
OS DESAFIOS DO ATENDIMENTO ONLINE
A pandemia mudou tudo! Podemos falar sobre o lugar do atendimento online na Psicologia como “antes e depois” de 2020. Não que ele não existia, mas era marginal, poucas eram as psicólogas que faziam, muitas eram as críticas e se sabia ser algo que provavelmente cresceria no futuro, mas o futuro parecia um pouco mais distante.
Em março de 2020 com o lockdown, de repente, praticamente todas as psicólogas migraram todos os seus pacientes para o atendimento online e foram conhecer este universo. Fizemos nosso cadastro no e-psi (que era preciso na época, hoje não mais) e descobrimos, da noite para o dia, como era atender online. Ali começava uma nova realidade para quem trabalha com Clínica em Psicologia.
Até fevereiro de 2020, 95% dos meus pacientes eram presenciais, atualmente tenho 75% online e mais uns 10% que são “híbridos”, às vezes online, às vezes presencial. Em apenas 6 anos tudo mudou, e mudou muito rápido. Primeiro por sobrevivência, depois por tendência e “facilidade”.
Hoje as psis que acabam de se formar só falam sobre atendimento online, pois à primeira vista ele é mesmo sedutor. Poder atender de casa ou em qualquer lugar do mundo (o fetiche de ser nômade digital que atravessa esta nova geração), além do principal atrativo, baixar drasticamente o investimento e o custo fixo para manter um consultório ou ter um espaço de atendimento presencial além de quebrar a barreira territorial e ao invés de ter a possibilidade de atender apenas pessoas que poderiam chegar até você, passar a poder atender qualquer pessoa que fale sua língua e tenha acesso à internet em qualquer lugar do mundo. E sair de um raio de alguns milhares de possíveis pacientes para alguns milhões em qualquer canto do planeta é estatisticamente um ganho substancial. É bastante sedutor, né?
E isto não é uma possibilidade, é uma realidade, é assim que a Clínica em Psicologia em 2026 vem se construindo – e sim, aqui faço um recorte do trabalho numa perspectiva de atendimento individual de classe média e rica, no estilo tradicional da clínica psi mesmo. Esta quebra de barreira territorial, a diminuição do custo para realizar o serviço, a liberdade geográfica e a ideia de trabalhar de casa podem ser realmente coisas muito boas. Mas vamos também às problematizações.
Primeiro do ponto de vista técnico, logo que começou a pandemia, uma das maiores dificuldades foi das profissionais que atendiam crianças, a migração para o atendimento online de adultos foi bem tranquila, dos adolescentes um pouco mais delicada, agora das crianças foi bastante complexo. Se por um lado fomos descobrindo e criando ferramentas e estratégias digitais para realizar o atendimento, o desafio deste tipo específico de atendimento é bem grande. Assim como com avaliação psicológica, a aplicação de testes também se tornou um desafio pois muitos testes são elaborados e validados para aplicação presencial, e nem sempre a adaptação é possível.
Além disso, do ponto de vista menos óbvio, três questões se sobressaem, primeiro o “paciente-sem-corpo”. Na tela perde-se boa parte da expressão corporal do paciente, o que não inviabiliza – de maneira alguma – o atendimento, mas reduz a percepção da psicóloga. Outra questão, a concentração do paciente que às vezes está com outras telas abertas e até vendo (e respondendo) mensagens ou e-mails, principalmente de coisas do trabalho, durante a sessão, ou então os atravessamentos no atendimento, seja o filho chamando, o pet sentando na frente da tela, o interfone tocando ou outras tantas coisas que atravessam a sessão quando “entramos” na casa das pessoas (e as pessoas nas nossas casas), além da perda do tempo e do ritual de ir e voltar do atendimento, um espaço-tempo que tem sua importância no processo. Hoje é comum terminar a sessão, mudar de tela e começar, imediatamente, outra atividade. Nada disso impossibilita o atendimento, mas é inevitável que algumas coisas se percam no caminho.
No entanto, existe algo mais que ainda é pouco falado: por trás dessa grande liberdade e desse conforto de trabalhar de casa, também se estabelece uma grande dificuldade da psicóloga estabelecer rotina de trabalho, fronteiras entre o trabalho e a casa, a solidão que já era presente no trabalho na clínica, aumenta, e muitas psis acabam adoecendo silenciosamente e sem perceber por conta dessa dinâmica meio caótica e desregrada de trabalho.
Não acredito que o atendimento online seja um caminho que será revertido, acredito que nos próximos anos os atendimentos presenciais devem aumentar um pouco em relação ao como tem sido hoje em dia pelo fato das pessoas voltarem a trabalhar nas empresas e, também, nos atendimentos das pessoas de classes sociais mais ricas, afinal, nos dias de hoje tempo é um luxo que poucos podem ter (e aí a desigualdade se expressará mais uma vez).
Penso que aos poucos a Psicologia vai produzir referencial teórico, adaptar e criar técnicas e instrumentos 100% voltados para os atendimentos online, e é preciso que este processo seja acompanhado de perto, sobretudo pelo Sistema Conselhos (CFP e CRPs), responsável, entre outras coisas, pela regulamentação dos serviços em Psicologia.
O atendimento online é a modalidade de atendimento que dominou a Clínica em Psicologia nos últimos anos e, para além das questões simples de estrutura e equipamentos, é preciso que pensemos em como nos organizar para que a gente não adoeça trabalhando desta maneira.
Trabalhar como psicóloga é muito desafiador; e agora o atendimento online, embora sedutor, traz novas camadas de desafios para o cotidiano do nosso trabalho. É preciso pensar e se posicionar a respeito deles.
Forte abraço!
Rafa Dutra






