A repetição que não se repete

“A REPETIÇÃO QUE NÃO SE REPETE”

Existe uma pergunta que aparece na clínica e que tenho percebido com frequência logo na primeira sessão com um paciente. Apesar de ela ser feita na primeira sessão, ela não vem logo de cara, junto com as demais questões burocráticas como valores, datas e horários. Ela se descola dessa parte prática, caminha lenta, olhando desconfiada para trás por um corredor de silêncio até a porta da subjetividade, às vezes até com um tom de voz diferente e sai baixinha no exato momento em que o relógio transforma quarenta e nove minutos em cinquenta:

Você vai ter paciência de me ouvir falar sobre a mesma história repetidas vezes?

Não existe uma resposta prática para uma pergunta como essa. Não há um sim capaz de entregar ao paciente tudo que ele me confia ao deixar essa pergunta no ar antes de sair. Porque sim, nem sempre eles ficam ali paradinhos esperando uma resposta. Pode ser apenas um teaser do próximo ato que vai ser revelado quando estivermos juntos de novo, e de novo e de novo. A pergunta é muitas vezes, para nós mesmos e nem sempre um pedido de garantia.

Meses atrás estive no teatro para assistir uma peça chamada “Dois de Nós”, que narra a história de um casal maduro, com crises conjugais que se acumulam ao longo de anos de convivência, amor, desgaste, segredos, alegrias, medos e escolhas, raivas e mágoas. Em meio a uma discussão muito da acalorada, esbarram em um outro casal, de mesmo nome, que para o espanto dos quatro, são eles mesmos, no passado, ainda jovens e apaixonados.
A peça é um lindo encontro através da repetição do passado para o presente. Onde o casal mais maduro, só consegue compreender certas coisas ao olhar para eles mesmos, como se sentiam, como se imaginavam, como se relacionavam, como imaginavam o futuro. Não é spoiler para ninguém aqui que existem algumas decepções em relação as expectativas, mas eu não vou me alongar muito para não tirar a emoção da primeira vez para quem for vê-la.

Mas o mais interessante é que eu vou assistir ao espetáculo novamente hoje à noite. E eu estou extremamente empolgada com isso. Não tem problema eu já conhecer a história, eu quero ouvir de novo, saborear as falas e mais, o improviso que o teatro oferece (diferente do cinema) onde as palavras podem mudar, algo novo pode surgir e tudo pode ser visto e vivido de uma maneira completamente diferente por mim, pelo elenco, mesmo que eles estejam há mais de um ano em cartaz, viajando o Brasil com a peça. Não vai ser a mesma coisa.

Me dei conta enquanto pensava esse texto, que tenho o hábito da repetição. O espetáculo “O céu da língua”, monólogo maravilhoso escrito e encenado pelo ator Gregório Duvivier, vi três vezes. Gregório traz na etimologia das palavras humor, angústia, admiração, surpresa e mudanças e adaptações de sentido. O público se encanta com o quanto é importante essa troca com alguém, que desembaralha o emaranhado de letras que usamos repetidamente, diariamente, muitas vezes sem nem saber de onde vem. Mas veja, não estamos ali trocando com qualquer pessoa. Gregório estudou Letras. Ele claramente gosta de estar ali e acredita na capacidade da plateia em compreender suas analogias, piadas e texto às vezes até áspero, mas que provoca reflexão, que faz querer ver de novo, que faz querer levar tudo isso para casa.

E foi por isso que, logo na primeira vez, comprei o texto da peça. Mesmo tendo visto mais duas vezes, me pego relendo o jogo de palavras feito de forma tão sagaz e certeiro que me faz querer decorar aquilo tudo. Só que a cada vez que leio, uma parte diferente me toca. Não é o texto que muda, mas como eu me encontro, para onde está dirigido meu olhar, onde está minha emoção.

Quantas vezes ouvimos uma música até decorá-la? Quantos dias são necessários de repetição para se construir um hábito? Se temos tantas divergências entre as abordagens da psicologia, eu arrisco dizer que esse é sim o ponto de convergência. Freud escreveu “Repetir, recordar, elaborar”. O método ABA, sem faz sem repetição? A Terapia Comportamental e a Cognitivo Comportamental estão isentas? Eu acho que não.
Se hoje falamos tanto em algoritmo e redes sociais; em uma linguagem crua e superficial posso afirmar que ele nos vence pela repetição, nos convence de algo seja verdade ou não de tanto aparecer diante dos olhos na tela de um celular.

E funciona porque nós funcionamos da mesma forma e nos convencemos de algo que pode nos ajudar ou prejudicar de tanto repetir. Essa diferenciação do que nos é útil, do que nos faz bem, e que oferece autonomia para cada indivíduo só é possível se houver um espaço de se ouvir, quantas vezes forem necessárias, até que se faça sentido, que se perca sentido e seja possível criar um sentido novo.

