Desafios da Terapia | Terapeuta e paciente como “companheiros de viagem”

DESAFIOS DA TERAPIA | TERAPEUTA E PACIENTE COMO “COMPANHEIROS DE VIAGEM”

Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!


O romancista francês André Malraux escreveu sobre um padre com quem se confessou por muitas décadas e resumiu desta maneira o que aprendeu com ele a respeito da natureza humana: Em primeiro lugar, as pessoas são muito mais infelizes do que se pensa (…) e “pessoa adulta’ é coisa que não existe”. Todos – e isso inclui terapeutas e pacientes – estão destinados a experimentar não apenas a euforia da vida, mas também sua escuridão inevitável: desilusão, envelhecimento, doença, isolamento, perdas, falta de sentido, escolhas dolorosas e morte.

Ninguém definiu essas coisas de forma mais direta e sombria do que o filósofo alemão Arthur Schopenhauer:

No início da juventude, ao contemplarmos nossa vida futura, somos como crianças em um teatro antes que a cortina seja levantada, sentadas ali de bom grado e esperando ansiosamente pelo início da peça. É uma bênção não sabermos o que de fato vai acontecer. Se pudéssemos prever, há momentos em que as crianças podem parecer prisioneiras condenadas – condenadas não à morte, mas à vida, e ainda totalmente inconscientes do significado de sua sentença.

Ou ainda:

Somos como cordeiros no campo, divertindo-nos sob o olhar do açougueiro, que escolhe primeiro um e depois outro para sua faca. Assim é que, em nossos dias bons, todos nós estamos inconscientes do mal que o Destino pode ter reservado para nós – doença, pobreza, mutilação, perda da visão ou da razão.

Embora a visão de Schopenhauer seja fortemente influenciada pela própria infelicidade pessoal, ainda assim é difícil negar o desespero inerente à vida de cada indivíduo autoconsciente. Minha esposa e eu às vezes nos divertimos planejando jantares imaginários para grupos de pessoas que compartilham propensões semelhantes – por exemplo, uma festa para monopolistas, ou fogosos narcisistas, ou passivo-agressivos engenhosos que conhecemos ou, inversamente, uma festa “feliz” para a qual convidamos apenas as pessoas de fato felizes que encontramos. Embora não tenhamos encontrado problemas para preencher todos os tipos de outras mesas caprichosas, nunca fomos capazes de preencher uma mesa completa para nossa festa de “pessoas felizes”. Cada vez que identificamos alguns indivíduos alegres e os colocamos em uma lista de espera enquanto continuamos nossa busca para completar a mesa, descobrimos que um ou outro de nossos convidados felizes acaba sendo atingido por alguma adversidade importante na vida – muitas vezes uma doença grave, da própria pessoa ou de um filho ou cônjuge.

Essa visão da vida – trágica, mas realista – há muito influencia meu relacionamento com aqueles que buscam minha ajuda. Embora existam diversos termos para a relação terapêutica – paciente/terapeuta, cliente/conselheiro, analisando/analista, cliente/facilitador e (o mais recente – e, de longe, o mais repulsivo) usuário/provedor -, nenhum deles transmite com precisão minha percepção da relação terapêutica. Em vez disso, prefiro pensar em meus pacientes e em mim como companheiros de viagem, um termo que anula as distinções entre “eles” (os aflitos) e “nós” (os curandeiros). Durante meu treinamento, inúmeras vezes fui exposto à ideia do terapeuta totalmente analisado, mas, à medida que progredi na vida, estabeleci relacionamentos íntimos com muitos de meus colegas terapeutas, conheci as figuras mais importantes da área, fui chamado para prestar auxílio aos meus antigos terapeutas e professores e tornei-me um professor e um ancião, percebendo a natureza mítica desta ideia. Estamos todos juntos nisso e não há terapeuta nem pessoa imune às tragédias inerentes à existência.

Uma das minhas histórias favoritas de cura, encontrada em O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, envolve José e Dion, dois curandeiros renomados que viveram nos tempos bíblicos. Embora ambos fossem altamente eficazes, eles funcionavam de maneiras diferentes, O curandeiro mais jovem, José, curava por meio de uma escuta silenciosa e inspirada. Os peregrinos confiavam em José. O sofrimento e a ansiedade derramados em seus ouvidos desapareciam como água na areia do deserto, e os penitentes deixavam sua presença esvaziados e acalmados. Dion, o curandeiro mais velho, por sua vez, confrontava ativamente aqueles que buscavam sua ajuda. Ele adivinhava seus pecados não confessados. Era um grande juiz, castigador, repreensivo e retificador, e curava por meio de intervenção ativa. Tratando os penitentes como crianças, dava conselhos, punia com penitências, ordenava peregrinações e casamentos e obrigava inimigos a se reconciliarem.

