As paredes permeáveis da Clínica Psicológica

AS PAREDES PERMEÁVEIS DA CLÍNICA PSICOLÓGICA

Se me permitem, hoje quero usar este espaço para desabafar um pouco antes de comemorar.

Não fiz post do Dia da Psicóloga para o dia 27 de agosto. Você está lendo hoje, mas escrevo este texto dois dias antes, embalada pela minha dificuldade de produzir algo que me inclua nessa vitrine. Não é que não haja o que celebrar, e vamos construir juntos essa ideia aqui, mas que tal um pouco de franqueza e realidade para tornar essa data menos genérica e mais genuína? Vamos falar das inquietações da profissão que são abafadas por conteúdos prometendo captação de pacientes em massa e ganhos acima de tantos mil reais logo no primeiro ano de formação. A verdade é que me sinto sufocada pela beleza de tudo o que vejo, como se eu estivesse presa e empoeirada: uma artesã na era industrial.

Eu, que quis tanto chegar do lado de cá, me encontro na solidão do consultório diante da realidade do nosso fazer diário, que insiste em desmentir essa face idealizada. A faculdade nos confere um título e o conselho nos atribui um número de registro, mas nenhum documento é capaz de nos preparar para o impacto real da clínica. Ninguém nos avisa sobre a espessura de pele que é preciso desenvolver para sustentar a escuta sem nos desligarmos.

Raramente vejo profissionais falando da insegurança que nos assola quando a porta do consultório se fecha. Pouco se fala do nó na garganta e do choro silencioso, engolido às pressas entre uma sessão e outra, quando a história de alguém toca num ponto cego que também é nosso. Ninguém expõe a dor dilacerante e quase física de testemunhar a recaída de um paciente que vinha apresentando melhoras há meses, nem a exigência de ter que respirar fundo, recompor as feições, engolir a própria dor e sorrir ao abrir a porta para o próximo paciente.

Enquanto escrevo isso, me pergunto, com receio: Como soa aos meus pacientes essa leitura? Se você, que senta comigo todas as semanas, passar por estas linhas, espero que não sinta dúvidas. Que o que leia aqui não cause insegurança, mas o oposto: o conforto de saber que do outro lado há uma psicóloga humana, de carne, osso e afeto. Uma profissional que sente, que assume suas angústias e que amar o que faz significa, justamente, não se anestesiar diante da sua dor.

A verdade é que existe uma angústia permanente na corda bamba do nosso cotidiano: a tensão ética entre a necessidade pragmática de fazer dinheiro para pagar as contas do mês e a exigência de fazer o trabalho com a entrega que ele requer.

Fala-se tanto em “humanizar”, mas cobra-se de nós que pareçamos intactas e inabaláveis diante do abismo alheio. Como se não tivéssemos corpo, boleto, cansaço ou finitude.

As paredes da clínica são permeáveis, por mais que a gente tente erguer barreiras técnicas para nos proteger. O afeto vaza na forma de uma lágrima involuntária, na inquietação que levamos para a supervisão, no pensamento que nos acompanha no caminho de volta para casa. E que bom que vaza. É nesse entremeio, onde a vida do outro nos atravessa sem nos destruir, que o encontro clínico deixa de ser um procedimento asséptico para se tornar transformação real.

Na prática, nada é garantido. Não há garantias no progresso de um tratamento, não há garantia de que o paciente novo vá criar vínculo e permanecer na semana seguinte, não há garantia sequer do pagamento no final do mês. Além de sustentar as dores do mundo, precisamos ser nossas próprias gestoras, contadoras, secretárias e estrategistas de um negócio que flutua na incerteza.

É por isso que as supervisões semanais funcionam, tantas vezes, como um pedido silencioso de socorro. Longe de serem meros debates teóricos, levamos a elas a nossa própria perplexidade, o nosso desamparo acolhido por outro par, na esperança de encontrar alguma luz, alguma ferramenta, algum alívio para conseguir devolver cuidado e dignidade a quem nos confiou a própria história.