Dito tudo isso, se você me pergunta se eu vou ter paciência de ouvir diversas vezes a mesma história? Posso afirmar: eu não vejo a hora!

O desaprendizado necessário

“O DESAPRENDIZADO NECESSÁRIO”

Antes de ser psicóloga, sou também publicitária.

Uso o “também” de forma intencional para deixar claro que meu passado integra meu presente. Minha formação inicial me trouxe recursos valiosos para esta nova fase, mas para quem, assim como eu, atravessa uma transição de carreira, a pergunta fundamental é: Quais desses recursos atendem às minhas novas necessidades e quais podem ser prejudiciais ao meu novo papel profissional? Se nada é descartado, tudo deve ser utilizado?

Na minha primeira formação, o objetivo era uma comunicação clara, rápida e de impacto. Um anúncio deve ter trinta segundos; um título com mais de duas linhas perde atenção do leitor. Hoje, as redes sociais oferecem vídeos curtíssimos ensinando desde receitas de bolo a fórmulas de comportamento. Tudo parece poder ser aprendido rápido e de uma vez. A experiência corre diante dos olhos na tela, mas o que realmente fica dela? A comunicação publicitária sempre caminhou (ou correu?) nessa velocidade acelerada, tentando manter tudo “em dia”: a academia, a carreira, a terapia.

Hoje, na clínica, me encontro com o temido silêncio do paciente. Mesmo sem décadas de formação, já percebo que esse silêncio não é ausência, mas uma mensagem em estado bruto, um espaço onde o paciente ensaia o que ainda não tem palavras para dizer. Se como publicitária meu trabalho era pautado na ânsia de resolver e antecipar estratégias focadas em resultados, na clínica devo esperar respeitosamente que o paciente o faça. No tempo dele. Com seus próprios recursos. Se antes o foco era entender o comportamento de muitos, agora o desafio é ater-me ao universo de um só.

Tenho aprendido que o sintoma é, na verdade, um ruído que insiste em comunicar algo. Me papel mudou: de quem evita o ruído para quem o escuta com interesse ético. Essa ética e acolhimento nascem justamente quando escolho desistir de “comunicar algo” para permitir que o outro se comunique através de mim. Descobri que o acolhimento é o canal mais limpo por onde a fala pode transitar sem julgamentos.

Precisei desaprender a pressa da resposta para permitir a demora da pergunta. A precisão que eu buscava para atingir determinado público, hoje dedico à singularidade de quem se senta à minha frente. A comunicação me deu a técnica de alcance, mas a psicologia me deu a profundidade do encontro. Se antes eu buscava a imagem e a persuasão, hoje trabalho com o que está por trás das camadas dos papéis sociais. Minha experiência com a linguagem agora serve a um propósito maior: ajudar o outro a ouvir suas próprias dores, a traduzir-se para o mundo, no seu próprio tempo.

​Para as que estão também nessa tarefa da transição de carreira, deixo a reflexão: Será que estamos usando a nossa bagagem a favor dessa nova profissão sem influenciar na trajetória de nossos pacientes? Ou estamos de fato permitindo a calma de testemunhar o que nasce no tempo dele?

Thalita Reis

Ninguém se torna psicoterapeuta sozinho!

“NINGUÉM SE TORNA PSICOTERAPEUTA SOZINHO!”

É comum, no início da prática clínica, que o psicoterapeuta se questione sobre como ajudará seus pacientes sem a vivência de um consultório — sem a experiência de ter sido o par de mãos que ampara as do outro durante suas histórias de superação, dores, perdas, lutos e conquistas.

Na verdade, tornar-se psicólogo vai muito além do que ocorre dentro do setting. Ser psicólogo não é ser ilha; existe todo um bioma em torno dela. Engana-se quem se ancora no conceito de neutralidade apenas para se enquadrar nos moldes de um “bom profissional”.

Um psicólogo nunca entra no consultório sozinho para atender. Entram com ele seus professores, suas leituras de lazer, os momentos em família, os animais de estimação, seus escritos e anseios. Entram também os artigos e materiais didáticos que trazem o estofo acadêmico, imprescindível para cuidar do outro. Para que este espaço se torne um lugar de escuta e transformação, carregamos conosco uma multidão. O fazer clínico não acontece no vácuo, mas no espaço que se cria quando somos atravessados por essas referências.

Essa volta de 360 graus em torno da vida, da nossa e da do outro, é o que sustenta o manejo, torna humana a troca e transforma a escuta em conforto, segurança e, muitas vezes, alívio.

A clínica é o encontro entre duas subjetividades. Um psicólogo recém-formado não acaba de nascer; ele acaba de se reconhecer capaz de exercer esse cuidado. O tempo só moldará esse conhecimento prévio se dermos, corajosamente, a oportunidade ao início.

Thalita Reis