
DESAFIOS DA TERAPIA | EMPATIA: OLHANDO PELA JANELA DO PACIENTE
Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
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É estranho como certas frases ou eventos se alojam na mente de alguém e oferecem orientação ou conforto contínuos. Décadas atrás, atendi uma paciente com câncer de mama que passou toda a adolescência travada em uma longa e amarga luta com seu pai pessimista.
Ansiosa por alguma forma de reconciliação, por um novo começo para o relacionamento deles, esperava viajar com seu pai para a faculdade – um momento em que ficaria sozinha com ele por várias horas. Mas a tão esperada viagem provou-se um desastre: ele se comportou como sempre, reclamando sobre o riacho feio e cheio de lixo ao longo da estrada. Ela, por outro lado, não viu lixo algum no belo, rústico e intocado riacho. Como a minha paciente não encontrava jeito de responder, por fim, caiu em silêncio e os dois passaram o resto da viagem sem olhar um para o outro.
Em outro momento, ela fez a mesma viagem sozinha e ficou surpresa ao notar que havia dois riachos – um de cada lado da estrada. “Dessa vez eu estava dirigindo“, disse ela com tristeza, “e o riacho que vi pela janela do lado do motorista era tão feio e poluído quanto meu pai tinha descrito“. Quando aprendeu a olhar pela janela de seu pai, porém, já era tarde demais – seu pai estava morto e enterrado.
Essa história permaneceu comigo e, em muitas ocasiões, lembrei a mim mesmo e a meus alunos: “Olhe pela janela do outro. Tente ver o mundo como seu paciente o vê“. A mulher que me contou essa história morreu pouco tempo depois, de câncer de mama, e lamento não poder contar a ela como sua história foi útil ao longo dos anos, para mim, meus alunos e muitos pacientes.
Cinquenta anos atrás, Carl Rogers identificou a “precisão empática” como uma das três características essenciais do terapeuta eficaz (juntamente com a “aceitação positiva incondicional” e a “autenticidade”) e lançou o campo da pesquisa em psicoterapia, que acabou reunindo consideráveis evidências para apoiar a eficácia da empatia.
A terapia é aprimorada se o terapeuta entrar com precisão no mundo do paciente. Os pacientes lucram muito apenas com a experiência de serem enxergados e compreendidos por completo. Portanto, é importante que apreciemos como nosso paciente vivencia o passado, o presente e o futuro. Faço questão de verificar repetidamente minhas suposições. Por exemplo:
“Bob, quando penso em seu relacionamento com Mary, é isso que entendo. Você diz que está convencido de que você e ela são incompatíveis, que deseja muito se separar dela, que se sente entediado em sua companhia e evita passar noites inteiras com ela. No entanto, agora, quando ela fez o movimento que você queria e se afastou, você mais uma vez anseia por ela. Acho que ouvi você dizer que não quer ficar com ela, mas não suporta a ideia de ela não estar disponível quando você precisar dela. Estou certo até agora?”.
A precisão empática é mais importante no domínio do presente imediato – isto é, o aqui e agora da sessão da terapia. Tenha em mente que os pacientes veem as sessões de terapia de maneira muito diferente dos terapeutas. Repetidas vezes, os terapeutas, mesmo os mais experientes. ficam muito surpresos ao redescobrir esse fenômeno. Não é incomum que um de meus pacientes comece uma sessão descrevendo uma intensa reação emocional a algo que ocorreu durante a sessão anterior, e eu me sinto perplexo, sem poder imaginar o que aconteceu para provocar uma reação tão poderosa.
Essas visões divergentes entre paciente e terapeuta chamaram minha atenção pela primeira vez anos atrás, quando eu estava conduzindo uma pesquisa sobre a experiência dos membros de grupos, tanto de terapia quanto os de encontro. Pedi a muitos deles que preenchessem um questionário no qual identificassem os acontecimentos críticos de cada reunião. Os ricos e variados acontecimentos descritos diferiam muito das avaliações dos líderes de seus grupos sobre os acontecimentos críticos de cada reunião, e uma diferença semelhante existia entre a seleção dos membros e líderes dos acontecimentos mais críticos para toda a experiência do grupo.