Os dois curandeiros nunca se encontraram e trabalharam como rivais por muitos anos, até que José adoeceu espiritualmente, caiu em profundo desespero e foi assaltado por ideias de autodestruição. Incapaz de se curar com os próprios métodos terapêuticos, ele partiu em uma jornada para o sul em busca da ajuda de Dion.

Em sua peregrinação, José descansou uma noite em um oásis, onde começou a conversar com um viajante mais velho. Quando José descreveu o propósito e o destino de sua peregrinação, o viajante se ofereceu como guia para ajudar na busca por Dion. Mais tarde, no meio de sua longa jornada juntos, o velho viajante revelou sua identidade a José.

Mirabile dictu: ele mesmo era Dion – o homem que José procurava.

Sem hesitar, Dion convidou seu rival mais jovem e desesperado para sua casa, onde viveram e trabalharam juntos por muitos anos. Dion primeiro pediu a José que fosse um servo. Mais tarde, ele o elevou a aluno e, por fim, a colega de trabalho. Anos depois, Dion adoeceu e em seu leito de morte chamou seu jovem colega para ouvir uma confissão. Ele narrou a terrível doença anterior de José e sua viagem ao velho Dion para pedir ajuda. Falou sobre como José sentiu que era um milagre que seu companheiro de viagem e guia fosse o próprio Dion.

Agora que ele estava morrendo, era chegada a hora, disse Dion a José, de quebrar o silêncio a respeito daquele milagre. Dion confessou que na época também lhe pareceu um milagre, pois ele também caíra em desespero. Ele também se sentia vazio e morto espiritualmente e, incapaz de se ajudar, partiu em uma jornada em busca de ajuda. Na mesma noite em que se encontraram no oásis, ele estava em peregrinação a um famoso curandeiro chamado José.

A história de Hesse sempre me comoveu de uma forma sobrenatural. Parece-me uma declaração profundamente esclarecedora sobre dar e receber ajuda, sobre honestidade e duplicidade e sobre o relacionamento entre o curador e o paciente. Os dois homens receberam ajuda poderosa, mas de maneiras muito diferentes. O curandeiro mais jovem foi nutrido, cuidado, ensinado e orientado, teve a atenção de um pai. O curandeiro mais velho, por outro lado, foi ajudado servindo ao outro, obtendo um discípulo de quem recebeu amor filial, respeito e bálsamo para seu isolamento.

Mas agora, reconsiderando a história, questiono se esses dois curandeiros feridos não poderiam ter prestado ainda mais serviços um ao outro.

Talvez tenham perdido a oportunidade de algo mais profundo, mais autêntico, mais poderosamente transformador. Talvez a verdadeira terapia tenha ocorrido na cena do leito de morte, quando eles foram sinceros com a revelação de que eram companheiros de viagem, ambos simplesmente humanos, demasiadamente humanos. Os vinte anos de segredo, por mais úteis que tenham sido, podem ter obstruído e impedido um tipo mais profundo de ajuda. O que poderia ter acontecido se a confissão de Dion no leito de morte tivesse ocorrido vinte anos antes, se curador e buscador tivessem se unido para enfrentar as questões que não têm respostas?

Tudo isso ecoa as cartas de Rilke a um jovem poeta nas quais ele aconselha: “Tenha paciência com tudo o que não está resolvido e tente amar as questões em si”. Eu acrescentaria: “Tente amar também os questionadores”.


Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia

Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Olhar para o terapeuta na poltrona da frente e enxergá-lo como um ser humano que não está imune ao sofrimento e aos acontecimentos da vida rompe com a ideia de que o terapeuta ocupa um lugar de saber absoluto ou estabilidade emocional. A ideia de Yalom sobre pensar paciente e terapeuta como “companheiros de viagem” reconhece o que há de maior potência nessa troca: a humanidade. 

A partir da reflexão do Schopenhauer também podemos pensar sobre a humanidade que todos nós compartilhamos enquanto vivos: o sofrimento, a falta de garantias, os problemas e as alegrias. 

Esses sentimentos e acontecimentos cada um de nós experienciamos de uma forma, mas de fato, todos nós experienciamos. E para mim, não há nada mais humano e sinônimo de vida do que isso. 