E no entanto, diante de tudo isso, me pego em uma contradição profunda.

Porque ao final de um dia exausto, onde passei por todos esses desertos, é justamente essa mesma clínica que me devolve o sentido de estar viva. Diante do peso desse esqueleto complexo, é no fim do expediente que me sinto inteira e realizada.

Sinto real desejo de acordar amanhã para testemunhar as pequenas vitórias dos meus pacientes. Quero estar lá para ouvir suas conversas, mesmo aquelas aparentemente banais sobre o trânsito ou o tempo, mas que carregam as sementes do que está por vir. Quero o ritual de me sentar com uma xícara de café e escrever no meu caderno de anotações, rabiscar à mão livre, desenhar conexões, reler minhas impressões e encontrar ali a emergência de padrões que, de tão doloridos, se tornam profundamente belos.

Há um encanto quase sagrado em perceber que compreendi e senti junto com o meu paciente. Em saber que a minha própria análise, a minha bagagem e a minha dor podem servir como caixa de ressonância para que outra pessoa possa nomear o que até então era inominável.

Por isso, hoje quero celebrar a coragem de sustentar as contradições do nosso ofício. As lágrimas enxugadas na pausa de dez minutos, o esforço de manter a porta aberta na incerteza e o privilégio imenso de habitar o espaço onde a dor se transforma em narrativa. Se há algo a comemorar, é o fato de que, apesar de tudo, eu escolheria a poltrona e a escuta todas as manhãs de novo e de novo.

Thalita Reis

Espelhos de gelo: da solidão ao algoritmo

ESPELHOS DE GELO: DA SOLIDÃO AO ALGORITMO

Todos os dias, em diversos momentos, me vejo diante de situações que trazem à tona uma vontade absurda de escrever. Seja quando saio para dar uma volta no quarteirão com o cachorro, quando estou atendendo meus pacientes, quando faço leituras, quando converso com desconhecidos na rua. Tudo se transforma em texto, gramática e narrativa dentro da minha cabeça. Faço anotações no meu bloco de notas, gravo áudios para mim mesma, tudo para não perder essa flecha criativa quando ela me atravessa. 

Até hoje. 

Me sento na frente do computador da mesma forma que me sento na frente da minha analista e digo: Hoje não tenho nada a dizer, nem sei por onde começar. 

Revirei minhas anotações, ouvi meus próprios áudios, assisti filmes e séries, busquei trechos grifados nos livros que tenho lido. Nada parece fazer sentido. Penso que tenho vivido pouco demais as minhas próprias experiências para viver mais a experiência do meu trabalho. Esse trabalho que consiste, entre tantas coisas, tornar-me o outro durante cinquenta minutos, exercendo toda minha empatia, atenção e respeito por aquela história que de certa forma, passa a ser minha também. Uma história que me foi confiada, para cuidar com toda a dedicação, esforço e profissionalismo que merece. E é justamente por esse motivo, que seria no mínimo antiético trazer tais histórias para essa coluna.

Mas há uma história que eu tenho acompanhado durante muitas noites, que ainda estou na metade e por isso, ainda não me foi ao todo revelada. O livro “Bom dia Inverno” de Tamara Klink tem sido líder de vendas no país durante semanas. E não é para menos. Uma jovem de vinte e poucos anos, resolve passar o inverno em um veleiro na Groenlândia. Adotei Tamara como minha paciente secreta. Temos sessões diárias e fico fascinada com cada sentença formada por ela. Eu não sei dizer se o livro tem as letras miúdas demais, se a minha vista funciona de menos, só sei que não estou conseguindo devorar esse livro como já fiz com tantos outros. A verdade é que eu não quero dar alta para Tamara. Quero ela ali no meu divã, me contando do frio, dos icebergs, dos ursos, das raposas. Quero saber como se alimenta, como dorme, o que faz quando adoece, como usa o banheiro. Tamara fala sobre ouvir sua própria voz, sua própria risada e sobre os dias inteiros sem emitir nenhum som. Narra as noites escuras por mais de vinte e quatro horas, as dores de frio, o peso da âncora, os medos que sente, e as alegrias também. Tamara fala do silêncio tão absurdo a ponto de ouvir seu próprio coração e respiração. Fico encantada. 

