ainda mais significativas.
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Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia

Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Há uma semana tive uma conversa com uma colega recém-formada e uma psicóloga que já atua na clínica há mais tempo. Durante nossa conversa, surgiu um tema muito comum para quem está começando a atender, a insegurança e o medo de agir de forma antiética. E, de certa forma, acho positivo que esses questionamentos apareçam, porque demonstram cuidado e responsabilidade com o paciente.

O que Yalom traz nesse capítulo pode parecer contraditório com algumas coisas que aprendemos na graduação. Dependendo do contexto, do paciente e do momento do processo terapêutico, acredito que seja válido reforçar avanços e oferecer apoio positivo, como ele propõe. Mas também penso que o psicólogo precisa compreender profundamente aquele processo para avaliar se esse tipo de intervenção faz sentido. Como acontece em grande parte da clínica, tudo depende, do paciente, do vínculo, do tempo e do momento.

Pensando especificamente nesse trecho, não sei se concordo totalmente quando Yalom afirma que os pacientes se lembram mais das declarações positivas de apoio do que dos insights ou interpretações. Talvez isso varie de pessoa para pessoa. No meu caso, enquanto paciente, o que mais fica marcado são os insights que tenho ao falar em voz alta durante a sessão. E também as contribuições da minha psicóloga, seja quando ela resgata algo que trouxe anteriormente, seja quando apresenta uma nova possibilidade de compreensão sobre aquilo que venho elaborando.

Ao mesmo tempo, reconheço que esses insights provavelmente só acontecem porque existe uma relação terapêutica na qual me sinto acolhida, compreendida e segura para me expressar. Talvez seja justamente isso que Yalom esteja tentando destacar: “o impacto de ser visto e aceito por alguém que conhece nossas vulnerabilidades mais profundas“.
Também acho importante destacar que ele não está falando de elogios vazios, mas de reconhecer genuinamente movimentos importantes do paciente. Existe uma diferença entre simplesmente validar e destacar a coragem, o esforço e as mudanças que a pessoa está construindo ao longo do processo. Nesse sentido, consigo compreender o valor que ele atribui ao apoio positivo.

Para mim, a psicoterapia vai muito além da validação. Muitas vezes, entrar em contato com aspectos dolorosos da própria história, reconhecer padrões ou dar nome a experiências difíceis também gera insights que ficam marcados na memória. Inclusive, já ouvi que costumamos responder com mais facilidade à pergunta “qual foi o pior momento da sua vida?” do que “qual foi o dia mais feliz da sua vida?“. Talvez porque experiências difíceis costumam nos atravessar de formas muito profundas.

Por isso, fico pensando, será que lembramos mais dos momentos de apoio ou dos insights? Ou será que um depende do outro? Afinal, talvez alguns dos nossos maiores insights só sejam possíveis porque nos sentimos suficientemente apoiados para olhar para aquilo que antes evitávamos enxergar.

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Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor

Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.

O apoio é fundamental, no sentido de fundamento/fundação do processo terapêutico. Do lugar de psicólogas, entramos na vida do outro sob uma perspectiva de intimidade muito particular e profunda. De fato, nos tornamos testemunha de uma história e de um projeto de vida, e damos suporte e acolhimento a uma série de contradições, “fraquezas”, “imperfeições” e dificuldades que compõem a experiência humana.

Lendo este texto do Yalom, me vem uma palavra que Paulo Freire nos deixou como presente: ESPERANÇAR!

O processo terapêutico é um espaço de produzir esperanças, na jornada na vida, nas possibilidades de caminhos e nas potências do paciente. Oferecer apoio é algo fundamental para construir essa esperança, sobretudo em si mesmo.

Como Byung-Chul Han nos provoca em “Sociedade do Cansaço”, internalizamos o algoz e com isso a autocobrança, a insegurança e até mesmo a desconfiança sobre nossas próprias capacidades se estabeleceram em um novo patamar.

Oferecer apoio pode ser, muitas vezes, uma intervenção divisora de águas não apenas no processo terapêutico, mas principalmente no enfrentamento da vida. É difícil, exige sensibilidade, posicionamento ético e até mesmo uma pré-disposição para arriscar na construção da relação terapêutica.

