Setembro Amarelo e o marketing psi

SETEMBRO AMARELO E O MARKETING PSI

Setembro Amarelo se tornou uma campanha de marketing e não uma campanha de prevenção ao suicídio, e as psis costumam embarcar nessa proposta de maneira bastante equivocada, o que releva muitas coisas sobre nossa categoria e a maneira dela se apresentar nas redes sociais.

Assim como o “Janeiro Branco”, a campanha do “Setembro Amarelo” ganhou uma posição de destaque no que diz respeito a serem campanhas que abordam as questões de saúde mental e que colocam, portanto, a Psicologia e as psicólogas em evidência. Essas, por sua vez, tentam aproveitar a pauta do momento e dar sua contribuição, mas infelizmente sem fazer a crítica necessária e se posicionando de uma maneira um tanto simplista e mercadológica.

As empresas e escolas querem discussões sobre saúde mental e prevenção de suicídio, é ouro branco pra cá e fitinha amarela pra lá, mas pouca gente fazendo a discussão que precisa ser feita e as psicólogas ecoando discursos de “a vida vale a pena“, “você não está sozinha“, “minha DM está à disposição” e o que não pode faltar: “Faça terapia“, “Agenda aberta e link do whatsapp na bio“.

Eu sei que é bem difícil fazer marketing enquanto psicóloga, sei também que a vida é dura, é preciso pagar boletos, construir um consultório e conseguir pacientes, mas convido vocês a pensarem sobre o como decidimos fazer esse movimento de nos divulgar.

Os especialistas da área de Suicidologia vem se posicionando contra esta campanha e apresentando dados do quanto ela não tem sido efetiva na prevenção e tem, na verdade, contribuído com a propagação de muita desinformação a respeito do tema. Thiago Bloss, psicólogo e professor que tenho como uma referência neste tema, sempre traz suas excelentes provocações e problematizações e termina o mês com as pérolas que aparecem na internet ao longo de setembro; a gente até pode ter um alívio cômico com as bizarrices que vemos por aí, mas a real é que tudo isso é bem sério e bem triste. E uma parte delas é produzida pelas próprias psicólogas.

Quando penso nesta campanha e as coisas que acontecem neste mês em especial (mais até do que o “janeiro branco”), percebo o quanto elas relevam a maneira como a nossa categoria tem entrado em “trends” e ecoado discursos e modismos sem o menor critério crítico e científico nas redes sociais.

É claro que sou a favor de uma campanha para prevenir o suicídio, bem como para cuidar da saúde mental, mas a questão é qual campanha, que discussões estamos fazendo, como estamos pautando o tema para a sociedade e o quanto, do ponto de vista da categoria, estamos indo além do “faça terapia”, como se fazer terapia fosse a resolução para todas essas questões, sem nem se dar o trabalho de aprofundar um pouco nas discussões sobre todos esses fenômenos de adoecimento em saúde mental que estamos enfrentando enquanto sociedade.

Sempre convido as psicólogas a deixarem os especialistas falarem, suicídio não é um tema simples e não é toda profissional que tem acúmulo técnico-científico para falar a respeito. Se quer publicar algum conteúdo, procure o que os especialistas estão dizendo, faça uma curadoria, republique o que a galera que estuda o tema vem falando, muitas vezes, na proposta de aproveitar o tema do mês e até na melhor das intenções, acabamos por propagar aquilo que queríamos combater, e precisamos começar a nos responsabilizar mais por isso.

Para nós, psis, fazer marketing tem uma dimensão ético-política que não pode ser ignorada, seja pela regulamentação ética ao qual estamos submetidas no Conselho de Psicologia, seja pelo papel social que temos de também orientar a população em temas que somos percebidos como especialistas. É muito mais difícil, eu sei, mas precisamos falar cada vez mais sobre isso!

Se sua campanha de Setembro Amarelo é sobre fazer terapia, talvez seja o momento de repensar como você está compreendendo o fenômeno das questões relacionadas à saúde mental e o como está se posicionando nas redes.