Tudo que Tamara vive, poderia facilmente ser um filme de terror para mim. Mas é como se, ao ir com ela, ficasse tudo bem. Não tenho mais medo do mar, do escuro, dos bichos. Quero agradecer a Tamara por tornar minhas noites mais leves. Tamara é tão corajosa que, ao ver um bote se aproximando de seu veleiro, com dois homens dentro, ela os convida para entrar e tomar chá. Dois homens que falam um idioma que ela nem entende. Desejo ser como ela, e convidar meus medos para tomar um chá e conversar também. 

Logo nas primeiras páginas do livro, o que Tamara conta é justamente que pensava no medo da solidão, mas que estando só, não se sente assim. Lamenta até o contato raro com o namorado, de quem ela gostava, mas agora, é apenas um fio que a liga a um passado que ela não vive mais. 

A solidão tem muitas geometrias. A de Tamara é vasta, gelada e cercada por oceanos. Diferente da maioria das pessoas, que muitas vezes cabe na palma da mão e brilha em luz azul.

Tenho observado com um olhar curioso, um misto de fascínio e sobressalto a onda de pessoas que buscam na Inteligência Artificial um lugar de refúgio psíquico. Uma tentativa de estancar a dor de não serem ouvidas. Talvez, pelo pavor da vulnerabilidade que um encontro humano exige, acabam entregando seus medos mais íntimos a um algoritmo formulado para agradar.

Para nós, psicólogos e profissionais da saúde, pode ser que fique mais claro o fato de que, o que a inteligência artificial oferece não é uma escuta clínica, mas sim um espelho de gelo, que devolve exatamente o que se quer, de forma polida, segura e indolor. Não há contradição, não há o silêncio denso que convida à elaboração, não há o risco do olhar do outro. É o ensaio de um diálogo onde só existe um sujeito. 

Psicoterapia é mar aberto. É sustentar a dúvida, encarar a profundidade dos icebergs que estão submersos em nós e aceitar que o outro, aquele que nos escuta, não está ali para concordar com nossos scripts, mas para nos acompanhar na travessia. Assim como Tamara descobriu na Groenlândia, encarar os próprios medos exige corpo, tempo e coragem. E para isso, não há atalho sintético: precisamos da presença real de quem aceite sentar conosco e tomar esse chá.

Talvez, depois de tanta privação e silêncio, a perspectiva em relação ao perigo mude. Tamara não viu naqueles dois desconhecidos uma ameaça, mas a oportunidade de uma presença. Ela escolheu a vulnerabilidade do encontro em vez do abrigo seguro do isolamento.

Pensar na coragem de Tamara no gelo me faz olhar com uma certa inquietação para o que vivemos do lado de cá. Cercados de gente, mas emparedados na própria solidão, vejo crescer o movimento de pessoas que buscam na Inteligência Artificial um lugar para pedir “terapia”. Buscam uma escuta sem presença, um espelho dócil que nunca nos devolve o silêncio denso de uma pergunta real, um algoritmo programado concordar. É a tentativa desesperada de encontrar aconchego sem correr o risco de ser ferido. Queremos a ilusão do chá, mas sem a imprevisibilidade daqueles homens no bote.

Só que a clínica, e a vida, não se faz no circuito fechado de um monólogo. A IA pode até simular a sintaxe do afeto e organizar nossas frases, mas ela jamais suportará a falta, o mistério e a dor de existir que só outro ser humano é capaz de acolher. No fim, Tamara nos lembra que a cura não está em anestesiar o medo dentro de uma cabine isolada, mas na coragem imperfeita de se sentar à mesa com a alteridade. 