Existem momentos em que quem “empresta” a esperança, acredita e apoia o paciente é o terapeuta, e apenas ele. E sem dúvidas, esses são momentos que marcar a jornada terapêutica. Isso não significa reduzir a experiência e a troca terapêutica apenas ao “apoio” e ao “acolhimento”, mas significa compreender que este manejo compõe e é fundamental para o processo, desde que seja autêntico!

Desafios da Terapia | Envolva o paciente

DESAFIOS DA TERAPIA | ENVOLVA O PACIENTE

Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!


Muitos de nossos pacientes têm conflitos no domínio da intimidade e são ajudados na terapia simplesmente por meio de um relacionamento íntimo com o terapeuta. Alguns temem a intimidade porque acreditam que há algo inaceitável neles, algo repugnante e imperdoável.

Diante disso, o ato de revelar-se por completo a outro e ainda assim ser aceito pode ser o principal veículo de ajuda terapêutica. Outros podem evitar a intimidade por medo de exploração, colonização ou abandono; para eles, também, uma relação terapêutica íntima e carinhosa que não resulte na catástrofe esperada torna-se uma experiência emocional corretiva.

Portanto, nada tem precedência sobre o cuidado e a manutenção do meu relacionamento com o paciente, e eu presto atenção a cada nuance de como nos avaliamos um ao outro. O paciente parece distante hoje?

Competitivo? Desatento aos meus comentários? Ele faz uso do que eu digo em particular, mas se recusa a reconhecer minha ajuda? É excessivamente respeitoso? Obsequioso? Expressa muito raramente qualquer objeção ou desacordo? Está distante ou suspeitoso? Consigo entrar em seus sonhos ou devaneios? Quais são as palavras que usa em conversas imaginárias comigo? Quero saber todas essas coisas e muito mais.

Nunca deixo passar uma sessão sem verificar nosso relacionamento, às vezes com simples perguntas: “Como você e eu estamos hoje?” ou “O que está achando do espaço entre nós hoje?”.

Às vezes, peço ao paciente que se projete no futuro: “Imagine daqui a meia hora – você está voltando para casa, relembrando nossa sessão. Como você se sentirá sobre você e eu hoje? Quais serão as declarações não ditas ou perguntas não feitas sobre nosso relacionamento hoje?”.


Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia

Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Um dos maiores desafios na psicoterapia (para mim, pelo menos rs) é mostrar as suas sombras que você já conhece, e ao longo da análise descobrir algumas novas sombras. Causa um desconforto natural. Aliás, fazer psicoterapia é quase sempre um desconforto constante. 

É um processo a criação da intimidade e desse vínculo terapêutico, principalmente se for a primeira vez fazendo psicoterapia. A gente costuma vestir máscaras ao longo da vida, e entender que na psicoterapia é importante se desfazer de algumas máscaras é desconfortável mesmo. E doloroso muitas vezes. 

A preocupação do profissional da Psicologia em se questionar e questionar o paciente sobre o vínculo é importante principalmente pensando nessas máscaras vestidas.

A intimidade é uma construção baseada na transferência, no tempo, na identificação e também na energia investida nesse processo. E um vínculo terapêutico bem fortalecido contribui para que o paciente se sinta seguro o suficiente para entrar em contato com partes de si que muitas vezes passaram anos sendo evitadas, negadas ou escondidas. E isso não acontece de uma vez. É uma construção gradual, feita entre avanços, resistências, silêncios e descobertas.

O vínculo terapêutico precisa ser pensado com cuidado e sensibilidade, porque é justamente nessa relação que o paciente pode experimentar novas formas de existir e de se relacionar.


Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor

Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.

Construir vínculo e intimidade é sempre um desafio, sejam nas relações pessoais, sejam nas profissionais. E com a relação terapêutica não é diferente!

Esta é uma relação muito singular que não se reproduz em nenhum outro contexto que não o da terapia, essa relação psicóloga-paciente é única e é o nosso principal “instrumento” de trabalho. Mediamos um processo em que construímos uma intimidade que é de via única e que para além das tantas reflexões, escutas, provocações, insights e acolhimentos, se torna ela própria – a relação – uma intervenção na vida da paciente.