Meu próximo encontro com as diferenças nas perspectivas do paciente e do terapeuta ocorreu em um experimento informal, no qual um paciente e eu escrevemos resumos de cada sessão de terapia. A experiência tem uma história curiosa. A paciente, Ginny, era uma talentosa escritora que estava sofrendo não só de um grave bloqueio de escrita, mas também de todas as formas de expressividade. A participação de um ano em meu grupo de terapia foi relativamente improdutiva: ela revelou pouco de si mesma, deu pouco de si aos outros membros e me idealizou tanto que nenhum encontro genuíno foi possível.
Então, quando Ginny teve que deixar o grupo por causa de pressões financeiras, propus um experimento incomum. Ofereci-me para encontrá-la em terapia individual com a condição de que, como pagamento, ela escrevesse um resumo livre e sem censura de cada sessão, expressando todos os sentimentos e pensamentos que não tivesse verbalizado durante os encontros. Eu, de minha parte, propus fazer exatamente o mesmo e sugeri que cada um de nós entregasse nossos relatórios semanais lacrados à minha secretária e que, a cada poucos meses, lêssemos as anotações um do outro.
Minha proposta tinha muitas serventias. Eu esperava que a tarefa de redação pudesse não apenas liberar a escrita de minha paciente, mas também encorajá-la a se expressar mais livremente na terapia. Talvez, eu esperava, ela ler minhas anotações pudesse melhorar nosso relacionamento. Eu pretendia escrever notas sem censura, revelando minhas experiências durante a sessão: meus prazeres, frustrações e distrações.
Era possível que, se Ginny pudesse me enxergar de forma mais realista, ela pudesse começar a me desidealizar e se relacionar comigo de uma forma mais humana.
(Como um aparte não pertinente a essa discussão sobre empatia, eu acrescentaria que essa experiência ocorreu em um momento em que eu estava tentando desenvolver minha voz como escritor, e minha oferta de escrever em paralelo com minha paciente também teve um motivo autointeressado: ela me proporcionou um exercício de escrita incomum e uma oportunidade de quebrar meus grilhões profissionais para, liberando minha voz, escrever tudo o que me viesse à mente de imediato depois de cada sessão).
A troca de notas a cada poucos meses forneceu uma experiência semelhante ao efeito Rashomon. Embora tivéssemos compartilhado a sessão, nós a vivenciamos e nos recordamos dela de forma idiossincrática. Por um lado, valorizamos partes muito diferentes da sessão. Minhas interpretações elegantes e brilhantes? Ela nem as ouviu. Em vez disso, Ginny valorizava os pequenos atos pessoais que eu mal notava: elogiar suas roupas, aparência ou escrita, minhas desculpas desajeitadas por chegar alguns minutos atrasado, rir de sua sátira, provocá-la quando encenávamos.
Todas essas experiências me ensinaram a não supor que o paciente e eu tivemos a mesma experiência na sessão. Quando os pacientes discutem sentimentos que tiveram na sessão anterior, faço questão de indagar sobre sua experiência e quase sempre aprendo algo novo e inesperado.
Ser empático é tão parte do discurso cotidiano – cantores populares cantam platitudes sobre estar na pele do outro – que tendemos a esquecer a complexidade do processo. É extraordinariamente difícil saber de fato o que o outro sente; com muita frequência, projetamos nossos sentimentos no outro.
Ao ensinar os alunos sobre empatia, Erich Fromm com frequência citava a declaração de Terêncio de dois mil anos atrás – “Sou humano: nada do que é humano me é estranho” – e nos exortava a estarmos abertos para aquela parte de nós mesmos que corresponde a qualquer ação ou fantasia trazidas pelos pacientes, não importa quão hedionda, violenta, lasciva, masoquista ou sádica. Se não agíssemos assim, ele sugeria que investigássemos por que escolhemos fechar essa parte de nós mesmos.