O marketing pode ser um grande aliado na construção da sua imagem, na captação de pacientes e na venda de produtos ou serviços, mas é preciso fazê-lo com muita responsabilidade, caso contrário estaremos, enquanto categoria, promovendo um grande desserviço.

Forte abraço!
Rafa Dutra

Que Psicologia Clínica queremos?

QUE PSICOLOGIA CLÍNICA QUEREMOS?

Agosto é o mês da Psicologia, no dia 27/08/2026 celebraremos 64 anos de profissão regulamentada no Brasil e este acaba sendo um mês de muitos eventos, encontros, celebrações e homenagens com as agendas bem movimentadas.

É um mês especial, e as agendas evidenciam os diferentes projetos de profissão que se apresentam e são construídos pela categoria, afinal “ser psicóloga” pode ser muitas coisas diferentes e neste texto gostaria de trazer esta reflexão, mas dentro do contexto da Clínica.

Que a Clínica se consolidou no Brasil como a área mais tradicional da Psicologia todo mundo sabe, inclusive ela se tornou, no imaginário social, sinônimo do trabalho em Psicologia.

Às vezes parece que uma psicóloga que não “faz clínica” não é psicóloga, o que não é verdade. Felizmente, hoje temos muitas Psicologias e muitas possibilidades de trabalho enquanto psicólogas.

Mas a Clínica tem um lugar gigante na Psicologia brasileira. Segundo o Senso 2022 do Conselho Federal de Psicologia, 7 em cada 10 psis tem atuação na Clínica, ainda que a maioria não seja como atividade exclusiva.

Diante deste tamanho todo que a Clínica ocupa, é preciso colocar uma pergunta: que Psicologia Clínica queremos?

Para responder esta pergunta, penso que precisamos nos dedicar a duas questões: a perspectiva de sociedade, de indivíduo, de saúde mental e da própria Psicologia que vai impactar em como acontece o atendimento clínico em si, e a concepção de projeto profissional que orienta a identidade e o posicionamento de carreira da psicóloga.

Do ponto de vista do atendimento em si, temos visto uma crescente da perspectiva biomédica, o discurso da neutralidade científica voltando a ter força e uma visão bastante patologizante e individualizante de compreender e atuar nas questões de saúde mental. Mas quero focar no outro aspecto.

Na identidade e no projeto profissional, percebo que o discurso do empreendedorismo neoliberal capturou grande parte das psicólogas clínicas nas últimas décadas e, e nos últimos anos ganhou um “tempero” , potencializou uma narrativa que é novo que é uma mistura de coaching de propósito de vida com a teologia da prosperidade.

Este discurso tem capturado a atenção e a simpatia não apenas das psicólogas recém-formadas, mas inclusive de profissionais já consolidadas com décadas de carreira. É fato que todo mundo está lidando com a exaustão e quer/precisa ganhar mais e trabalhar menos. Esse é o grande fetiche e, ao mesmo tempo, uma grande necessidade.

E é com esta condição, este desejo e esta necessidade que o discurso do empreendedorismo neoliberal tem se apresentado como uma alternativa para muitas profissionais que acabam entrando nessa onda e caindo no que eu chamo do “canto da sereia neoliberal“.

Esse movimento não é novo na Psicologia brasileira, somos uma categoria de tradição neoliberal, na verdade ele existe desde sempre, agora apenas se apresenta com uma nova roupagem, com as características, ferramentas, linguagens, vocabulários e expressões do nosso tempo histórico.

Será que este é o caminho que queremos enquanto projeto profissional para a Psicologia Clínica?

Acredito que não. A frustração com a quebra de expectativas entre as promessas feitas e os resultados encontrados, somadas a sobrecarga e a solidão vivida pelas psis tem nos apontado a necessidade de construir outros caminhos.