Somos seres completos em nossa incompletude.

E o final da história dos curandeiros neste capítulo evidencia que o cuidador também precisa ser cuidado e, principalmente, a importância de um encontro humano, transparente e verdadeiro. 

Que os papéis de terapeuta e paciente não nos limite, mas sim nos potencializem como seres humanos. 


Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor

Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.

Há uns 15 anos eu utilizo esta metáfora do “companheiros de viagem” quando, na primeira sessão com um novo paciente, eu vou explicar a minha maneira de entender o que é a terapia. E depois de todo esse tempo e de ter realizado milhares de atendimentos com centenas de pacientes, essa metáfora me faz ainda mais sentido.

Enquanto psicólogas/terapeutas não estamos acima de nenhuma das grandes questões humanas, estamos imersos, talvez até de maneira mais profunda, em todas elas. E nosso lugar nesta relação terapêutica jamais será a posição de um “guru” que já atingiu a iluminação, tão pouco de um “coach” que já atingiu o sucesso.

Esta partilha humana, verdadeira e transparente é, sem dúvida, uma das maiores potências e, ao mesmo tempo, uma das maiores dificuldades no encontro terapêutico. Levei anos para conseguir construir este tipo de relacionamento do lugar de psicólogo, e ainda hoje às vezes não consigo.

Penso que esta concepção é ainda mais importante nos dias de hoje em que o trabalho é atravessado pelas redes sociais, em que muitas das vezes as psicólogas se apresentam como aquelas que estão bem, fazendo os enfrentamentos das questões e dos desafios da vida e vencendo, cuidando da saúde, estudando, tendo vida social, construindo suas famílias, fazendo suas viagens, construindo uma imagem de sucesso e bem-estar. Esta imagem não condiz com a vida privada em que estamos todos tentando dar conta de um mundo difícil e uma vida que cheia de faltas, dúvidas, angústias e carências.

A cultura da performance e o marketing pessoal atravessou as profissionais da Psicologia (não só as que estão no início da carreira, mas principalmente elas) de um jeito muito intenso e precisamos olhar para tudo isso com atenção. É indispensável lembrar que, do início ao fim, seremos apenas companheiros de uma viagem.

Construa sua rede de encaminhamento

CONSTRUA SUA REDE DE ENCAMINHAMENTO

Essa é uma das tarefas mais difíceis, pois a faculdade ensina o que fazer quando o paciente está sentado na sua frente, mas não te ensina a colocar ele sentado lá. Construir uma rede de encaminhamentos leva tempo e dá trabalho, é preciso “construir o seu nome” associado à ideia de ser uma psicóloga. Como recém-formada, nem você mesma se sente psicóloga direito, como fazer com que outras pessoas saibam que você é psicóloga e pensem em te encaminhar pacientes?

No entanto, construir essa rede é fundamental, algumas pessoas fazem isso de forma mais orgânica e durante a própria graduação já foram construindo essa rede, outras precisarão colocar isso em prática de maneira mais estratégica nesse momento. No início é mais difícil, mas depois ela vai se “retroalimentando” até chegar em um momento que você terá sua rede “de fora” te encaminhando pacientes e sua rede “de dentro”, ou seja, os próprios pacientes, encaminhando novos pacientes.

Uma sugestão que damos para esse momento inicial é listar todas as pessoas que você acredita que fazem parte da sua rede e que podem te auxiliar nesse momento, enviar mensagens, se aproximar, pedir ajuda e não ter vergonha de dizer que está começando, que você já está atendendo.

As redes sociais podem contribuir para essa construção de rede de encaminhamentos (falarei delas na DICA 4), mas aqui quero que você foque nas pessoas que já conhece e nos lugares por onde já passou.

Quem são as pessoas que podem contribuir para que sua rede de encaminhamentos possa começar a se consolidar?

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E-book “10 dicas para quem está começando na Clínica”
Dica 3: Construa sua rede de encaminhamento

Psicóloga, você não é empreendedora!

PSICÓLOGA, VOCÊ NÃO É EMPREENDEDORA! “

Tenho ciência de que este título produz simpatia e repulsa. Uma parte das leitoras vai querer ler porque concorda, a outra parte não vai querer ler porque discorda, mas convido ambas a seguir pelos próximos parágrafos, provavelmente não é sobre o que nenhuma das duas espera. 

