Uso o “também” de forma intencional para deixar claro que meu passado integra meu presente. Minha formação inicial me trouxe recursos valiosos para esta nova fase, mas para quem, assim como eu, atravessa uma transição de carreira, a pergunta fundamental é: Quais desses recursos atendem às minhas novas necessidades e quais podem ser prejudiciais ao meu novo papel profissional? Se nada é descartado, tudo deve ser utilizado?
Na minha primeira formação, o objetivo era uma comunicação clara, rápida e de impacto. Um anúncio deve ter trinta segundos; um título com mais de duas linhas perde atenção do leitor. Hoje, as redes sociais oferecem vídeos curtíssimos ensinando desde receitas de bolo a fórmulas de comportamento. Tudo parece poder ser aprendido rápido e de uma vez. A experiência corre diante dos olhos na tela, mas o que realmente fica dela? A comunicação publicitária sempre caminhou (ou correu?) nessa velocidade acelerada, tentando manter tudo “em dia”: a academia, a carreira, a terapia.
Hoje, na clínica, me encontro com o temido silêncio do paciente. Mesmo sem décadas de formação, já percebo que esse silêncio não é ausência, mas uma mensagem em estado bruto, um espaço onde o paciente ensaia o que ainda não tem palavras para dizer. Se como publicitária meu trabalho era pautado na ânsia de resolver e antecipar estratégias focadas em resultados, na clínica devo esperar respeitosamente que o paciente o faça. No tempo dele. Com seus próprios recursos. Se antes o foco era entender o comportamento de muitos, agora o desafio é ater-me ao universo de um só.
Tenho aprendido que o sintoma é, na verdade, um ruído que insiste em comunicar algo. Me papel mudou: de quem evita o ruído para quem o escuta com interesse ético. Essa ética e acolhimento nascem justamente quando escolho desistir de “comunicar algo” para permitir que o outro se comunique através de mim. Descobri que o acolhimento é o canal mais limpo por onde a fala pode transitar sem julgamentos.
Precisei desaprender a pressa da resposta para permitir a demora da pergunta. A precisão que eu buscava para atingir determinado público, hoje dedico à singularidade de quem se senta à minha frente. A comunicação me deu a técnica de alcance, mas a psicologia me deu a profundidade do encontro. Se antes eu buscava a imagem e a persuasão, hoje trabalho com o que está por trás das camadas dos papéis sociais. Minha experiência com a linguagem agora serve a um propósito maior: ajudar o outro a ouvir suas próprias dores, a traduzir-se para o mundo, no seu próprio tempo.
Para as que estão também nessa tarefa da transição de carreira, deixo a reflexão: Será que estamos usando a nossa bagagem a favor dessa nova profissão sem influenciar na trajetória de nossos pacientes? Ou estamos de fato permitindo a calma de testemunhar o que nasce no tempo dele?
Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
Os estudantes de psicoterapia de hoje em dia estão expostos a uma ênfase excessiva no diagnóstico. Os administradores de planos de saúde exigem que os terapeutas cheguem rapidamente a um diagnóstico preciso e, em seguida, prossigam com um curso de terapia breve e focada que corresponda a esse diagnóstico específico. Parece bom. Parece lógico e eficiente. Mas tem muito pouco a ver com a realidade. Em vez disso, representa uma tentativa ilusória de impor a precisão científica quando ela não é possível nem desejável.
Embora o diagnóstico seja inquestionavelmente crítico nas considerações de tratamento para muitas condições graves com um substrato biológico (por exemplo, esquizofrenia, transtornos bipolares, transtornos afetivos graves, epilepsia do lobo temporal, toxicidade de drogas, doença orgânica ou cerebral causada por toxinas, causas degenerativas ou agentes infecciosos), o diagnóstico é muitas vezes contraproducente na psicoterapia cotidiana de pacientes menos gravemente prejudicados.
Por quê? Primeiro, a psicoterapia consiste em um processo de desenvolvimento gradual em que o terapeuta tenta conhecer o paciente do modo mais pleno possível. Um diagnóstico limita a visão; ele diminui a capacidade de se relacionar com o outro enquanto pessoa. Uma vez que fazemos um diagnóstico, tendemos a desatentar seletivamente para aspectos do paciente que não se encaixam naquele diagnóstico específico e, por consequência, a superestimar características sutis que parecem confirmar um diagnóstico inicial. Além disso, um diagnóstico pode atuar como uma profecia autorrealizável.