Penso ser indispensável a consciência política, uma leitura de realidade social, a compreensão da própria psicóloga clínica enquanto trabalhadora autônoma e a construção e participação de espaços, coletivos e comunidades de troca, aprendizagem, confraternização e enfrentamento desse grande desafio que tem sido se construir e se consolidar, com saúde e dignidade, uma psicóloga clínica nos dias de hoje.

E para você, que Psicologia Clínica faz sentido? Que Psicologia Clínica você tem construído no seu dia-a-dia?

Forte abraço!
Rafa Dutra

Eu quero férias!

EU QUERO FÉRIAS!

E quem não quer?
As férias são uma grande conquista dos trabalhadores brasileiros. Um direito conquistado em 1925, inicialmente de 15 dias remunerados, que depois foi ampliado para 30 dias em 1943 com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e em 1988 com a nova Constituição Federal ainda se agregou o valor a ser recebido de 1/3 do salário.

Tudo isso é ótimo, mas apenas para quem é CLT, para quem é trabalhadora autônoma como quase 100% das psicólogas clínicas, as férias tem um significado muito diferente e coloca alguns desafios que com o tempo vamos aprendendo a lidar.

Primeiro desafio é o mais óbvio, quando um profissional autônomo não trabalha, ele não recebe. E aí as férias se colocam como um desejo e uma necessidade de descanso e, ao mesmo tempo, um receio e até um medo. Tanto da desorganização financeira porque ficará sem receber, quanto dos pacientes “desistirem” e não voltarem.

Eu lembro que nos meus primeiros anos como autônomo eu tirava férias de uma semana, no máximo 10 dias, basicamente entre o Natal e Ano Novo. E na primeira segunda-feira dia útil do ano já retornava ao trabalho. Que bom que essa fase já passou.

Nos últimos anos tenho conseguido tirar em torno de 45 dias de férias do consultório por ano, às vezes mais, às vezes menos. Mas para isso é preciso planejamento e organização.

Uma organização muito importante é a financeira, outra é a organização das datas e o período que ficará de férias. É importante levar em consideração que nossos pacientes tiram férias também, e via de regra, quando eles saem de férias, a gente também não recebe. Então são muitas variáveis que precisam ser levadas em consideração na hora de “construir suas férias”.

Sobre a organização financeira, é bem simples: se você quer ter 30 dias de férias no ano igual a um CLT, precisará calcular o valor do seu salário e das despesas do seu consultório, entender qual o valor total e dividir por 11. E ai você terá 11 meses pagando para si mesmo uma reserva de férias e no 12° mês você poderá ficar sem receber e utilizar essa reserva para não ter problemas com o seu financeiro.

Já o período das férias depende bastante do público, normalmente Natal, Ano Novo e a primeira ou segunda semana de janeiro muitos pacientes também estão de férias e o fluxo de atendimentos cai bastante, então é um bom período para fazer as suas férias também.

Outros períodos e sazonalidades dependem do público que você atende, com dois ou três anos de consultório você consegue mapear bem isso e ir se programando e alinhando o período da sua pausa nos atendimentos com o período em que boa parte dos seus pacientes também param.

Sobre as datas, eu tenho 2 sugestões. Uma é emendar feriados, principalmente os prolongados. É só pegar os outros três dias da semana e quando você soma os 2 dias do final de semana com os 3 dias que você decide pausar e mais os 4 dias de um feriado prolongado, você “perde” 3 dias de faturamento e faz uma pausa de 9 dias!

Por fim, para pausas mais longas, minha sugestão é pegar, por exemplo, 10 dias em um mês e 10 dias em outro mês, ou 15 e 15 se for parar por 30 dias. De preferência escolher meses que tem “5 semanas” com dias úteis de atendimento, isso minimiza muito o impacto financeiro das férias.

Que precisamos descansar é um fato, nosso trabalho é muito cansativo e essas pausas são extremamente importantes, eu particularmente gosto de fazer diferentes pausas ao longo do ano, algumas mais curtas e outras mais longas, mas, infelizmente para muitas psicólogas clínicas as férias se tornam um problema a ser enfrentado.

