
QUE PSICOLOGIA CLÍNICA QUEREMOS?
Agosto é o mês da Psicologia, no dia 27/08/2026 celebraremos 64 anos de profissão regulamentada no Brasil e este acaba sendo um mês de muitos eventos, encontros, celebrações e homenagens com as agendas bem movimentadas.
É um mês especial, e as agendas evidenciam os diferentes projetos de profissão que se apresentam e são construídos pela categoria, afinal “ser psicóloga” pode ser muitas coisas diferentes e neste texto gostaria de trazer esta reflexão, mas dentro do contexto da Clínica.
Que a Clínica se consolidou no Brasil como a área mais tradicional da Psicologia todo mundo sabe, inclusive ela se tornou, no imaginário social, sinônimo do trabalho em Psicologia.
Às vezes parece que uma psicóloga que não “faz clínica” não é psicóloga, o que não é verdade. Felizmente, hoje temos muitas Psicologias e muitas possibilidades de trabalho enquanto psicólogas.
Mas a Clínica tem um lugar gigante na Psicologia brasileira. Segundo o Senso 2022 do Conselho Federal de Psicologia, 7 em cada 10 psis tem atuação na Clínica, ainda que a maioria não seja como atividade exclusiva.
Diante deste tamanho todo que a Clínica ocupa, é preciso colocar uma pergunta: que Psicologia Clínica queremos?
Para responder esta pergunta, penso que precisamos nos dedicar a duas questões: a perspectiva de sociedade, de indivíduo, de saúde mental e da própria Psicologia que vai impactar em como acontece o atendimento clínico em si, e a concepção de projeto profissional que orienta a identidade e o posicionamento de carreira da psicóloga.
Do ponto de vista do atendimento em si, temos visto uma crescente da perspectiva biomédica, o discurso da neutralidade científica voltando a ter força e uma visão bastante patologizante e individualizante de compreender e atuar nas questões de saúde mental. Mas quero focar no outro aspecto.
Na identidade e no projeto profissional, percebo que o discurso do empreendedorismo neoliberal capturou grande parte das psicólogas clínicas nas últimas décadas e, e nos últimos anos ganhou um “tempero” , potencializou uma narrativa que é novo que é uma mistura de coaching de propósito de vida com a teologia da prosperidade.
Este discurso tem capturado a atenção e a simpatia não apenas das psicólogas recém-formadas, mas inclusive de profissionais já consolidadas com décadas de carreira. É fato que todo mundo está lidando com a exaustão e quer/precisa ganhar mais e trabalhar menos. Esse é o grande fetiche e, ao mesmo tempo, uma grande necessidade.
E é com esta condição, este desejo e esta necessidade que o discurso do empreendedorismo neoliberal tem se apresentado como uma alternativa para muitas profissionais que acabam entrando nessa onda e caindo no que eu chamo do “canto da sereia neoliberal“.
Esse movimento não é novo na Psicologia brasileira, somos uma categoria de tradição neoliberal, na verdade ele existe desde sempre, agora apenas se apresenta com uma nova roupagem, com as características, ferramentas, linguagens, vocabulários e expressões do nosso tempo histórico.
Será que este é o caminho que queremos enquanto projeto profissional para a Psicologia Clínica?
Acredito que não. A frustração com a quebra de expectativas entre as promessas feitas e os resultados encontrados, somadas a sobrecarga e a solidão vivida pelas psis tem nos apontado a necessidade de construir outros caminhos.
Penso ser indispensável a consciência política, uma leitura de realidade social, a compreensão da própria psicóloga clínica enquanto trabalhadora autônoma e a construção e participação de espaços, coletivos e comunidades de troca, aprendizagem, confraternização e enfrentamento desse grande desafio que tem sido se construir e se consolidar, com saúde e dignidade, uma psicóloga clínica nos dias de hoje.
E para você, que Psicologia Clínica faz sentido? Que Psicologia Clínica você tem construído no seu dia-a-dia?
Forte abraço!
Rafa Dutra