Relacionar-se com um paciente como “borderline” ou “histérico” pode servir para estimular e perpetuar essas mesmas características. De fato, há uma longa história de influência iatrogênica na forma de entidades clínicas, incluindo a atual controvérsia sobre transtorno de personalidade múltipla e memórias reprimidas de abuso sexual. E tenha em mente, também, a baixa confiabilidade da categoria de transtorno de personalidade do DSM (com frequência, os próprios pacientes se envolvem em psicoterapia de longo prazo).
E que terapeuta não se impressionou com o quanto é mais fácil fazer um diagnóstico baseado no DSM-IV depois da primeira entrevista do que muito mais tarde – digamos, da décima sessão em diante -, quando sabemos muito mais sobre o indivíduo? Não é um tipo estranho de ciência? Um colega meu traz essa questão para seus residentes psiquiátricos perguntando: “Se você está fazendo psicoterapia pessoal ou está considerando fazer, que diagnóstico do DSM-IV você acha que seu terapeuta poderia usar para descrever alguém tão complicado quanto você?”.
Na empreitada terapêutica, devemos traçar uma linha tênue entre alguma, mas não muita, objetividade; se levarmos o DSM muito a sério, se acreditarmos que estamos mesmo manipulando as articulações da natureza, então podemos ameaçar o humano, o espontâneo, a natureza criativa e incerta do empreendimento terapêutico. Lembre-se de que os clínicos envolvidos na formulação de sistemas diagnósticos anteriores, agora descartados, eram competentes, orgulhosos e tão confiantes quanto os atuais membros dos comitês do DSM. Sem dúvida, chegará o tempo em que o formato de menu de restaurante chinês do DSM-IV parecerá ridículo para os profissionais de saúde mental.
Maria Fernanda | Estudante de Psicologia
Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Esse segundo capítulo aborda um assunto que, atualmente, acompanhando as redes sociais, é um dos tópicos mais comentados: a patologização excessiva e a busca por diagnóstico a todo custo. A sensação que eu tenho é que tudo precisa virar diagnóstico e há uma necessidade de se encaixar em alguma “categoria”.
Na faculdade debatemos bastante sobre como o diagnóstico pode limitar o paciente e o profissional. Ao ponto de deixar de vê-lo como um indivíduo e passar a vê-lo como o diagnóstico. Desconsiderando a complexidade e limitando um sujeito inteiro em uma categoria. E que bom que Yalom já vem problematizando isso!
Para mim, faz sentido e eu acredito que o diagnóstico não pode substituir o encontro, a escuta, a profundidade e a complexidade que é ser humano. É necessário considerar e entender todas as nuances, condições de desenvolvimento, aspectos sociais, políticos e históricos.
Ser humano é ser complexo. E nenhum sujeito cabe inteiro em uma categoria. E isso precisa ser problematizado e pautado ainda mais.
Rafa Dutra | Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
A primeira edição deste livro está prestes a completar bodas de prata, Yalom traz esta provocação em 2002, e ele termina o texto dizendo que “chegará o tempo em que o formato de menu de restaurante chinês do DSM-IV parecerá ridículo para os profissionais de saúde mental“. Pois bem, com o DSM-V e o que temos visto acontecer, penso que este tempo chegou.
Hoje temos todo um movimento que faz a discussão, no Brasil e no mundo, sobre o fenômeno da patologização e medicalização da vida. Um movimento que problematiza o quanto essa ênfase no diagnóstico, com a desculpa de que “isso sim é Ciência” vem desconsiderando a complexidade que constitui o ser humano e, sobretudo, as condições sociais que produzem determinadas condições psicológicas.
Achei muito interessante e provocativa a fala dele dizendo que é muito mais fácil fazer um diagnóstico nas primeiras sessões do que depois da décima, quando toda a complexidade da pessoa que esta diante de nós vai se desdobrando e aparecendo no processo terapêutico, e concordo.
Eu, particularmente, sempre gostei de substituir a palavra diagnóstico pela palavra mapeamento. Primeiro, para fugir do vocabulário médico, segundo porque penso que vamos de fato mapeando e conhecendo a pessoa, sua história, suas questões, suas relações e seus projetos, um mapa inacabado, que nos ajuda a criar estratégias terapêuticas, mas que se sabe inacabado e em movimento.