Envolver o paciente pode parecer algo óbvio e simples, mas o óbvio precisa ser dito e o simples às vezes é bem difícil de executar. Sobretudo nos dias de hoje com as tantas cobranças por resultados e por pessoas cada vez mais adoecidas e com dificuldades de entrar, de fato, em contato com as próprias questões.

É na relação que o processo acontece e é preciso cuidar com muito apreço dela, sem romantizar nem idealizar ser a “super-psicóloga”, mas uma relação atenta, profissional, pautada na ética do cuidado e construída no detalhe a cada encontro. Este cuidado é conjunto, com a participação ativa das pacientes, caso contrário, deslocamos o eixo da relação para a psicóloga, e daí as coisas podem sair do caminho que deveriam estar.

A relação não é padronizada e nem está dada, não é porque conseguimos construí-la uma vez que deixaremos de nos preocupar. Ela sempre se reconfigura e exige novos alinhamentos e posicionamentos, é uma relação viva, em movimento, com encontros e desencontros, atravessada por diferentes afetos, frágil e potente, como toda e qualquer intimidade, por isso mesmo precisa ser cuidada!

Desafios da Terapia | Terapeuta e paciente como “companheiros de viagem”

DESAFIOS DA TERAPIA | TERAPEUTA E PACIENTE COMO “COMPANHEIROS DE VIAGEM”

Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!


O romancista francês André Malraux escreveu sobre um padre com quem se confessou por muitas décadas e resumiu desta maneira o que aprendeu com ele a respeito da natureza humana: Em primeiro lugar, as pessoas são muito mais infelizes do que se pensa (…) e “pessoa adulta’ é coisa que não existe”. Todos – e isso inclui terapeutas e pacientes – estão destinados a experimentar não apenas a euforia da vida, mas também sua escuridão inevitável: desilusão, envelhecimento, doença, isolamento, perdas, falta de sentido, escolhas dolorosas e morte.

Ninguém definiu essas coisas de forma mais direta e sombria do que o filósofo alemão Arthur Schopenhauer:

No início da juventude, ao contemplarmos nossa vida futura, somos como crianças em um teatro antes que a cortina seja levantada, sentadas ali de bom grado e esperando ansiosamente pelo início da peça. É uma bênção não sabermos o que de fato vai acontecer. Se pudéssemos prever, há momentos em que as crianças podem parecer prisioneiras condenadas – condenadas não à morte, mas à vida, e ainda totalmente inconscientes do significado de sua sentença.

Ou ainda:

Somos como cordeiros no campo, divertindo-nos sob o olhar do açougueiro, que escolhe primeiro um e depois outro para sua faca. Assim é que, em nossos dias bons, todos nós estamos inconscientes do mal que o Destino pode ter reservado para nós – doença, pobreza, mutilação, perda da visão ou da razão.

Embora a visão de Schopenhauer seja fortemente influenciada pela própria infelicidade pessoal, ainda assim é difícil negar o desespero inerente à vida de cada indivíduo autoconsciente. Minha esposa e eu às vezes nos divertimos planejando jantares imaginários para grupos de pessoas que compartilham propensões semelhantes – por exemplo, uma festa para monopolistas, ou fogosos narcisistas, ou passivo-agressivos engenhosos que conhecemos ou, inversamente, uma festa “feliz” para a qual convidamos apenas as pessoas de fato felizes que encontramos. Embora não tenhamos encontrado problemas para preencher todos os tipos de outras mesas caprichosas, nunca fomos capazes de preencher uma mesa completa para nossa festa de “pessoas felizes”. Cada vez que identificamos alguns indivíduos alegres e os colocamos em uma lista de espera enquanto continuamos nossa busca para completar a mesa, descobrimos que um ou outro de nossos convidados felizes acaba sendo atingido por alguma adversidade importante na vida – muitas vezes uma doença grave, da própria pessoa ou de um filho ou cônjuge.