Para nos curar da solidão, ainda precisamos do olhar e da escuta de alguém que também é feito de carne, osso e falta.

Thalita Reis

A estática e a estética do amor perfeito

A ESTÁTICA E A ESTÉTICA DO AMOR PERFEITO

Nesse Dia dos Namorados eu vou comentar em todas as fotos de casais que eu vir: Ué…? 

Essa frase foi dita num vídeo curto do comediante Yuri Marçal em suas redes sociais na semana do dia 12. Assisti ao vídeo e dei uma boa gargalhada espontânea. Mas eu não poderia somente rir, se na clínica percebo o exercício que é, entre chistes e recalques, captar as mensagens subliminares por trás de falas carregadas de humor. A graça é a permissão para falar do que incomoda de uma maneira que não assuste, que não abra brechas para o julgamento. Longe de mim julgar o Yuri, e até agradeço o gancho para abrir a coluna desse mês. 

É interessante pensar no que os conteúdos aos quais somos expostos despertam em nós. O que o Yuri quis dizer com essa piadinha disfarçada? O que se pensa tanto ao ver casais completamente felizes, quanto ao ver alguém zombar e brincar com esse incomodo? 

Afinal, junho é o mês do amor, dos presentes, dos buquês de flores, das viagens. Das declarações com trezentos caracteres escritas na legenda de uma foto em alta resolução, onde uma mão é puxada por alguém que carrega no rosto um sorriso refletindo o pôr-do-sol. É o mês dos jantares à luz de velas, dos finais de semana num chalé com duas taças de vinho harmonizadas com o fogo de uma lareira, das duas xícaras de café fumegantes diante de um horizonte desfocado. Junho é o mês dos pares. De mostrar pares que não brigam, que não traem, que não erram, que não falham. Para permanecer assim, só na estática e na estética da foto mesmo. 

Par é um conjunto de dois. Precisa de outro presente para ser par, mesmo que a meia fure, ela ainda vai ser guardada com a outra na gaveta. O problema é quando uma delas some para sempre na máquina de lavar. Algumas pessoas têm seus pares, outras não, mas pode ser que em ambos os casos, o que haja em comum seja a indignação sobre a forma que esse amor tem se expressado nas redes. Há quem admita, há quem não. Há quem use o humor para deixar vazar essa angústia causada pela falta.

Como pode o amor, esse sentimento tão sublime e capaz de produzir imagens e textos tão tocantes, despertar tantos outros sentimentos opostos a ele? Sentimentos estes que em muitos momentos, só se permitem sair através de uma piada mesmo, sem o risco da má interpretação. Sentir amor não significa sentir somente amor. E estar ou não numa relação, não é garantia de amor. Aliás aí estão dois conceitos dignos de apaixonamento na Psicanálise: Garantia & Amor. O que se sabe sobre a garantia, é que não há garantias. Mas o que se sabe sobre o amor? 

Sem precisar entrar em teoria, pode-se pensar no amor como forma de identificação. Se um influenciador, assim como o Yuri, consegue alcançar tantas pessoas, é através do quanto as pessoas se identificam com o que ele fala. Amamos ver nossos sentimentos e pensamentos sendo traduzidos e reproduzidos. Gerar identificação é uma forma potente de comunicação. Logo, a não identificação gera a recusa, a rechaça, às vezes o ranço. Acontece no amor, na política, no futebol e em tudo onde cabe a ambiguidade. A verdade é que sempre há algo, mesmo que oposto, que precisa ser visto. Nada é ignorado, por mais que se acredite nisso. Se produz algo, mesmo que seja uma fala engraçada, há de ter sua importância, e necessite ser identificado, trabalhado, lapidado, amado ou odiado. 