Eu lembro quando ouvi a palavra empreendedorismo pela primeira vez na vida, eu tinha 17 anos e foi numa palestra que um professor da Faculdade de Engenharia da Mauá (IMT) foi dar na minha escola. Confesso que ali não entendi direito, mas lembro dele falar que era o conceito do trabalho do futuro! 

Exatos 24 anos depois, eu entendo mais deste assunto, e até a contra-gosto, passei a ser reconhecido  como um “psicólogo empreendedor” por algumas pessoas. Há algumas semanas recebi estudantes de uma faculdade da região que tinham que fazer uma entrevista para a disciplina de “Psicologia e Empreendedorismo” e também já recebi alguns convites para fazer falas sobre este assunto. 

E de fato sou, tenho dois projetos que me colocam neste papel social, embora eu não goste de usar este “título”. Tanto a Sala ABC, um coworking psi, quanto o IP.abc – Instituto de Psicologia do Grande ABC, um instituto de formação, me gabaritam para este rótulo. 

Mas minha formação crítica em Psicologia me impede de cair no canto da sereia neoliberal e na glamourização que este termo trouxe para o mundo do trabalho, em específico o mundo do trabalho psi. 

É preciso ter consciência de classe e compreender criticamente as estruturas que constróem o mundo do trabalho. Dizer-se empreendedora virou moda e parece coisa de gente boa, ryca e bacanuda, tanto para colocar no instagram, no linkedin ou no tinder. 

Lembro, com um certo sorriso debochado no rosto, da revolta de algumas psicólogas num grupo de whatsapp quando um site que era famoso por ser usado para pesquisar por trabalhadores de serviços de manutenção (pintor, eletrecista, encanador, etc) abriu a possibilidade de pesquisar por psicólogas. 

Voilà! Elas se descobriram classe trabalhadora! 

O discurso neoliberal do empreendedorismo foi entrando na Psicologia aos poucos e ganhou muito espaço nos últimos anos. Sem dúvida o status de empreendedora é mais chique do que o de “profissional liberal”, como era dito antigamente, ou de “trabalhadora autônoma”, como eu gosto de dizer. 

Psicólogas podem sim ser empreendedoras, mas as psicólogas clínicas que vendem seu serviço de psicoterapia no consultório não são. E explico: 

Uma psicóloga pode empreender, criar projetos, empresas, montar equipes, e atuar deste lugar que o empreendedorismo propõe a quem tem uma ideia, tem coragem de tirar do papel e colocar a “skin in the game“, como eles – os empreendedores – gostam de dizer. Conheço algumas psis que são empreendedoras! E sei o quanto é difícil e admiro quem se lança neste desafio, embora não admire todos os projetos que são criados por aí. 

Já a psicóloga clínica é outra coisa. Ter um CNPJ não faz de ninguém empreendedora e nem CEO de consultório de uma psicóloga só. Estudar marketing, finanças, processos comerciais e administrativos, vendas, inovações, etc, não coloca ninguém no status de empreendedora, apenas a coloca no caminho de fazer uma gestão mais profissional e consciente do seu trabalho na clínica. 

Vender o serviço de psicoterapia e você mesma executar o serviço não faz de você empreendedora, mas sim uma trabalhadora autônoma. Defender este conceito é defender uma consciência de classe trabalhadora, bem como compreender todas as habilidades e competências necessárias para fazer um bom trabalho no consultório. 

Para as psis que querem realmente se aventurar com seus projetos no mundo do empreendedorismo, desejo boa sorte. Para as trabalhadoras autônomas do campo da Psicologia Clínica também, pois como disse no texto anterior, viver de Clinica é (bem) difícil.

Reconhecer-se trabalhadora autônoma é uma questão de posicionamento ético-político, consciência de classe, de identidade e de “lugar no mundo”, ainda que esta psi autônoma fature e ganhe mais que a psi empreendedora. 

Ter consciência de classe nos ajuda a reconhecer as estruturas do trabalho, a precarização e a exploração da força de trabalho psi. Entender sobre as condições do trabalho, sobretudo do próprio, nos ajuda a nos localizar na sociedade, e saber-se onde está é fundamental para não se alienar – inclusive – de si mesma. 

Em tempos de sujeito empreendedor-de-si-mesmo nesta cultura neoliberal que constitui nossa subjetividade e impõe desejos e caminhos profissionais, reconhecer-se trabalhadora autônoma na Clinica é, além de uma consciência crítica, um ato de resistência. 

Forte abraço 
Rafa Dutra

O desaprendizado necessário

“O DESAPRENDIZADO NECESSÁRIO”

Antes de ser psicóloga, sou também publicitária.