Finalizo fazendo minhas as palavras do Yalom: evite o diagnóstico!
Esse talvez seja o seu principal desafio: construir-se enquanto trabalhadora autônoma.
Vivemos em uma sociedade que não está projetada para a autonomia. Se você parar para pensar, nas suas experiências com a família, na escola e no trabalho, quando foi que te ensinaram e incentivaram a ser autônoma? Muito pelo contrário, né?
No entanto, construir um projeto profissional na Clínica implica em se reconhecer como trabalhadora autônoma. E são muitos os entraves nesse processo. Na faculdade, o foco das aprendizagens está nos aspectos teórico-técnicos e ético-políticos da profissão, mas há toda uma dimensão comercial que, salvo raríssimas exceções, é totalmente negligenciado durante os cinco anos de formação. E você precisará aprender sobre ela.
Aprender a ter autonomia, a criar suas próprias regras, a se organizar sem que tenha uma figura de autoridade acima de você lhe direcionando para onde ir e o que fazer, agora é com você. O domínio teórico-técnico e a consciência ético-política são fundamentais para um bom trabalho, mas não são o suficiente para construir um projeto profissional na Clínica.
Você precisará aprender a fazer “a gestão de si mesma”, ser proativa, muitas vezes, autodidata, e construir uma maneira de ser e trabalhar que, provavelmente, será nova para você. E mais, sem o nome de uma grande instituição junto ao seu. Agora é você por você: seu nome e sobrenome.
Aprender como fazer a gestão financeira, como funcionam os impostos, como negociar valores, como cobrar pacientes, como publicizar seu trabalho, como construir uma rede de contatos, como organizar sua agenda, etc. Serão muitas as atividades e tarefas que você irá desempenhar para além do momento de “estar em atendimento” (essa parte que a faculdade ensinou). E além de lidar com todas essas aprendizagens, estará enfrentando as inseguranças de “será que eu sou uma boa psicóloga?”; “será que eu estou preparada para começar?”.
Como tudo, há vantagens e desvantagens em ser uma trabalhadora autônoma, a liberdade e o “não ter chefe” talvez sejam coisas boas, mas nem todas as pessoas se adaptam bem a isso; assumir plenamente as responsabilidades de todos os processos de trabalho é um grande desafio, bem como lidar com a instabilidade financeira de quem não tem mais um dia certo para receber o salário, não tem férias, não tem 13º e não tem nenhum outro benefício como no CLT.
Sim, não vamos mentir: não é fácil. Duvide de quem quiser te vender um curso milagroso com uma receita de sucesso, porque “na prática a teoria é outra”. Mas é possível, bastante possível. E pode ser muito bom.
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E-book “10 dicas para quem está começando na Clínica” Dica 2: Agora você é uma trabalhadora autônoma!
Essa é a verdade! E quem te diz o contrário vai tentar te vender uma “solução” dizendo que te ensinará a construir o consultório mais fácil, mais rápido e mais lucrativo! Cuidado com esse tipo de promessa, tem cada vez mais gente tentando “te ajudar” a construir e fazer a gestão do seu consultório, às vezes cheia de boas intenções, mas com pouca experiência e conhecimento de fato, às vezes cheias de más intenções e só atrás do seu dinheiro mesmo. São poucos os projetos e profissionais que realizam um trabalho realmente bacana e que valem o valor investido.
A Clínica se tornou quase um “fetiche” para as psis, ela ocupa tanto o imaginário da população em geral quanto das estudantes e das profissionais sobre o trabalho em Psicologia. E não é apenas um imaginário, o Censo 2022 do Conselho Federal de Psicologia nos mostrou que 7 a cada 10 psis atuam na Clínica, seja como atividade exclusiva ou junto com outras atividades profissionais.
E embora ela esteja no imaginário social, seja a área mais tradicional e hegemônica na Psicologia, ainda assim, “viver de Clínica” é muito mais difícil e menos romantizado do que dizem por aí!
Do ponto de vista do trabalho em si, a Clínica de consultório é um trabalho denso e exaustivo, por mais que tenha significado e sentido. Lidamos diariamente com pessoas em sofrimento e suas demandas, o que exige um tanto de nós.