Sendo assim, não se identifica como amor, o amor que não está ali representado nesses conteúdos. Se não é possível identificar a relação que se vive, com a relação que se vende, não há amor de verdade. A falta que se sente do que os outros casais demonstram ter, elimina as possibilidades de viver uma experiência de amor ao pé da letra. Encobre com fantasias as chances de estar em um relacionamento em que haja espaço para o jantar em casa, sem velas, mas com diálogos; sem presentes caros, mas com demonstrações genuínas de carinho. A fantasia pode ser a porta de entrada para o início do que se aproxima do amor, mas a realidade é que oferece a opção de escolher ficar mesmo depois de atravessadas as primeiras impressões, e principalmente ao viver momentos em que se compartilham a dois, que não são necessariamente instagramáveis. 

É ainda mais interessante pensar que o que se posta, pode esconder uma necessidade de validação que o próprio sujeito não acredita, não sustenta no cotidiano. O que sustenta é o olhar dos demais. Quanto mais os outros curtem e comentam, maior a necessidade dessa validação. Um círculo vicioso perigoso. 

Na literatura mais antiga, muitos dos romances distribuem estórias de amores impossíveis vencendo bravas lutas para no final viverem felizes para sempre, ou morrer. Oito ou oitenta. Ou se é eternamente feliz ou o amor morre. Uma grande mentira. O amor pode justamente ser o não se ver feliz o tempo todo, e sentir-se feliz em reconhecer isso.

Carla Madeira em seu livro “Tudo é Rio”, obra amada por muitos, odiada por tantos outros, traz uma história de amor carregada de realidade e muita dor. Talvez por isso incomode tanto. Impossível não odiar o que se lê naquelas páginas, mas totalmente possível de compreender e amar a história. Conhecer o outro também exige disponibilidade para compreensão. O amor pode ser quase tudo. Tudo de bonito, de feio, de gostoso, de amargo. Tudo menos fácil como vemos nas fotos. As lentes do olhar humano têm uma resolução diferente das câmeras que registram apenas os bons momentos postados no Instagram. Não temos escolha, senão olhar para o outro inteiro. E se olhar para o outro inteiro, ainda fizer querer ficar, pode ser que se chame amor. 

A realidade é um alívio. Segundo Ana Suy, esse será o nome do seu próximo livro. A escritora, que fala de amor em todas as suas publicações como “A gente mira no amor e acerta na solidão” e “Não pise no meu vazio” deixa nessa afirmação um pensamento possível para o que esperar dos relacionamentos amorosos. Uma delícia passear por seus escritos, que reforça o quanto somos seres sociais e capazes de amar e sermos amados, de se identificar até com a estranheza do outro.

É possível se aquecer no afeto de alguém sem precisar da lareira. Para focar no futuro, pode ser necessário tirar as xícaras da frente e enxergar no horizonte os planos que realmente fazem sentido para a vida a dois. É possível se reconhecer dentro de um convívio, com um parceiro, parceira e não apenas um par para sair na foto. E ainda, é importante ser quem caminha do lado, e não apenas ser arrastado para ver o pôr-do-sol. É necessário realmente querer ver o pôr-do-sol também. E por fim, rir de si mesmo e do outro, das diferenças suportáveis. No amor, também tem que caber o humor. As risadas e as piadas nem sempre serão chistes ocultando algo, mas podem ser refúgio para o enfrentamento das dificuldades que o amor pode oferecer. 

E para não deixar de fora quem não tem alguém, o amor pode ser sempre distribuído (e deve!) nas demais relações, no lazer, no trabalho e no descanso, sem nunca se esvaziar de amor-próprio.

Meu primeiro Dia das Mães

MEU PRIMEIRO DIA DAS MÃES

2026 foi meu primeiro Dia das Mães como Psicóloga. Algo que eu nem imaginava que pudesse trazer tantas mudanças na forma como percebo a mim mesma e a profissão que escolhi. Enquanto estudante, a data já me gerava reflexões mais aprofundadas sobre o que é materno. Agora formada, com meus próprios pacientes, minhas novas responsabilidades, veio o impacto da prática. Fui lançada às demandas que a data carrega tal qual um bebê deixando um útero quente e seguro depois de um parto complicado.