Uso o “também” de forma intencional para deixar claro que meu passado integra meu presente. Minha formação inicial me trouxe recursos valiosos para esta nova fase, mas para quem, assim como eu, atravessa uma transição de carreira, a pergunta fundamental é: Quais desses recursos atendem às minhas novas necessidades e quais podem ser prejudiciais ao meu novo papel profissional? Se nada é descartado, tudo deve ser utilizado?

Na minha primeira formação, o objetivo era uma comunicação clara, rápida e de impacto. Um anúncio deve ter trinta segundos; um título com mais de duas linhas perde atenção do leitor. Hoje, as redes sociais oferecem vídeos curtíssimos ensinando desde receitas de bolo a fórmulas de comportamento. Tudo parece poder ser aprendido rápido e de uma vez. A experiência corre diante dos olhos na tela, mas o que realmente fica dela? A comunicação publicitária sempre caminhou (ou correu?) nessa velocidade acelerada, tentando manter tudo “em dia”: a academia, a carreira, a terapia.

Hoje, na clínica, me encontro com o temido silêncio do paciente. Mesmo sem décadas de formação, já percebo que esse silêncio não é ausência, mas uma mensagem em estado bruto, um espaço onde o paciente ensaia o que ainda não tem palavras para dizer. Se como publicitária meu trabalho era pautado na ânsia de resolver e antecipar estratégias focadas em resultados, na clínica devo esperar respeitosamente que o paciente o faça. No tempo dele. Com seus próprios recursos. Se antes o foco era entender o comportamento de muitos, agora o desafio é ater-me ao universo de um só.

Tenho aprendido que o sintoma é, na verdade, um ruído que insiste em comunicar algo. Me papel mudou: de quem evita o ruído para quem o escuta com interesse ético. Essa ética e acolhimento nascem justamente quando escolho desistir de “comunicar algo” para permitir que o outro se comunique através de mim. Descobri que o acolhimento é o canal mais limpo por onde a fala pode transitar sem julgamentos.

Precisei desaprender a pressa da resposta para permitir a demora da pergunta. A precisão que eu buscava para atingir determinado público, hoje dedico à singularidade de quem se senta à minha frente. A comunicação me deu a técnica de alcance, mas a psicologia me deu a profundidade do encontro. Se antes eu buscava a imagem e a persuasão, hoje trabalho com o que está por trás das camadas dos papéis sociais. Minha experiência com a linguagem agora serve a um propósito maior: ajudar o outro a ouvir suas próprias dores, a traduzir-se para o mundo, no seu próprio tempo.

​Para as que estão também nessa tarefa da transição de carreira, deixo a reflexão: Será que estamos usando a nossa bagagem a favor dessa nova profissão sem influenciar na trajetória de nossos pacientes? Ou estamos de fato permitindo a calma de testemunhar o que nasce no tempo dele?

Thalita Reis

Desafios da Terapia | Evite o diagnóstico

DESAFIOS DA TERAPIA | EVITE O DIAGNÓSTICO

Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!

Os estudantes de psicoterapia de hoje em dia estão expostos a uma ênfase excessiva no diagnóstico. Os administradores de planos de saúde exigem que os terapeutas cheguem rapidamente a um diagnóstico preciso e, em seguida, prossigam com um curso de terapia breve e focada que corresponda a esse diagnóstico específico. Parece bom. Parece lógico e eficiente. Mas tem muito pouco a ver com a realidade. Em vez disso, representa uma tentativa ilusória de impor a precisão científica quando ela não é possível nem desejável.

Embora o diagnóstico seja inquestionavelmente crítico nas considerações de tratamento para muitas condições graves com um substrato biológico (por exemplo, esquizofrenia, transtornos bipolares, transtornos afetivos graves, epilepsia do lobo temporal, toxicidade de drogas, doença orgânica ou cerebral causada por toxinas, causas degenerativas ou agentes infecciosos), o diagnóstico é muitas vezes contraproducente na psicoterapia cotidiana de pacientes menos gravemente prejudicados.

Por quê? Primeiro, a psicoterapia consiste em um processo de desenvolvimento gradual em que o terapeuta tenta conhecer o paciente do modo mais pleno possível. Um diagnóstico limita a visão; ele diminui a capacidade de se relacionar com o outro enquanto pessoa. Uma vez que fazemos um diagnóstico, tendemos a desatentar seletivamente para aspectos do paciente que não se encaixam naquele diagnóstico específico e, por consequência, a superestimar características sutis que parecem confirmar um diagnóstico inicial. Além disso, um diagnóstico pode atuar como uma profecia autorrealizável.

