Psicóloga, você não é empreendedora!

PSICÓLOGA, VOCÊ NÃO É EMPREENDEDORA! “

Tenho ciência de que este título produz simpatia e repulsa. Uma parte das leitoras vai querer ler porque concorda, a outra parte não vai querer ler porque discorda, mas convido ambas a seguir pelos próximos parágrafos, provavelmente não é sobre o que nenhuma das duas espera. 

Eu lembro quando ouvi a palavra empreendedorismo pela primeira vez na vida, eu tinha 17 anos e foi numa palestra que um professor da Faculdade de Engenharia da Mauá (IMT) foi dar na minha escola. Confesso que ali não entendi direito, mas lembro dele falar que era o conceito do trabalho do futuro! 

Exatos 24 anos depois, eu entendo mais deste assunto, e até a contra-gosto, passei a ser reconhecido  como um “psicólogo empreendedor” por algumas pessoas. Há algumas semanas recebi estudantes de uma faculdade da região que tinham que fazer uma entrevista para a disciplina de “Psicologia e Empreendedorismo” e também já recebi alguns convites para fazer falas sobre este assunto. 

E de fato sou, tenho dois projetos que me colocam neste papel social, embora eu não goste de usar este “título”. Tanto a Sala ABC, um coworking psi, quanto o IP.abc – Instituto de Psicologia do Grande ABC, um instituto de formação, me gabaritam para este rótulo. 

Mas minha formação crítica em Psicologia me impede de cair no canto da sereia neoliberal e na glamourização que este termo trouxe para o mundo do trabalho, em específico o mundo do trabalho psi. 

É preciso ter consciência de classe e compreender criticamente as estruturas que constróem o mundo do trabalho. Dizer-se empreendedora virou moda e parece coisa de gente boa, ryca e bacanuda, tanto para colocar no instagram, no linkedin ou no tinder. 

Lembro, com um certo sorriso debochado no rosto, da revolta de algumas psicólogas num grupo de whatsapp quando um site que era famoso por ser usado para pesquisar por trabalhadores de serviços de manutenção (pintor, eletrecista, encanador, etc) abriu a possibilidade de pesquisar por psicólogas. 

Voilà! Elas se descobriram classe trabalhadora! 

O discurso neoliberal do empreendedorismo foi entrando na Psicologia aos poucos e ganhou muito espaço nos últimos anos. Sem dúvida o status de empreendedora é mais chique do que o de “profissional liberal”, como era dito antigamente, ou de “trabalhadora autônoma”, como eu gosto de dizer. 

Psicólogas podem sim ser empreendedoras, mas as psicólogas clínicas que vendem seu serviço de psicoterapia no consultório não são. E explico: 

Uma psicóloga pode empreender, criar projetos, empresas, montar equipes, e atuar deste lugar que o empreendedorismo propõe a quem tem uma ideia, tem coragem de tirar do papel e colocar a “skin in the game“, como eles – os empreendedores – gostam de dizer. Conheço algumas psis que são empreendedoras! E sei o quanto é difícil e admiro quem se lança neste desafio, embora não admire todos os projetos que são criados por aí. 

Já a psicóloga clínica é outra coisa. Ter um CNPJ não faz de ninguém empreendedora e nem CEO de consultório de uma psicóloga só. Estudar marketing, finanças, processos comerciais e administrativos, vendas, inovações, etc, não coloca ninguém no status de empreendedora, apenas a coloca no caminho de fazer uma gestão mais profissional e consciente do seu trabalho na clínica. 

Vender o serviço de psicoterapia e você mesma executar o serviço não faz de você empreendedora, mas sim uma trabalhadora autônoma. Defender este conceito é defender uma consciência de classe trabalhadora, bem como compreender todas as habilidades e competências necessárias para fazer um bom trabalho no consultório. 

Para as psis que querem realmente se aventurar com seus projetos no mundo do empreendedorismo, desejo boa sorte. Para as trabalhadoras autônomas do campo da Psicologia Clínica também, pois como disse no texto anterior, viver de Clinica é (bem) difícil.

Reconhecer-se trabalhadora autônoma é uma questão de posicionamento ético-político, consciência de classe, de identidade e de “lugar no mundo”, ainda que esta psi autônoma fature e ganhe mais que a psi empreendedora. 

Ter consciência de classe nos ajuda a reconhecer as estruturas do trabalho, a precarização e a exploração da força de trabalho psi. Entender sobre as condições do trabalho, sobretudo do próprio, nos ajuda a nos localizar na sociedade, e saber-se onde está é fundamental para não se alienar – inclusive – de si mesma. 

Em tempos de sujeito empreendedor-de-si-mesmo nesta cultura neoliberal que constitui nossa subjetividade e impõe desejos e caminhos profissionais, reconhecer-se trabalhadora autônoma na Clinica é, além de uma consciência crítica, um ato de resistência. 