Além disso, a Clínica é um trabalho solitário, somos apenas nós e cada uma das nossas pacientes com suas histórias e suas questões. Por mais que se utilize estratégias para estar entre os pares, a maior parte do trabalho estaremos sozinhas lidando com as nossas questões e as nossas responsabilidades (que são muitas!).
Pensando no cotidiano, passamos muitas horas fechadas numa sala, seja atendendo online ou presencial, nossos horários de trabalho não são os melhores, uma vez que normalmente trabalhamos quando as pessoas estão fora do trabalho delas, o que faz com que nossa agenda funcione fora do horário comercial e nossa noite fique bastante comprometida.
Outra questão que faz muitas psis desistirem é a dificuldade de começar, você pode fazer toda a lição de casa: encontrar um local para atender, fazer site, cartão, perfil na rede social, se cadastrar em plataformas e cumprir com todos os pontos do “check list” que foi popularizado, mas nada é garantia que as pacientes virão. E se elas chegarem, nada é garantia que elas ficarão. E mais, ainda que dê tudo certo e elas cheguem e fiquem, elas vão chegando aos poucos e leva meses (às vezes até anos) para a agenda ficar cheia e o consultório funcionar legal.
A ideia de viver de Clínica vai ficando mais complicada, né? E não para por aí, um dos pontos mais difíceis é aprender a ser uma trabalhadora autônoma. Parece uma delícia não ter chefe e não ter que “bater ponto” e cumprir um horário fixo, mas também não temos salário, convênio, VT, VR, PLR, FGTS, 13º, férias e nenhum direito trabalhista, além de não ter toda a estrutura que uma empresa oferece para que as trabalhadoras exerçam suas atividades profissionais. Isso nos impõe o desafio de aprender uma série de coisas que não tem nada a ver com a Psicologia, mas são indispensáveis para fazer uma gestão profissional e construir um consultório saudável e sustentável.
Dentre esses desafios da gestão, o aspecto financeiro é uma dificuldade a parte. Via de regra as psis não gostam muito de números e planilhas; e a educação financeira não é algo ao qual somos apresentados ao longo de nossa formação. De modo geral, desconhecemos conceitos básicos de gestão financeira e enfrentamos muitos desafios para conseguir um bom faturamento no consultório que possa nos pagar um bom pró-labore (salário) para que possamos pagar nossos boletos e ter uma vida digna. É bastante difícil “ganhar bem” no consultório!
Por fim, mas não menos importante, tendo um pouco de noção, senso crítico e um posicionamento ético, compreendemos o tamanho da responsabilidade que é ser a psicóloga de outra pessoa, e a insegurança de começar a atender é muito grande.
É comum ouvir que as psis acham que em 5 anos de faculdade ainda sabem muito pouco, que não se sentem preparadas para enfrentar os desafios que a Clínica apresentará e o famoso medo do desconhecido e de viver uma experiência onde o controle fica em suspensão e embarcamos numa sessão sem fazer ideia do que virá e de como vamos lidar com o que nos for apresentado.
De fato, viver de Clínica, a despeito do que escutamos por aí, é bem difícil. E não escrevo esta coluna fazendo essas provocações para te desanimar ou te fazer desistir deste caminho, minha proposta é apenas desromantizar a clínica, quebrar algumas fantasias e, principalmente, a ingenuidade e o desconhecimento com a qual vejo muitas profissionais se aproximarem deste campo de atuação.
No entanto, embora seja difícil, é possível. E é importante lembrar disso! Claro que existem caminhos e estratégias que tornam esse caminho menos difícil e mais promissor, mas não são atalhos, não será simples e nem fácil. Dará (muito) trabalho, exigirá paciência, muitas vezes é um privilégio poder investir na Clínica até ela atingir o ponto de poder te sustentar economicamente.
Mas é possível, muita gente vem construindo este caminho (eu também construí). E, se este é o teu desejo e é uma possibilidade para você, por que não? Se é este o caminho profissional que te faz sentido, fica aqui meu desejo de boa sorte, porque a sorte também ajuda. E siga acompanhando esta coluna porque vou trazer reflexões e orientações sobre este “fazer consultório” da vida real! Bora?!