Meu pré-natal de 5 anos foi a faculdade, os médicos, enfermeiros, doulas e outras grávidas, foram meus professores e colegas de classe. Mas a graduação acaba. E assim como a puérpera sai do hospital com seu filho, eu saí da faculdade com meu diploma. E neste caso eu era o bebê. E também a mãe.

Diante de tantas possibilidades, engatinhei em direção a clínica. Dentre tantos nichos, me interessei pelas dinâmicas familiares. Dentre tantos papéis vinculares importantes, o que parece emergir primeiro é o materno. E a forma que mais o faz aparecer é quando a figura materna não se apresenta como personagem de uma história. Durante o processo terapêutico, surgem as questões que circundam a falta dessa relação. O tempo do paciente é que vai dizer quando as respostas virão, e se virão. Existe um aprisionamento no maternar, imposto como perfeito, sagrado e feminino, que ignora toda e qualquer individualidade, desejo, autonomia.

O mês de maio dá mais potência a tantas questões sentidas como, gênero, classe, medo, expectativas versus realidade. Tudo isso vai entrando na clínica. As vezes falta a figura materna, as vezes falta o paciente na sessão, por não dar conta, naquele momento, de se ver diante de si e da inadequação diante do que é ideal para os padrões externos. Vera Iaconelli em seu livro “Manifesto Antimaternalista”, levanta questões sobre o peso desse papel forçosamente depositado em mulheres e ignorando as responsabilidades de todos, como sociedade e coletivo no processo de criação das crianças.

Foi dando meus primeiros passos, que notei um lugar comum onde eu ia parar, meio sem me dirigir a ele, meio por conta própria, meio sendo levada. Se intencionalmente ou de forma inconsciente eu não sei, mas essa parte vou deixar para minha análise pessoal. Esse lugar que talvez eu estivesse “ocupando” na relação com alguns desses pacientes, me causou incômodo em alguns momentos, alívio em outros, dúvidas em todos os casos. Tamanha foi a dimensão da minha confusão que corri para a supervisão. Cheguei lá comigo mesma nos braços querendo poder dizer:

Fica comigo para eu poder trabalhar?

Enquanto eu e minha supervisora, Winnicottiana que só ela, discutíamos com cuidado cada detalhe dos casos, eu contei dessa sensação, de que às vezes, assumo de fato essa função materna. Expliquei em quais situações, como eu percebia meus pacientes diante das demandas e como isso ressoava em mim. Sua resposta não me trouxe uma certeza, nem uma única direção a ser seguida. Mas me trouxe uma reflexão importante sobre os possíveis deslocamento dos papéis dentro das relações:

“Às vezes você vai precisar assumir esse papel mesmo, dependendo do caso, da situação específica, do momento. Às vezes, você é maternal na sua forma de ser, de se relacionar. Mas a pergunta a se fazer é, que tipo de mãe você é? A que protege os filhos do mundo, impedindo que vivam as próprias experiências e aprendam com elas, ou a que oferece amparo e amplia as possibilidades para que seus filhos criem autonomia e experienciem o mundo sozinhos?”

Sua fala foi tão carregada de significados que até aqui, escrevendo esse texto, me vejo com dificuldades de transformar em alguns parágrafos a quantidade de vezes em que ela ecoa e me guia em cada sessão, em cada pensamento, em cada tentativa de manejo. Sim, tentativa mesmo. Outra coisa que tenho aprendido nessa profissão. Igual mãe, a gente erra tentando acertar. Vou contar outro caso de supervisão aqui, dessa vez em grupo.

Uma psicóloga conta de uma intervenção que fez e quer saber, como ela sabe se fez certo, se aquele era o momento? A resposta da supervisora, veio como a vida falando com mães: É sempre a posteriori.

Mais uma situação de supervisão neste mesmo grupo. Contei que um paciente me disse que não tenho cara de psicóloga. Que eu tinha cara de quem não tem problemas, que psicóloga tem cara de quem carrega todos os problemas do mundo nas costas. Me senti atacada, no primeiro momento, mas a reflexão veio depois, na hora certa.