No entanto, com organização financeira, planejamento e escolhas estratégicas, as merecidas férias podem fluir bem sem grandes prejuízos, culpas ou preocupações.

Descansar é preciso. E se organizar para o descanso é indispensável. Com o tempo essa reserva das férias pode ir ficando maior e quem sabe você consegue até se pagar aquele 1/3 a mais do salário como os CLTs recebem.

Das reservas financeiras que um consultório precisa, penso que as férias são a primeira, pois garantem esse período de descanso sem grandes turbulências, depois o capital de giro e por fim a reserva de emergência, mas isso é conversa para outro texto.

Organizem-se e boas férias!

Forte abraço
Rafa Dutra

Os desafios do atendimento online!

OS DESAFIOS DO ATENDIMENTO ONLINE

A pandemia mudou tudo! Podemos falar sobre o lugar do atendimento online na Psicologia como “antes e depois” de 2020. Não que ele não existia, mas era marginal, poucas eram as psicólogas que faziam, muitas eram as críticas e se sabia ser algo que provavelmente cresceria no futuro, mas o futuro parecia um pouco mais distante.

Em março de 2020 com o lockdown, de repente, praticamente todas as psicólogas migraram todos os seus pacientes para o atendimento online e foram conhecer este universo. Fizemos nosso cadastro no e-psi (que era preciso na época, hoje não mais) e descobrimos, da noite para o dia, como era atender online. Ali começava uma nova realidade para quem trabalha com Clínica em Psicologia. 

Até fevereiro de 2020, 95% dos meus pacientes eram presenciais, atualmente tenho 75% online e mais uns 10% que são “híbridos”, às vezes online, às vezes presencial. Em apenas 6 anos tudo mudou, e mudou muito rápido. Primeiro por sobrevivência, depois por tendência e “facilidade”. 

Hoje as psis que acabam de se formar só falam sobre atendimento online, pois à primeira vista ele é mesmo sedutor. Poder atender de casa ou em qualquer lugar do mundo (o fetiche de ser nômade digital que atravessa esta nova geração), além do principal atrativo, baixar drasticamente o investimento e o custo fixo para manter um consultório ou ter um espaço de atendimento presencial além de quebrar a barreira territorial e ao invés de ter a possibilidade de atender apenas pessoas que poderiam chegar até você, passar a poder atender qualquer pessoa que fale sua língua e tenha acesso à internet em qualquer lugar do mundo. E sair de um raio de alguns milhares de possíveis pacientes para alguns milhões em qualquer canto do planeta é estatisticamente um ganho substancial. É bastante sedutor, né?

E isto não é uma possibilidade, é uma realidade, é assim que a Clínica em Psicologia em 2026 vem se construindo – e sim, aqui faço um recorte do trabalho numa perspectiva de atendimento individual de classe média e rica, no estilo tradicional da clínica psi mesmo. Esta quebra de barreira territorial, a diminuição do custo para realizar o serviço, a liberdade geográfica e a ideia de trabalhar de casa podem ser realmente coisas muito boas. Mas vamos também às problematizações. 

Primeiro do ponto de vista técnico, logo que começou a pandemia, uma das maiores dificuldades foi das profissionais que atendiam crianças, a migração para o atendimento online de adultos foi bem tranquila, dos adolescentes um pouco mais delicada, agora das crianças foi bastante complexo. Se por um lado fomos descobrindo e criando ferramentas e estratégias digitais para realizar o atendimento, o desafio deste tipo específico de atendimento é bem grande. Assim como com avaliação psicológica, a aplicação de testes também se tornou um desafio pois muitos testes são elaborados e validados para aplicação presencial, e nem sempre a adaptação é possível. 

