Espelhos de gelo: da solidão ao algoritmo

ESPELHOS DE GELO: DA SOLIDÃO AO ALGORITMO

Todos os dias, em diversos momentos, me vejo diante de situações que trazem à tona uma vontade absurda de escrever. Seja quando saio para dar uma volta no quarteirão com o cachorro, quando estou atendendo meus pacientes, quando faço leituras, quando converso com desconhecidos na rua. Tudo se transforma em texto, gramática e narrativa dentro da minha cabeça. Faço anotações no meu bloco de notas, gravo áudios para mim mesma, tudo para não perder essa flecha criativa quando ela me atravessa. 

Até hoje. 

Me sento na frente do computador da mesma forma que me sento na frente da minha analista e digo: Hoje não tenho nada a dizer, nem sei por onde começar. 

Revirei minhas anotações, ouvi meus próprios áudios, assisti filmes e séries, busquei trechos grifados nos livros que tenho lido. Nada parece fazer sentido. Penso que tenho vivido pouco demais as minhas próprias experiências para viver mais a experiência do meu trabalho. Esse trabalho que consiste, entre tantas coisas, tornar-me o outro durante cinquenta minutos, exercendo toda minha empatia, atenção e respeito por aquela história que de certa forma, passa a ser minha também. Uma história que me foi confiada, para cuidar com toda a dedicação, esforço e profissionalismo que merece. E é justamente por esse motivo, que seria no mínimo antiético trazer tais histórias para essa coluna.

Mas há uma história que eu tenho acompanhado durante muitas noites, que ainda estou na metade e por isso, ainda não me foi ao todo revelada. O livro “Bom dia Inverno” de Tamara Klink tem sido líder de vendas no país durante semanas. E não é para menos. Uma jovem de vinte e poucos anos, resolve passar o inverno em um veleiro na Groenlândia. Adotei Tamara como minha paciente secreta. Temos sessões diárias e fico fascinada com cada sentença formada por ela. Eu não sei dizer se o livro tem as letras miúdas demais, se a minha vista funciona de menos, só sei que não estou conseguindo devorar esse livro como já fiz com tantos outros. A verdade é que eu não quero dar alta para Tamara. Quero ela ali no meu divã, me contando do frio, dos icebergs, dos ursos, das raposas. Quero saber como se alimenta, como dorme, o que faz quando adoece, como usa o banheiro. Tamara fala sobre ouvir sua própria voz, sua própria risada e sobre os dias inteiros sem emitir nenhum som. Narra as noites escuras por mais de vinte e quatro horas, as dores de frio, o peso da âncora, os medos que sente, e as alegrias também. Tamara fala do silêncio tão absurdo a ponto de ouvir seu próprio coração e respiração. Fico encantada. 

Tudo que Tamara vive, poderia facilmente ser um filme de terror para mim. Mas é como se, ao ir com ela, ficasse tudo bem. Não tenho mais medo do mar, do escuro, dos bichos. Quero agradecer a Tamara por tornar minhas noites mais leves. Tamara é tão corajosa que, ao ver um bote se aproximando de seu veleiro, com dois homens dentro, ela os convida para entrar e tomar chá. Dois homens que falam um idioma que ela nem entende. Desejo ser como ela, e convidar meus medos para tomar um chá e conversar também. 

Logo nas primeiras páginas do livro, o que Tamara conta é justamente que pensava no medo da solidão, mas que estando só, não se sente assim. Lamenta até o contato raro com o namorado, de quem ela gostava, mas agora, é apenas um fio que a liga a um passado que ela não vive mais. 

A solidão tem muitas geometrias. A de Tamara é vasta, gelada e cercada por oceanos. Diferente da maioria das pessoas, que muitas vezes cabe na palma da mão e brilha em luz azul.

Tenho observado com um olhar curioso, um misto de fascínio e sobressalto a onda de pessoas que buscam na Inteligência Artificial um lugar de refúgio psíquico. Uma tentativa de estancar a dor de não serem ouvidas. Talvez, pelo pavor da vulnerabilidade que um encontro humano exige, acabam entregando seus medos mais íntimos a um algoritmo formulado para agradar.

Para nós, psicólogos e profissionais da saúde, pode ser que fique mais claro o fato de que, o que a inteligência artificial oferece não é uma escuta clínica, mas sim um espelho de gelo, que devolve exatamente o que se quer, de forma polida, segura e indolor. Não há contradição, não há o silêncio denso que convida à elaboração, não há o risco do olhar do outro. É o ensaio de um diálogo onde só existe um sujeito. 

Psicoterapia é mar aberto. É sustentar a dúvida, encarar a profundidade dos icebergs que estão submersos em nós e aceitar que o outro, aquele que nos escuta, não está ali para concordar com nossos scripts, mas para nos acompanhar na travessia. Assim como Tamara descobriu na Groenlândia, encarar os próprios medos exige corpo, tempo e coragem. E para isso, não há atalho sintético: precisamos da presença real de quem aceite sentar conosco e tomar esse chá.

Talvez, depois de tanta privação e silêncio, a perspectiva em relação ao perigo mude. Tamara não viu naqueles dois desconhecidos uma ameaça, mas a oportunidade de uma presença. Ela escolheu a vulnerabilidade do encontro em vez do abrigo seguro do isolamento.

Pensar na coragem de Tamara no gelo me faz olhar com uma certa inquietação para o que vivemos do lado de cá. Cercados de gente, mas emparedados na própria solidão, vejo crescer o movimento de pessoas que buscam na Inteligência Artificial um lugar para pedir “terapia”. Buscam uma escuta sem presença, um espelho dócil que nunca nos devolve o silêncio denso de uma pergunta real, um algoritmo programado concordar. É a tentativa desesperada de encontrar aconchego sem correr o risco de ser ferido. Queremos a ilusão do chá, mas sem a imprevisibilidade daqueles homens no bote.

Só que a clínica, e a vida, não se faz no circuito fechado de um monólogo. A IA pode até simular a sintaxe do afeto e organizar nossas frases, mas ela jamais suportará a falta, o mistério e a dor de existir que só outro ser humano é capaz de acolher. No fim, Tamara nos lembra que a cura não está em anestesiar o medo dentro de uma cabine isolada, mas na coragem imperfeita de se sentar à mesa com a alteridade. 

Para nos curar da solidão, ainda precisamos do olhar e da escuta de alguém que também é feito de carne, osso e falta.

Thalita Reis

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