Claro, o conhecimento do passado do paciente aumenta muito nossa capacidade de olhar pela janela do paciente. Se, por exemplo, os pacientes sofreram uma longa série de perdas, eles verão o mundo através das lentes da perda. Eles podem não estar inclinados, por exemplo, a deixar você chegar muito perto por medo de sofrer mais uma perda. Portanto, a investigação do passado pode ser importante não para construir cadeias causais, mas porque nos permite ser empáticos com mais precisão.

Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia
Estudante do 8º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Esse conceito de “olhar pela janela do paciente” me trouxe na lembrança as aulas de fenomenologia. Lembrei de um exemplo que discutimos em sala sobre uma garrafa de vinho. O capítulo II do livro “O paciente psiquiatrico” de J.H. Van den Berg dizia que uma garrafa de vinho não possui um significado único e fixo, ela pode representar coisas completamente diferentes para pessoas diferentes e, inclusive, assumir significados distintos para a mesma pessoa, dependendo do momento da vida em que ela se encontra.
Olhar pela perspectiva do paciente é essencial na psicoterapia justamente porque aquilo que aconteceu, ou aquilo que está sendo vivido, nunca carrega um significado universal. Cada pessoa atribui sentidos às suas experiências a partir da própria história, das relações que construiu e da forma como enxerga o mundo naquele momento.
Também ficou marcado o trecho que Yalom fala sobre as diferentes percepções da sessão. Muitas vezes o terapeuta considera uma interpretação muito importante, enquanto o paciente guarda justamente um comentário que o terapeuta considera simples. Isso reforça que por mais que planejemos nossas intervenções e falas, nunca temos total controle sobre aquilo que será significativo para o outro.
Para mim, a empatia é um exercício contínuo de reconhecer que sempre haverá algo da experiência do outro que ainda não conseguimos enxergar ou compreender. E de construir, junto com o paciente, um ambiente seguro para ele possa nos mostrar e falar sobre suas interpretações e significados.

Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
Empatia talvez seja um dos maiores clichês no universo da Psicologia, e como sempre gosto de dizer, não é por acaso que os clichês são clichês, é preciso reconhecer o valor deles. Se por um lado resumir o encontro terapêutico apenas à empatia é reduzir toda a potência deste encontro, por outro, sem empatia, o encontro terapêutico não acontece.
Lembro da primeira vez que uma professora falou sobre empatia em sala de aula, ela deu o exemplo de “vestir o sapato do outro e caminhar pelo mundo a partir dos passos do outro”, mas logo depois nos advertiu: “só não esqueçam de tirar os sapatos dele e voltar para os seus!”.
Penso que o importante é este movimento, compreender o mundo do outro para se conectar, mas intervir a partir do seu mundo para produzir reflexões e deslocamentos, como uma dança, mas de improviso. De fato, não temos tanto controle como gostaríamos (e algumas psis e abordagens teóricas tentam).
Este exercício que Yalom comenta que fez com sua paciente se tornou um livro, “Cada dia mais perto” é o nome em português, e sem dúvida vale a leitura. Perceber tão explicitamente a diferença de percepção do terapeuta e da paciente sobre a mesma sessão é uma maneira bastante didática de nos colocar para pensar sobre como devemos nos movimentar neste encontro.
A declaração de Terêncio citada por Erich Fromm que Yalom traz para o texto: “Sou humano: nada do que é humano me é estranho”, reforça algo que acredito muito; quanto mais repertório humano eu tenho, mais facilidade (ou menos dificuldade) eu terei de me conectar com meu paciente. Por isso sempre digo às estudantes e psis que tenho a oportunidade de conversar que ampliar nossa visão e vivência de mundo nos faz uma psicóloga melhor.
É preciso olhar pela janela do outro, é preciso calçar os sapatos do outro, mas não se esqueçam de tirar os dele, calçar os seus e seguir construindo a relação a partir do seu papel de terapeuta. Explorar sentidos, significados, percepções de mundo é parte essencial de um bom processo e de um vínculo terapêutico que permita produz trocas, deslocamentos e transformações, mas isso é apenas o ponto de partido, é preciso ir muito além.