Além disso, do ponto de vista menos óbvio, três questões se sobressaem, primeiro o “paciente-sem-corpo”. Na tela perde-se boa parte da expressão corporal do paciente, o que não inviabiliza – de maneira alguma – o atendimento, mas reduz a percepção da psicóloga. Outra questão, a concentração do paciente que às vezes está com outras telas abertas e até vendo (e respondendo) mensagens ou e-mails, principalmente de coisas do trabalho, durante a sessão, ou então os atravessamentos no atendimento, seja o filho chamando, o pet sentando na frente da tela, o interfone tocando ou outras tantas coisas que atravessam a sessão quando “entramos” na casa das pessoas (e as pessoas nas nossas casas), além da perda do tempo e do ritual de ir e voltar do atendimento, um espaço-tempo que tem sua importância no processo. Hoje é comum terminar a sessão, mudar de tela e começar, imediatamente, outra atividade. Nada disso impossibilita o atendimento, mas é inevitável que algumas coisas se percam no caminho. 

No entanto, existe algo mais que ainda é pouco falado: por trás dessa grande liberdade e desse conforto de trabalhar de casa, também se estabelece uma grande dificuldade da psicóloga estabelecer rotina de trabalho, fronteiras entre o trabalho e a casa, a solidão que já era presente no trabalho na clínica, aumenta, e muitas psis acabam adoecendo silenciosamente e sem perceber por conta dessa dinâmica meio caótica e desregrada de trabalho. 

Não acredito que o atendimento online seja um caminho que será revertido, acredito que nos próximos anos os atendimentos presenciais devem aumentar um pouco em relação ao como tem sido hoje em dia pelo fato das pessoas voltarem a trabalhar nas empresas e, também, nos atendimentos das pessoas de classes sociais mais ricas, afinal, nos dias de hoje tempo é um luxo que poucos podem ter (e aí a desigualdade se expressará mais uma vez). 

Penso que aos poucos a Psicologia vai produzir referencial teórico, adaptar e criar técnicas e instrumentos 100% voltados para os atendimentos online, e é preciso que este processo seja acompanhado de perto, sobretudo pelo Sistema Conselhos (CFP e CRPs), responsável, entre outras coisas, pela regulamentação dos serviços em Psicologia.

O atendimento online é a modalidade de atendimento que dominou a Clínica em Psicologia nos últimos anos e, para além das questões simples de estrutura e equipamentos, é preciso que pensemos em como nos organizar para que a gente não adoeça trabalhando desta maneira. 

Trabalhar como psicóloga é muito desafiador; e agora o atendimento online, embora sedutor, traz novas camadas de desafios para o cotidiano do nosso trabalho. É preciso pensar e se posicionar a respeito deles. 

Forte abraço!
Rafa Dutra 

Como conseguir pacientes?

COMO CONSEGUIR PACIENTES? 

Esta é a pergunta que eu mais recebi em quase 9 anos promovendo dezenas de atividades para milhares de estudantes e profissionais na Sala ABC! Afinal, esta é a grande “dor” das psicólogas, principalmente das que estão começando na Clínica. 

Os gurus do marketing ensinam que devemos conhecer bem nosso cliente e conhecer quais são as dores deles (os problemas para os quais poderemos vender a solução). Não à toa que toda hora somos atravessadas por propagandas de cursos e mentorias que ensinam a ter “agenda cheia em 3 meses“, “faturar 10k em 6 meses“, “como conseguir pacientes high-ticket“, etc. 

Todo mundo sabe que este é o grande desafio de quem começa na clínica ou de quem quer levar seu consultório para um outro patamar de retorno financeiro. E dai chegam as promessas, são “metodologias comprovadas”, uso de redes sociais, Google Ads, Meta Ads, comunidades, plataformas, etc, mas no fundo a promessa é a mesma: vou te ajudar a conseguir seus pacientes. E as psicólogas compram essas promessas, às vezes pagam bem caro, inclusive. 

Então, primeiro de tudo, cuidado com quem te promete este tipo de coisa, e não saia gastando seu dinheiro com isso. Lembre-se: não existe caminho fácil e nem rápido! 