Passadas algumas sessões, me vi sendo firme com ele sobre alguns pontos importantes que surgiram em suas falas. Saí derrotada, com a sensação de que o decepcionei, que a forma que falei não esclareceu, só reprimiu. Na semana do Dia das Mães, antes de ir embora, depois de se despedir, ele voltou num passinho rápido e me abraçou e disse “Feliz Dia das Mães”. Nunca havíamos tido contato físico.
A supervisora relembrou:

“E você aí, achando que o decepcionou. Lembre-se, para ele, você é a que não tem problemas, mesmo carregando todos eles nas costas. Porque para você, só existe ele e os problemas dele. A mãe.”

Na tentativa de relaxar um pouco, quase caio em uma cilada ao olhar minhas redes sociais. Uma psicóloga dedicou um pouco de tempo afirmando num vídeo curto que quem é mãe de pet, não é mãe. E eu nem vou entrar aqui nessa questão, não sei dizer se sim ou se não, e nem acho relevante num contexto generalista a questão. Mas aceito o convite ao pensamento do que isso gera em cada pessoa que passa por esse tipo de conteúdo. Abri os comentários. Tinha gente ofendida, gente concordando, gente contando que só pode exercer a maternidade assim e que se sentia completa. Gente de luto por ter perdido um animal, e teve até uma mãe que contou sentir alívio do filho ter ido fazer faculdade em outro país e ela pode ficar sozinha como o cãozinho no apartamento.

Só pude concluir o óbvio que se apresenta no fato de existirmos juntos, eu não conheço todo mundo, nem todos os pets, nem o que é maternidade para todas as pessoas. É singular. Não importa o padrão, o padrão pode ser uma prisão. E para quem não vê reflexão nesse assunto, recomendo a leitura do livro “O peso do pássaro morto” escrito por Aline Bei. Sem nenhum spoiler digo, tem um personagem de quatro patas chamado Vento.

Essas situações, leituras e histórias com as quais me deparo diariamente me fazem vigilante, curiosa, interessada, imatura e despreparada sobre todos os temas que ainda estão por vir na minha trajetória profissional. Agora de uma forma mais consciente, mas não mais tão insegura, pelo, menos não o tempo todo. Ainda tenho minha rede de apoio que são as supervisões, as trocas com colegas de profissão, meus livros, e por que não, minhas experiências pessoais que me trouxeram até aqui. A gente vai mesmo viver vários papéis nas relações, no setting e na vida.

Mas sigo cuidando da minha cria, a profissão que escolhi. Errando, acertando, indo com medo mesmo, me frustrando, mas desejando todos os dias exercer esse ofício, não só como um dos meus recursos de sobrevivência, mas também como minha forma ser e de comunicar com o mundo.

No mês que vem, junho, tem Dia dos Namorados. Vejamos.

Thalita Reis

A repetição que não se repete

“A REPETIÇÃO QUE NÃO SE REPETE”

Existe uma pergunta que aparece na clínica e que tenho percebido com frequência logo na primeira sessão com um paciente. Apesar de ela ser feita na primeira sessão, ela não vem logo de cara, junto com as demais questões burocráticas como valores, datas e horários. Ela se descola dessa parte prática, caminha lenta, olhando desconfiada para trás por um corredor de silêncio até a porta da subjetividade, às vezes até com um tom de voz diferente e sai baixinha no exato momento em que o relógio transforma quarenta e nove minutos em cinquenta:

Você vai ter paciência de me ouvir falar sobre a mesma história repetidas vezes?

Não existe uma resposta prática para uma pergunta como essa. Não há um sim capaz de entregar ao paciente tudo que ele me confia ao deixar essa pergunta no ar antes de sair. Porque sim, nem sempre eles ficam ali paradinhos esperando uma resposta. Pode ser apenas um teaser do próximo ato que vai ser revelado quando estivermos juntos de novo, e de novo e de novo. A pergunta é muitas vezes, para nós mesmos e nem sempre um pedido de garantia.

