
DESAFIOS DA TERAPIA | REMOVA OS OBSTÁCULOS DO CRESCIMENTO
Nesta coluna vamos apresentar um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!

Capítulo 1: Remova os obstáculos do crescimento (Irvin D. Yalom)
Quando eu estava descobrindo meu caminho, ainda um jovem estudante de psicoterapia, o livro mais útil que li foi Neurose e desenvolvimento humano, de Karen Horney. E um dos conceitos mais proveitosos daquelas páginas era a noção de que o ser humano tem uma propensão inata para a autorrealização. Se os obstáculos forem removidos, acreditava Horney, o indivíduo se tornará um adulto maduro e realizado por completo, assim como uma noz se transformará em um carvalho.
“Assim como uma noz se transformará em um carvalho…” Que imagem maravilhosamente libertadora e esclarecedora! Ela mudou para sempre minha abordagem psicoterapêutica, oferecendo-me uma nova visão do meu trabalho: minha tarefa era remover os obstáculos que bloqueavam o caminho do meu paciente. Não precisava fazer todo o trabalho; não precisava inspirar o paciente com desejo de crescer, com curiosidade, vontade, gosto pela vida, carinho, lealdade ou qualquer uma das inúmeras características que nos tornam plenamente humanos. Não, o que eu tinha que fazer era identificar e remover os obstáculos. O resto se seguiria de modo automático, alimentado pelas forças autoatualizadoras dentro do paciente.
Lembro-me de uma jovem viúva com, como ela disse, um “coração fracassado” – uma incapacidade de amar mais uma vez. Parecia assustador lidar com a incapacidade de amar. Eu não sabia como fazer isso.
Mas me dedicar a identificar e desenraizar seus muitos bloqueios ao amor? Isso eu poderia fazer.
Logo aprendi que o amor parecia traiçoeiro para ela. Amar outra vez era trair o marido morto; era como martelar os últimos pregos no caixão dele. Amar alguém tão profundamente quanto o amou (e ela não se contentaria com nada menos) significava que aquele amor tinha sido de alguma forma insuficiente ou imperfeito. Amar outro seria autodestrutivo porque a perda e sua dor lancinante eram inevitáveis. Amar de novo parecia irresponsável: seria algo mau e agourento, e seu beijo seria o beijo da morte.
Trabalhamos duro por muitos meses para identificar todos esses obstáculos a que ela amasse outro homem. Durante meses, lutamos contra cada obstáculo irracional. Mas, uma vez feito isso, os processos internos da paciente assumiram o controle: ela conheceu um homem, apaixonou–se, casou-se novamente. Não precisei ensiná-la a procurar, a se dar, a gostar, a amar – eu não saberia como fazer isso.
Algumas palavras sobre Karen Horney: seu nome não é familiar para a maioria dos jovens terapeutas. Como a vida útil de teóricos eminentes em nosso campo se tornou muito curta, devo, de tempos em tempos, cair em reminiscências – não apenas para homenagear, mas para destacar o fato de que nosso campo tem uma longa história de contribuições notavelmente capazes, que lançaram fundações profundas para o nosso trabalho de terapia atual.
Um acréscimo norte-americano à teoria psicodinâmica está representado no movimento “neofreudiano” – um grupo de clínicos e teóricos que reagiram contra o foco original de Freud na teoria da pulsão, isto é, a noção de que o indivíduo em desenvolvimento é controlado, de modo amplo, pelo desdobramento e expressão de impulsos inerentes.
Em ver disso, os neofreudianos ressaltaram que consideramos a vasta influência do ambiente interpessoal que envolve o indivíduo e que, ao longo da vida, molda a estrutura do caráter. Os teóricos interpessoais mais conhecidos – Harry Stack Sullivan, Erich Fromm e Karen Horney – foram tão profundamente integrados e assimilados em nossa linguagem e prática terapêutica que somos todos, sem saber, neofreudianos. Isso nos faz lembrar de Monsieur Jourdain em O burguês fidalgo, de Molière, que, ao aprender a definição de “prosa”, exclama com admiração: “E pensar que toda a minha vida tenho falado em prosa sem saber”.
YALOM, I.D. Remova os obstáculos do crescimento, In: YALOM, I. D. Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas. São Paulo: Editora Paidós, 2024. p. 23-25.

Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia
Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Achei esse primeiro capítulo muito interessante e de certa forma, me trouxe um alívio pensando na minha atuação como futura psicóloga. Como estudante e paciente, acredito que não há ninguém que conheça mais o indivíduo do que ele mesmo!
Esse trecho reforça e retira essa responsabilidade do psicólogo de que é dele o papel de resolução dos problemas do paciente, quando na verdade a função é outra! Confesso que também já tive esse tipo de pensamento antes da faculdade e da psicoterapia… não sabia qual era de fato, o papel do psicólogo.
Uma frase que ouvi no decorrer do curso e me marcou até hoje é: “futuro psicólogo, você não tem o poder de SALVAR o paciente de todos os problemas e irá se frustrar se não entender qual é de fato o seu papel. E principalmente, iniciem a psicoterapia de vocês!”
Depois disso, iniciei minha psicoterapia! E entendi, ainda mais, a importância de ocupar o lugar de paciente para um dia atuar como psicóloga.

Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
A ideia de uma “propensão inata para a autorrealização” me é um tanto estranha, afinal a ideia de um comportamento inato vai na contramão daquilo que compreendo a partir da construção social do sujeito.
No entanto, a reflexão sobre o papel do terapeuta como aquele que vai contribuir para a conscientização do paciente sobre seus obstáculos mergulhando em reflexões profundas e não como aquele que vai dar respostas e ensinar qual desejo deve ser realizado ou como realizar este desejo já é algo que me faz bastante sentido.
Minha compreensão histórico-social me impede de compreender que tais obstáculos sejam apenas do sujeito, sua história de vida e/ou aos significados atribuídos a sua experiência de vida, pois existem obstáculos estruturais e sociais que o terapeuta não será capaz de “remover”, e eles também constituem a subjetividade e as possibilidades de vida que se apresentam para cada um de nós.
Feitas tais ressalvas, a ideia de que nosso trabalho é remover os obstáculos que impedem o crescimento é, também, a ideia de trabalhar na potência do nosso paciente; compreender quais elementos o impedem de efetivar sua potência, alcançando novas possibilidades de viver suas relações, seus projetos de vida e de maneira mais ampla, a própria existência!
Ampliar a consciência, trabalhar na potência e reconhecer nossa contribuição, nossas possibilidades e nossos limites são elementos fundamentais para a realização de um trabalho efetivo enquanto psicólogos clínicos, conscientes do nosso papel e também conscientes do que não seremos capazes de realizar em um processo terapêutico.