Viver de Clínica é (bem) difícil!

VIVER DE CLÍNICA É (BEM) DIFÍCIL!

Essa é a verdade!
E quem te diz o contrário vai tentar te vender uma “solução” dizendo que te ensinará a construir o consultório mais fácil, mais rápido e mais lucrativo! Cuidado com esse tipo de promessa, tem cada vez mais gente tentando “te ajudar” a construir e fazer a gestão do seu consultório, às vezes cheia de boas intenções, mas com pouca experiência e conhecimento de fato, às vezes cheias de más intenções e só atrás do seu dinheiro mesmo. São poucos os projetos e profissionais que realizam um trabalho realmente bacana e que valem o valor investido.

A Clínica se tornou quase um “fetiche” para as psis, ela ocupa tanto o imaginário da população em geral quanto das estudantes e das profissionais sobre o trabalho em Psicologia. E não é apenas um imaginário, o Censo 2022 do Conselho Federal de Psicologia nos mostrou que 7 a cada 10 psis atuam na Clínica, seja como atividade exclusiva ou junto com outras atividades profissionais. 

E embora ela esteja no imaginário social, seja a área mais tradicional e hegemônica na Psicologia, ainda assim, “viver de Clínica” é muito mais difícil e menos romantizado do que dizem por aí!

Do ponto de vista do trabalho em si, a Clínica de consultório é um trabalho denso e exaustivo, por mais que tenha significado e sentido. Lidamos diariamente com pessoas em sofrimento e suas demandas, o que exige um tanto de nós. 

Além disso, a Clínica é um trabalho solitário, somos apenas nós e cada uma das nossas pacientes com suas histórias e suas questões. Por mais que se utilize estratégias para estar entre os pares, a maior parte do trabalho estaremos sozinhas lidando com as nossas questões e as nossas responsabilidades (que são muitas!). 

Pensando no cotidiano, passamos muitas horas fechadas numa sala, seja atendendo online ou presencial, nossos horários de trabalho não são os melhores, uma vez que normalmente trabalhamos quando as pessoas estão fora do trabalho delas, o que faz com que nossa agenda funcione fora do horário comercial e nossa noite fique bastante comprometida.

Outra questão que faz muitas psis desistirem é a dificuldade de começar, você pode fazer toda a lição de casa: encontrar um local para atender, fazer site, cartão, perfil na rede social, se cadastrar em plataformas e cumprir com todos os pontos do “check list” que foi popularizado, mas nada é garantia que as pacientes virão. E se elas chegarem, nada é garantia que elas ficarão. E mais, ainda que dê tudo certo e elas cheguem e fiquem, elas vão chegando aos poucos e leva meses (às vezes até anos) para a agenda ficar cheia e o consultório funcionar legal.  

A ideia de viver de Clínica vai ficando mais complicada, né?
E não para por aí, um dos pontos mais difíceis é aprender a ser uma trabalhadora autônoma. Parece uma delícia não ter chefe e não ter que “bater ponto” e cumprir um horário fixo, mas também não temos salário, convênio, VT, VR, PLR, FGTS, 13º, férias e nenhum direito trabalhista, além de não ter toda a estrutura que uma empresa oferece para que as trabalhadoras exerçam suas atividades profissionais. Isso nos impõe o desafio de aprender uma série de coisas que não tem nada a ver com a Psicologia, mas são indispensáveis para fazer uma gestão profissional e construir um consultório saudável e sustentável. 

Dentre esses desafios da gestão, o aspecto financeiro é uma dificuldade a parte. Via de regra as psis não gostam muito de números e planilhas; e a educação financeira não é algo ao qual somos apresentados ao longo de nossa formação. De modo geral, desconhecemos conceitos básicos de gestão financeira e enfrentamos muitos desafios para conseguir um bom faturamento no consultório que possa nos pagar um bom pró-labore (salário) para que possamos pagar nossos boletos e ter uma vida digna. É bastante difícil “ganhar bem” no consultório!    

Por fim, mas não menos importante, tendo um pouco de noção, senso crítico e um posicionamento ético, compreendemos o tamanho da responsabilidade que é ser a psicóloga de outra pessoa, e a insegurança de começar a atender é muito grande. 

É comum ouvir que as psis acham que em 5 anos de faculdade ainda sabem muito pouco, que não se sentem preparadas para enfrentar os desafios que a Clínica apresentará e o famoso medo do desconhecido e de viver uma experiência onde o controle fica em suspensão e embarcamos numa sessão sem fazer ideia do que virá e de como vamos lidar com o que nos for apresentado. 

De fato, viver de Clínica, a despeito do que escutamos por aí, é bem difícil. E não escrevo esta coluna fazendo essas provocações para te desanimar ou te fazer desistir deste caminho, minha proposta é apenas desromantizar a clínica, quebrar algumas fantasias e, principalmente, a ingenuidade e o desconhecimento com a qual vejo muitas profissionais se aproximarem deste campo de atuação. 

No entanto, embora seja difícil, é possível. E é importante lembrar disso!
Claro que existem caminhos e estratégias que tornam esse caminho menos difícil e mais promissor, mas não são atalhos, não será simples e nem fácil. Dará (muito) trabalho, exigirá paciência, muitas vezes é um privilégio poder investir na Clínica até ela atingir o ponto de poder te sustentar economicamente.

Mas é possível, muita gente vem construindo este caminho (eu também construí). E, se este é o teu desejo e é uma possibilidade para você, por que não? Se é este o caminho profissional que te faz sentido, fica aqui meu desejo de boa sorte, porque a sorte também ajuda.  E siga acompanhando esta coluna porque vou trazer reflexões e orientações sobre este “fazer consultório” da vida real! Bora?!

Forte abraço!
Rafa Dutra

One thought on “Viver de Clínica é (bem) difícil!

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