Essa visão da vida – trágica, mas realista – há muito influencia meu relacionamento com aqueles que buscam minha ajuda. Embora existam diversos termos para a relação terapêutica – paciente/terapeuta, cliente/conselheiro, analisando/analista, cliente/facilitador e (o mais recente – e, de longe, o mais repulsivo) usuário/provedor -, nenhum deles transmite com precisão minha percepção da relação terapêutica. Em vez disso, prefiro pensar em meus pacientes e em mim como companheiros de viagem, um termo que anula as distinções entre “eles” (os aflitos) e “nós” (os curandeiros). Durante meu treinamento, inúmeras vezes fui exposto à ideia do terapeuta totalmente analisado, mas, à medida que progredi na vida, estabeleci relacionamentos íntimos com muitos de meus colegas terapeutas, conheci as figuras mais importantes da área, fui chamado para prestar auxílio aos meus antigos terapeutas e professores e tornei-me um professor e um ancião, percebendo a natureza mítica desta ideia. Estamos todos juntos nisso e não há terapeuta nem pessoa imune às tragédias inerentes à existência.

Uma das minhas histórias favoritas de cura, encontrada em O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, envolve José e Dion, dois curandeiros renomados que viveram nos tempos bíblicos. Embora ambos fossem altamente eficazes, eles funcionavam de maneiras diferentes, O curandeiro mais jovem, José, curava por meio de uma escuta silenciosa e inspirada. Os peregrinos confiavam em José. O sofrimento e a ansiedade derramados em seus ouvidos desapareciam como água na areia do deserto, e os penitentes deixavam sua presença esvaziados e acalmados. Dion, o curandeiro mais velho, por sua vez, confrontava ativamente aqueles que buscavam sua ajuda. Ele adivinhava seus pecados não confessados. Era um grande juiz, castigador, repreensivo e retificador, e curava por meio de intervenção ativa. Tratando os penitentes como crianças, dava conselhos, punia com penitências, ordenava peregrinações e casamentos e obrigava inimigos a se reconciliarem.

Os dois curandeiros nunca se encontraram e trabalharam como rivais por muitos anos, até que José adoeceu espiritualmente, caiu em profundo desespero e foi assaltado por ideias de autodestruição. Incapaz de se curar com os próprios métodos terapêuticos, ele partiu em uma jornada para o sul em busca da ajuda de Dion.

Em sua peregrinação, José descansou uma noite em um oásis, onde começou a conversar com um viajante mais velho. Quando José descreveu o propósito e o destino de sua peregrinação, o viajante se ofereceu como guia para ajudar na busca por Dion. Mais tarde, no meio de sua longa jornada juntos, o velho viajante revelou sua identidade a José.

Mirabile dictu: ele mesmo era Dion – o homem que José procurava.

Sem hesitar, Dion convidou seu rival mais jovem e desesperado para sua casa, onde viveram e trabalharam juntos por muitos anos. Dion primeiro pediu a José que fosse um servo. Mais tarde, ele o elevou a aluno e, por fim, a colega de trabalho. Anos depois, Dion adoeceu e em seu leito de morte chamou seu jovem colega para ouvir uma confissão. Ele narrou a terrível doença anterior de José e sua viagem ao velho Dion para pedir ajuda. Falou sobre como José sentiu que era um milagre que seu companheiro de viagem e guia fosse o próprio Dion.

Agora que ele estava morrendo, era chegada a hora, disse Dion a José, de quebrar o silêncio a respeito daquele milagre. Dion confessou que na época também lhe pareceu um milagre, pois ele também caíra em desespero. Ele também se sentia vazio e morto espiritualmente e, incapaz de se ajudar, partiu em uma jornada em busca de ajuda. Na mesma noite em que se encontraram no oásis, ele estava em peregrinação a um famoso curandeiro chamado José.

A história de Hesse sempre me comoveu de uma forma sobrenatural. Parece-me uma declaração profundamente esclarecedora sobre dar e receber ajuda, sobre honestidade e duplicidade e sobre o relacionamento entre o curador e o paciente. Os dois homens receberam ajuda poderosa, mas de maneiras muito diferentes. O curandeiro mais jovem foi nutrido, cuidado, ensinado e orientado, teve a atenção de um pai. O curandeiro mais velho, por outro lado, foi ajudado servindo ao outro, obtendo um discípulo de quem recebeu amor filial, respeito e bálsamo para seu isolamento.