Relacionar-se com um paciente como “borderline” ou “histérico” pode servir para estimular e perpetuar essas mesmas características. De fato, há uma longa história de influência iatrogênica na forma de entidades clínicas, incluindo a atual controvérsia sobre transtorno de personalidade múltipla e memórias reprimidas de abuso sexual. E tenha em mente, também, a baixa confiabilidade da categoria de transtorno de personalidade do DSM (com frequência, os próprios pacientes se envolvem em psicoterapia de longo prazo).

E que terapeuta não se impressionou com o quanto é mais fácil fazer um diagnóstico baseado no DSM-IV depois da primeira entrevista do que muito mais tarde – digamos, da décima sessão em diante -, quando sabemos muito mais sobre o indivíduo? Não é um tipo estranho de ciência? Um colega meu traz essa questão para seus residentes psiquiátricos perguntando: “Se você está fazendo psicoterapia pessoal ou está considerando fazer, que diagnóstico do DSM-IV você acha que seu terapeuta poderia usar para descrever alguém tão complicado quanto você?”.

Na empreitada terapêutica, devemos traçar uma linha tênue entre alguma, mas não muita, objetividade; se levarmos o DSM muito a sério, se acreditarmos que estamos mesmo manipulando as articulações da natureza, então podemos ameaçar o humano, o espontâneo, a natureza criativa e incerta do empreendimento terapêutico. Lembre-se de que os clínicos envolvidos na formulação de sistemas diagnósticos anteriores, agora descartados, eram competentes, orgulhosos e tão confiantes quanto os atuais membros dos comitês do DSM. Sem dúvida, chegará o tempo em que o formato de menu de restaurante chinês do DSM-IV parecerá ridículo para os profissionais de saúde mental.

Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia

Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Esse segundo capítulo aborda um assunto que, atualmente, acompanhando as redes sociais, é um dos tópicos mais comentados: a patologização excessiva e a busca por diagnóstico a todo custo. A sensação que eu tenho é que tudo precisa virar diagnóstico e há uma necessidade de se encaixar em alguma “categoria”.

Na faculdade debatemos bastante sobre como o diagnóstico pode limitar o paciente e o profissional. Ao ponto de deixar de vê-lo como um indivíduo e passar a vê-lo como o diagnóstico. Desconsiderando a complexidade e limitando um sujeito inteiro em uma categoria. E que bom que Yalom já vem problematizando isso!

Para mim, faz sentido e eu acredito que o diagnóstico não pode substituir o encontro, a escuta, a profundidade e a complexidade que é ser humano. É necessário considerar e entender todas as nuances, condições de desenvolvimento, aspectos sociais, políticos e históricos.

Ser humano é ser complexo. E nenhum sujeito cabe inteiro em uma categoria. E isso precisa ser problematizado e pautado ainda mais.


Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor

Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.

A primeira edição deste livro está prestes a completar bodas de prata, Yalom traz esta provocação em 2002, e ele termina o texto dizendo que “chegará o tempo em que o formato de menu de restaurante chinês do DSM-IV parecerá ridículo para os profissionais de saúde mental“. Pois bem, com o DSM-V e o que temos visto acontecer, penso que este tempo chegou.

Hoje temos todo um movimento que faz a discussão, no Brasil e no mundo, sobre o fenômeno da patologização e medicalização da vida. Um movimento que problematiza o quanto essa ênfase no diagnóstico, com a desculpa de que “isso sim é Ciência” vem desconsiderando a complexidade que constitui o ser humano e, sobretudo, as condições sociais que produzem determinadas condições psicológicas.

Achei muito interessante e provocativa a fala dele dizendo que é muito mais fácil fazer um diagnóstico nas primeiras sessões do que depois da décima, quando toda a complexidade da pessoa que esta diante de nós vai se desdobrando e aparecendo no processo terapêutico, e concordo.

Eu, particularmente, sempre gostei de substituir a palavra diagnóstico pela palavra mapeamento. Primeiro, para fugir do vocabulário médico, segundo porque penso que vamos de fato mapeando e conhecendo a pessoa, sua história, suas questões, suas relações e seus projetos, um mapa inacabado, que nos ajuda a criar estratégias terapêuticas, mas que se sabe inacabado e em movimento.

Finalizo fazendo minhas as palavras do Yalom: evite o diagnóstico!