Este “conseguir pacientes” eu tenho chamado de “construir sua rede de encaminhamentos“, um processo artesanal, que leva tempo e depende de uma série de variáveis que nem sempre são passíveis de controle e previsibilidade. 

Quando faço reflexões e orientações sobre esta questão, gosto de dizer que nosso desafio é transformar nossa rede de contatos – o famoso “network” – em uma rede de encaminhamentos. E existem diferentes caminhos para isso. 

Porém, antes de sair investindo tempo, energia e dinheiro nisso, tem uma pergunta fundamental na qual a resposta mudará tudo o que você deverá fazer depois: 

Quem é o paciente que eu quero ter? 

E a resposta a essa pergunta deve ser completa, tipo um episódio do Globo Repórter de sexta-feira a noite: quem são, o que fazem, onde vivem?

Não basta apenas saber qual faixa etária você quer atender, que é o recorte mais comum das psis pensarem. É preciso pensar em tipos de demandas, questões identitárias, classe social, território e uma série de características para que, primeiro vc entenda bem quem é o público que você deseja atrair para o seu consultório, e só depois começar a criar estratégias para ir até eles, ou ainda melhor, para eles virem até você! 

O digital é um caminho que chegou para ficar, ultimamente tenho visto psicólogas já consolidadas entrando nas redes também, mas vale lembrar que o digital é apenas um dos caminhos, e nem todo mundo se sente confortável com ele. 

Na Psicologia Clínica de consultório, pela característica dos processos serem com encontros semanais ou quinzenais, não precisamos de muito pacientes, 20 ou 30 pacientes já configuram uma agenda cheia, então ter uma rede de encaminhamento, ainda que pequena, mas eficiente, pode fazer você construir seu consultório em poucos meses. 

Tem algumas psis que tem perfil para ter aquele posicionamento mais “blogueirinha/ tiktoker” que a cartilha do marketing digital propõe, e algumas tem realmente bons resultados em transformar sua rede social em um espaço de encaminhamento de pacientes, mas arrisco dizer que 90% dos perfis profissionais na rede social não conseguem fazer isso. 

Ainda no digital, ter um site, um blog, um perfil “vitrine”, um Google Meu Negócio, um cadastro em algumas plataformas de busca por psis e até investir em tráfego no Google ou na Meta podem dar resultado, desde que você tenha conhecimentos básicos deste universo e saiba o que está fazendo (ou contrate alguém que saiba). 

Mas existe vida fora da Internet, e muitas possibilidades para construir sua rede de encaminhamentos fora dela também. 

Parcerias com psicólogas de outras abordagens ou que atendem outros públicos, parcerias com profissionais da saúde, parceria com projetos ou instituições, participar de comunidades, frequentar grupos de supervisão e de estudos, ir a eventos, palestras, congressos e tudo quanto é lugar onde as pessoas possam te conhecer como psicóloga são maneiras de investir na construção da sua rede de contatos e, portanto, na sua rede de encaminhamentos. 

Não acredito que exista a melhor estratégia, aquela que garanta resultados bons e rápidos. O resultado virá com as estratégias com as quais você se identifica e investe, com constância e dedicação por um período considerável, não será uma coisa de dias ou semanas. 

Construir um consultório sólido é construir uma rede de encaminhamentos capaz de, primeiro, construir uma boa agenda e, segundo, fazer a manutenção diante das variações de entrada e saída de pacientes. Inclusive, com o tempo, suas próprias pacientes e ex-pacientes vão se tornar sua rede de encaminhamentos. Quando isso acontecer, seu consultório estará quase que “rodando sozinho”. 

No entanto, este processo não é simples e nem rápido, envolve conhecimento, tempo e ação. Sua rede começa a ser construída ainda durante sua graduação, com suas professoras, supervisoras e colegas de turma e de curso. Ou seja, não é um processo que você só começa depois de ter o CRP na mão.

Bora estudar e construir sua rede! 

Forte abraço!
Rafa Dutra