Forte abraço 
Rafa Dutra

Viver de Clínica é (bem) difícil!

VIVER DE CLÍNICA É (BEM) DIFÍCIL!

Essa é a verdade!
E quem te diz o contrário vai tentar te vender uma “solução” dizendo que te ensinará a construir o consultório mais fácil, mais rápido e mais lucrativo! Cuidado com esse tipo de promessa, tem cada vez mais gente tentando “te ajudar” a construir e fazer a gestão do seu consultório, às vezes cheia de boas intenções, mas com pouca experiência e conhecimento de fato, às vezes cheias de más intenções e só atrás do seu dinheiro mesmo. São poucos os projetos e profissionais que realizam um trabalho realmente bacana e que valem o valor investido.

A Clínica se tornou quase um “fetiche” para as psis, ela ocupa tanto o imaginário da população em geral quanto das estudantes e das profissionais sobre o trabalho em Psicologia. E não é apenas um imaginário, o Censo 2022 do Conselho Federal de Psicologia nos mostrou que 7 a cada 10 psis atuam na Clínica, seja como atividade exclusiva ou junto com outras atividades profissionais. 

E embora ela esteja no imaginário social, seja a área mais tradicional e hegemônica na Psicologia, ainda assim, “viver de Clínica” é muito mais difícil e menos romantizado do que dizem por aí!

Do ponto de vista do trabalho em si, a Clínica de consultório é um trabalho denso e exaustivo, por mais que tenha significado e sentido. Lidamos diariamente com pessoas em sofrimento e suas demandas, o que exige um tanto de nós. 

Além disso, a Clínica é um trabalho solitário, somos apenas nós e cada uma das nossas pacientes com suas histórias e suas questões. Por mais que se utilize estratégias para estar entre os pares, a maior parte do trabalho estaremos sozinhas lidando com as nossas questões e as nossas responsabilidades (que são muitas!). 

Pensando no cotidiano, passamos muitas horas fechadas numa sala, seja atendendo online ou presencial, nossos horários de trabalho não são os melhores, uma vez que normalmente trabalhamos quando as pessoas estão fora do trabalho delas, o que faz com que nossa agenda funcione fora do horário comercial e nossa noite fique bastante comprometida.

Outra questão que faz muitas psis desistirem é a dificuldade de começar, você pode fazer toda a lição de casa: encontrar um local para atender, fazer site, cartão, perfil na rede social, se cadastrar em plataformas e cumprir com todos os pontos do “check list” que foi popularizado, mas nada é garantia que as pacientes virão. E se elas chegarem, nada é garantia que elas ficarão. E mais, ainda que dê tudo certo e elas cheguem e fiquem, elas vão chegando aos poucos e leva meses (às vezes até anos) para a agenda ficar cheia e o consultório funcionar legal.  

A ideia de viver de Clínica vai ficando mais complicada, né?
E não para por aí, um dos pontos mais difíceis é aprender a ser uma trabalhadora autônoma. Parece uma delícia não ter chefe e não ter que “bater ponto” e cumprir um horário fixo, mas também não temos salário, convênio, VT, VR, PLR, FGTS, 13º, férias e nenhum direito trabalhista, além de não ter toda a estrutura que uma empresa oferece para que as trabalhadoras exerçam suas atividades profissionais. Isso nos impõe o desafio de aprender uma série de coisas que não tem nada a ver com a Psicologia, mas são indispensáveis para fazer uma gestão profissional e construir um consultório saudável e sustentável. 

Dentre esses desafios da gestão, o aspecto financeiro é uma dificuldade a parte. Via de regra as psis não gostam muito de números e planilhas; e a educação financeira não é algo ao qual somos apresentados ao longo de nossa formação. De modo geral, desconhecemos conceitos básicos de gestão financeira e enfrentamos muitos desafios para conseguir um bom faturamento no consultório que possa nos pagar um bom pró-labore (salário) para que possamos pagar nossos boletos e ter uma vida digna. É bastante difícil “ganhar bem” no consultório!    

Por fim, mas não menos importante, tendo um pouco de noção, senso crítico e um posicionamento ético, compreendemos o tamanho da responsabilidade que é ser a psicóloga de outra pessoa, e a insegurança de começar a atender é muito grande. 

É comum ouvir que as psis acham que em 5 anos de faculdade ainda sabem muito pouco, que não se sentem preparadas para enfrentar os desafios que a Clínica apresentará e o famoso medo do desconhecido e de viver uma experiência onde o controle fica em suspensão e embarcamos numa sessão sem fazer ideia do que virá e de como vamos lidar com o que nos for apresentado. 

De fato, viver de Clínica, a despeito do que escutamos por aí, é bem difícil. E não escrevo esta coluna fazendo essas provocações para te desanimar ou te fazer desistir deste caminho, minha proposta é apenas desromantizar a clínica, quebrar algumas fantasias e, principalmente, a ingenuidade e o desconhecimento com a qual vejo muitas profissionais se aproximarem deste campo de atuação. 