Meses atrás estive no teatro para assistir uma peça chamada “Dois de Nós”, que narra a história de um casal maduro, com crises conjugais que se acumulam ao longo de anos de convivência, amor, desgaste, segredos, alegrias, medos e escolhas, raivas e mágoas. Em meio a uma discussão muito da acalorada, esbarram em um outro casal, de mesmo nome, que para o espanto dos quatro, são eles mesmos, no passado, ainda jovens e apaixonados.
A peça é um lindo encontro através da repetição do passado para o presente. Onde o casal mais maduro, só consegue compreender certas coisas ao olhar para eles mesmos, como se sentiam, como se imaginavam, como se relacionavam, como imaginavam o futuro. Não é spoiler para ninguém aqui que existem algumas decepções em relação as expectativas, mas eu não vou me alongar muito para não tirar a emoção da primeira vez para quem for vê-la.

Mas o mais interessante é que eu vou assistir ao espetáculo novamente hoje à noite. E eu estou extremamente empolgada com isso. Não tem problema eu já conhecer a história, eu quero ouvir de novo, saborear as falas e mais, o improviso que o teatro oferece (diferente do cinema) onde as palavras podem mudar, algo novo pode surgir e tudo pode ser visto e vivido de uma maneira completamente diferente por mim, pelo elenco, mesmo que eles estejam há mais de um ano em cartaz, viajando o Brasil com a peça. Não vai ser a mesma coisa.

Me dei conta enquanto pensava esse texto, que tenho o hábito da repetição. O espetáculo “O céu da língua”, monólogo maravilhoso escrito e encenado pelo ator Gregório Duvivier, vi três vezes. Gregório traz na etimologia das palavras humor, angústia, admiração, surpresa e mudanças e adaptações de sentido. O público se encanta com o quanto é importante essa troca com alguém, que desembaralha o emaranhado de letras que usamos repetidamente, diariamente, muitas vezes sem nem saber de onde vem. Mas veja, não estamos ali trocando com qualquer pessoa. Gregório estudou Letras. Ele claramente gosta de estar ali e acredita na capacidade da plateia em compreender suas analogias, piadas e texto às vezes até áspero, mas que provoca reflexão, que faz querer ver de novo, que faz querer levar tudo isso para casa.

E foi por isso que, logo na primeira vez, comprei o texto da peça. Mesmo tendo visto mais duas vezes, me pego relendo o jogo de palavras feito de forma tão sagaz e certeiro que me faz querer decorar aquilo tudo. Só que a cada vez que leio, uma parte diferente me toca. Não é o texto que muda, mas como eu me encontro, para onde está dirigido meu olhar, onde está minha emoção.

Quantas vezes ouvimos uma música até decorá-la? Quantos dias são necessários de repetição para se construir um hábito? Se temos tantas divergências entre as abordagens da psicologia, eu arrisco dizer que esse é sim o ponto de convergência. Freud escreveu “Repetir, recordar, elaborar”. O método ABA, sem faz sem repetição? A Terapia Comportamental e a Cognitivo Comportamental estão isentas? Eu acho que não.
Se hoje falamos tanto em algoritmo e redes sociais; em uma linguagem crua e superficial posso afirmar que ele nos vence pela repetição, nos convence de algo seja verdade ou não de tanto aparecer diante dos olhos na tela de um celular.

E funciona porque nós funcionamos da mesma forma e nos convencemos de algo que pode nos ajudar ou prejudicar de tanto repetir. Essa diferenciação do que nos é útil, do que nos faz bem, e que oferece autonomia para cada indivíduo só é possível se houver um espaço de se ouvir, quantas vezes forem necessárias, até que se faça sentido, que se perca sentido e seja possível criar um sentido novo.

Dito tudo isso, se você me pergunta se eu vou ter paciência de ouvir diversas vezes a mesma história? Posso afirmar: eu não vejo a hora!