Mas agora, reconsiderando a história, questiono se esses dois curandeiros feridos não poderiam ter prestado ainda mais serviços um ao outro.

Talvez tenham perdido a oportunidade de algo mais profundo, mais autêntico, mais poderosamente transformador. Talvez a verdadeira terapia tenha ocorrido na cena do leito de morte, quando eles foram sinceros com a revelação de que eram companheiros de viagem, ambos simplesmente humanos, demasiadamente humanos. Os vinte anos de segredo, por mais úteis que tenham sido, podem ter obstruído e impedido um tipo mais profundo de ajuda. O que poderia ter acontecido se a confissão de Dion no leito de morte tivesse ocorrido vinte anos antes, se curador e buscador tivessem se unido para enfrentar as questões que não têm respostas?

Tudo isso ecoa as cartas de Rilke a um jovem poeta nas quais ele aconselha: “Tenha paciência com tudo o que não está resolvido e tente amar as questões em si”. Eu acrescentaria: “Tente amar também os questionadores”.


Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia

Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Olhar para o terapeuta na poltrona da frente e enxergá-lo como um ser humano que não está imune ao sofrimento e aos acontecimentos da vida rompe com a ideia de que o terapeuta ocupa um lugar de saber absoluto ou estabilidade emocional. A ideia de Yalom sobre pensar paciente e terapeuta como “companheiros de viagem” reconhece o que há de maior potência nessa troca: a humanidade. 

A partir da reflexão do Schopenhauer também podemos pensar sobre a humanidade que todos nós compartilhamos enquanto vivos: o sofrimento, a falta de garantias, os problemas e as alegrias. 

Esses sentimentos e acontecimentos cada um de nós experienciamos de uma forma, mas de fato, todos nós experienciamos. E para mim, não há nada mais humano e sinônimo de vida do que isso. 

Somos seres completos em nossa incompletude.

E o final da história dos curandeiros neste capítulo evidencia que o cuidador também precisa ser cuidado e, principalmente, a importância de um encontro humano, transparente e verdadeiro. 

Que os papéis de terapeuta e paciente não nos limite, mas sim nos potencializem como seres humanos. 


Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor

Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.

Há uns 15 anos eu utilizo esta metáfora do “companheiros de viagem” quando, na primeira sessão com um novo paciente, eu vou explicar a minha maneira de entender o que é a terapia. E depois de todo esse tempo e de ter realizado milhares de atendimentos com centenas de pacientes, essa metáfora me faz ainda mais sentido.

Enquanto psicólogas/terapeutas não estamos acima de nenhuma das grandes questões humanas, estamos imersos, talvez até de maneira mais profunda, em todas elas. E nosso lugar nesta relação terapêutica jamais será a posição de um “guru” que já atingiu a iluminação, tão pouco de um “coach” que já atingiu o sucesso.

Esta partilha humana, verdadeira e transparente é, sem dúvida, uma das maiores potências e, ao mesmo tempo, uma das maiores dificuldades no encontro terapêutico. Levei anos para conseguir construir este tipo de relacionamento do lugar de psicólogo, e ainda hoje às vezes não consigo.

Penso que esta concepção é ainda mais importante nos dias de hoje em que o trabalho é atravessado pelas redes sociais, em que muitas das vezes as psicólogas se apresentam como aquelas que estão bem, fazendo os enfrentamentos das questões e dos desafios da vida e vencendo, cuidando da saúde, estudando, tendo vida social, construindo suas famílias, fazendo suas viagens, construindo uma imagem de sucesso e bem-estar. Esta imagem não condiz com a vida privada em que estamos todos tentando dar conta de um mundo difícil e uma vida que cheia de faltas, dúvidas, angústias e carências.

A cultura da performance e o marketing pessoal atravessou as profissionais da Psicologia (não só as que estão no início da carreira, mas principalmente elas) de um jeito muito intenso e precisamos olhar para tudo isso com atenção. É indispensável lembrar que, do início ao fim, seremos apenas companheiros de uma viagem.