No entanto, embora seja difícil, é possível. E é importante lembrar disso!
Claro que existem caminhos e estratégias que tornam esse caminho menos difícil e mais promissor, mas não são atalhos, não será simples e nem fácil. Dará (muito) trabalho, exigirá paciência, muitas vezes é um privilégio poder investir na Clínica até ela atingir o ponto de poder te sustentar economicamente.

Mas é possível, muita gente vem construindo este caminho (eu também construí). E, se este é o teu desejo e é uma possibilidade para você, por que não? Se é este o caminho profissional que te faz sentido, fica aqui meu desejo de boa sorte, porque a sorte também ajuda.  E siga acompanhando esta coluna porque vou trazer reflexões e orientações sobre este “fazer consultório” da vida real! Bora?!

Forte abraço!
Rafa Dutra

É importante começar pelo começo!

“É IMPORTANTE COMEÇAR PELO COMEÇO!”

É óbvio! Mas o óbvio precisa ser dito!
No meu caso, estreando minha coluna mensal aqui no blog, o começo é me apresentar:

Prazer, sou o Rafa Dutra!
Me formei em Psicologia na Metodista (São Bernardo do Campo/SP) em 2007, e em 2026 estou vivenciando meu 19º ano de consultório. No começo eu não queria a Clínica, montei o “Espaço da Psicologia” com mais três amigos recém-formados e meu foco era atender atletas. Quando me formei todo o meu projeto profissional estava voltando para a Psicologia do Esporte.

Tive uma jornada breve, mas intensa e muito bonita no Esporte, depois fiz uma transição para a Educação e nela estou até hoje, seja na área escolar (atualmente com a Orientação Profissional) ou na formação em Psicologia (sou professor universitário e cofundador do IP.abc – Instituto de Psicologia do Grande ABC), mas e a Clínica?

Meu primeiro paciente foi uma indicação do meu psicólogo na época, aceitei com o desafio de tentar construir uma clínica diferente a partir das críticas que tinha à Clínica tradicional. Começando pela “abordagem”, eu não era da Psicanálise, da Comportamental, da Fenomenologia e nem da TCC (que estava começando a ficar mais conhecida), eu me identificava com a Sócio-Histórica. Em 2008 quase não se tinha discussões e produções sobre a PSH na Clínica.

E assim foi, foquei em atender adolescentes e adultos, ali com meus 22 anos de idade, morrendo de medo de não dar certo ou de fazer coisa errada, mas foi, confiei na confiança que meu psicólogo teve em mim ao me indicar um paciente, e ali comecei uma jornada que já dura 19 anos com, literalmente, centenas de pacientes.

Durante quase 10 anos, fui consolidando meu consultório focado apenas em melhorar meus atendimentos, minha escuta, meu repertório, a qualidade de manejo e a Clínica “foi acontecendo”, sempre compartilhando minha agenda com outros trabalhos e projetos, nunca fui um psicólogo que viveu exclusivamente da Clínica, mas há muitos anos ela é minha principal fonte de renda para pagar os meus boletos.

E de 2018 para cá, quando comecei com as atividades formativas na Sala ABC, comecei a estudar outros aspectos do consultório, e em 8 anos minha maneira de “fazer consultório” mudou completamente. Esta minha coluna aqui será sobre este “fazer consultório” e as tantas coisas que aprendi sobre os desafios de construir um projeto profissional na Clínica em quase duas décadas vivendo disso!

Construir um projeto profissional na Clínica envolve uma série de questões e o consultório tem muitos atravessamentos e desafios. É difícil, muito difícil. Nos dias de hoje tem propaganda para tudo quanto é lado te falando que basta comprar o curso X que terá “agenda cheia em 3 meses“, “ganhará 10k em 6 meses“, “terá pacientes high-ticket“, e blá blá blá. Desconfie, eles sempre vendem a fórmula mágica e sabemos que a vida real é um tanto diferente.

A Clínica é difícil, mas é possível. Ser trabalhadora autônoma envolve uma série de conhecimentos, processos e organização que não aprendemos na faculdade de Psicologia (e em nenhuma outra) e pouco a pouco vamos falar sobre isso tudo aqui!

O fato é que é preciso começar pelo começo, seja como uma psi recém-formada que está começando a ter os primeiros pacientes e se entender nesse lugar, seja como uma psi já consolidada que quer reestruturar seu consultório.

Nesta coluna quero transitar pelo que venho chamando de aspectos objetivos e subjetivos da construção da sua jornada profissional na Clínica de consultório. Será um prazer compartilhar e fazer essas trocas com você!

Enfim, é isso!
Prazer, eu sou o Rafa, e bora viver mais essa jornada aqui na Sala ABC!

Forte Abraço!
Rafa Dutra