Meu primeiro Dia das Mães

MEU PRIMEIRO DIA DAS MÃES

2026 foi meu primeiro Dia das Mães como Psicóloga. Algo que eu nem imaginava que pudesse trazer tantas mudanças na forma como percebo a mim mesma e a profissão que escolhi. Enquanto estudante, a data já me gerava reflexões mais aprofundadas sobre o que é materno. Agora formada, com meus próprios pacientes, minhas novas responsabilidades, veio o impacto da prática. Fui lançada às demandas que a data carrega tal qual um bebê deixando um útero quente e seguro depois de um parto complicado.

Meu pré-natal de 5 anos foi a faculdade, os médicos, enfermeiros, doulas e outras grávidas, foram meus professores e colegas de classe. Mas a graduação acaba. E assim como a puérpera sai do hospital com seu filho, eu saí da faculdade com meu diploma. E neste caso eu era o bebê. E também a mãe.

Diante de tantas possibilidades, engatinhei em direção a clínica. Dentre tantos nichos, me interessei pelas dinâmicas familiares. Dentre tantos papéis vinculares importantes, o que parece emergir primeiro é o materno. E a forma que mais o faz aparecer é quando a figura materna não se apresenta como personagem de uma história. Durante o processo terapêutico, surgem as questões que circundam a falta dessa relação. O tempo do paciente é que vai dizer quando as respostas virão, e se virão. Existe um aprisionamento no maternar, imposto como perfeito, sagrado e feminino, que ignora toda e qualquer individualidade, desejo, autonomia.

O mês de maio dá mais potência a tantas questões sentidas como, gênero, classe, medo, expectativas versus realidade. Tudo isso vai entrando na clínica. As vezes falta a figura materna, as vezes falta o paciente na sessão, por não dar conta, naquele momento, de se ver diante de si e da inadequação diante do que é ideal para os padrões externos. Vera Iaconelli em seu livro “Manifesto Antimaternalista”, levanta questões sobre o peso desse papel forçosamente depositado em mulheres e ignorando as responsabilidades de todos, como sociedade e coletivo no processo de criação das crianças.

Foi dando meus primeiros passos, que notei um lugar comum onde eu ia parar, meio sem me dirigir a ele, meio por conta própria, meio sendo levada. Se intencionalmente ou de forma inconsciente eu não sei, mas essa parte vou deixar para minha análise pessoal. Esse lugar que talvez eu estivesse “ocupando” na relação com alguns desses pacientes, me causou incômodo em alguns momentos, alívio em outros, dúvidas em todos os casos. Tamanha foi a dimensão da minha confusão que corri para a supervisão. Cheguei lá comigo mesma nos braços querendo poder dizer:

Fica comigo para eu poder trabalhar?

Enquanto eu e minha supervisora, Winnicottiana que só ela, discutíamos com cuidado cada detalhe dos casos, eu contei dessa sensação, de que às vezes, assumo de fato essa função materna. Expliquei em quais situações, como eu percebia meus pacientes diante das demandas e como isso ressoava em mim. Sua resposta não me trouxe uma certeza, nem uma única direção a ser seguida. Mas me trouxe uma reflexão importante sobre os possíveis deslocamento dos papéis dentro das relações:

“Às vezes você vai precisar assumir esse papel mesmo, dependendo do caso, da situação específica, do momento. Às vezes, você é maternal na sua forma de ser, de se relacionar. Mas a pergunta a se fazer é, que tipo de mãe você é? A que protege os filhos do mundo, impedindo que vivam as próprias experiências e aprendam com elas, ou a que oferece amparo e amplia as possibilidades para que seus filhos criem autonomia e experienciem o mundo sozinhos?”

Sua fala foi tão carregada de significados que até aqui, escrevendo esse texto, me vejo com dificuldades de transformar em alguns parágrafos a quantidade de vezes em que ela ecoa e me guia em cada sessão, em cada pensamento, em cada tentativa de manejo. Sim, tentativa mesmo. Outra coisa que tenho aprendido nessa profissão. Igual mãe, a gente erra tentando acertar. Vou contar outro caso de supervisão aqui, dessa vez em grupo.

Uma psicóloga conta de uma intervenção que fez e quer saber, como ela sabe se fez certo, se aquele era o momento? A resposta da supervisora, veio como a vida falando com mães: É sempre a posteriori.

Mais uma situação de supervisão neste mesmo grupo. Contei que um paciente me disse que não tenho cara de psicóloga. Que eu tinha cara de quem não tem problemas, que psicóloga tem cara de quem carrega todos os problemas do mundo nas costas. Me senti atacada, no primeiro momento, mas a reflexão veio depois, na hora certa.

Passadas algumas sessões, me vi sendo firme com ele sobre alguns pontos importantes que surgiram em suas falas. Saí derrotada, com a sensação de que o decepcionei, que a forma que falei não esclareceu, só reprimiu. Na semana do Dia das Mães, antes de ir embora, depois de se despedir, ele voltou num passinho rápido e me abraçou e disse “Feliz Dia das Mães”. Nunca havíamos tido contato físico.
A supervisora relembrou:

“E você aí, achando que o decepcionou. Lembre-se, para ele, você é a que não tem problemas, mesmo carregando todos eles nas costas. Porque para você, só existe ele e os problemas dele. A mãe.”

Na tentativa de relaxar um pouco, quase caio em uma cilada ao olhar minhas redes sociais. Uma psicóloga dedicou um pouco de tempo afirmando num vídeo curto que quem é mãe de pet, não é mãe. E eu nem vou entrar aqui nessa questão, não sei dizer se sim ou se não, e nem acho relevante num contexto generalista a questão. Mas aceito o convite ao pensamento do que isso gera em cada pessoa que passa por esse tipo de conteúdo. Abri os comentários. Tinha gente ofendida, gente concordando, gente contando que só pode exercer a maternidade assim e que se sentia completa. Gente de luto por ter perdido um animal, e teve até uma mãe que contou sentir alívio do filho ter ido fazer faculdade em outro país e ela pode ficar sozinha como o cãozinho no apartamento.

Só pude concluir o óbvio que se apresenta no fato de existirmos juntos, eu não conheço todo mundo, nem todos os pets, nem o que é maternidade para todas as pessoas. É singular. Não importa o padrão, o padrão pode ser uma prisão. E para quem não vê reflexão nesse assunto, recomendo a leitura do livro “O peso do pássaro morto” escrito por Aline Bei. Sem nenhum spoiler digo, tem um personagem de quatro patas chamado Vento.

Essas situações, leituras e histórias com as quais me deparo diariamente me fazem vigilante, curiosa, interessada, imatura e despreparada sobre todos os temas que ainda estão por vir na minha trajetória profissional. Agora de uma forma mais consciente, mas não mais tão insegura, pelo, menos não o tempo todo. Ainda tenho minha rede de apoio que são as supervisões, as trocas com colegas de profissão, meus livros, e por que não, minhas experiências pessoais que me trouxeram até aqui. A gente vai mesmo viver vários papéis nas relações, no setting e na vida.

Mas sigo cuidando da minha cria, a profissão que escolhi. Errando, acertando, indo com medo mesmo, me frustrando, mas desejando todos os dias exercer esse ofício, não só como um dos meus recursos de sobrevivência, mas também como minha forma ser e de comunicar com o mundo.

No mês que vem, junho, tem Dia dos Namorados. Vejamos.

Thalita Reis

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