Desafios da Terapia | Ofereça apoio

DESAFIOS DA TERAPIA | OFEREÇA APOIO

Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
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Um dos grandes valores da terapia pessoal intensiva é experimentar por si mesmo o grande valor do apoio positivo. Pergunta: de que os pacientes se lembram quando, anos depois, olham para trás, para a experiência na terapia? Resposta: não são os insights, não são as interpretações do terapeuta. Na maioria das vezes, eles se lembram das declarações positivas de apoio de seu terapeuta.

Faço questão de expressar regularmente meus pensamentos e sentimentos positivos sobre meus pacientes, perpassando uma ampla gama de atributos – por exemplo, suas habilidades sociais, curiosidade intelectual, cordialidade, lealdade aos amigos, articulação, coragem para enfrentar seus demônios internos, dedicação para mudar, vontade de se revelar, gentileza amorosa com seus filhos, compromisso de quebrar o ciclo de abuso e decisão de não passar a “batata quente” para a próxima geração.

Não seja mesquinho – não faz sentido; há todos os motivos para expressar essas observações e seus sentimentos positivos. E tome cuidado com elogios vazios – torne seu apoio tão incisivo quanto seu feedback ou interpretações. Tenha em mente o grande poder do terapeuta – poder que, em parte, decorre de termos conhecimento do evento, pensamentos e fantasias mais íntimas da vida de nossos pacientes. A aceitação e o apoio de alguém que o conhece em seu íntimo são positivos ao extremo.

Se os pacientes derem um passo terapêutico importante e corajoso, elogie-os por isso. Se estive profundamente envolvido na sessão e lamento que ela tenha chegado ao fim, digo que é uma pena ter que encerrar. E (uma confissão – todo terapeuta tem um estoque de pequenas transgressões secretas!) não hesito em expressar isso de forma não verbal, ultrapassando a sessão em alguns minutos.

Com frequência, o terapeuta é o único público que assiste a grandes dramas e atos de coragem. Tal privilégio exige uma resposta ao ator. Embora os pacientes possam ter outros confidentes, é provável que nenhum tenha a compreensão abrangente que o terapeuta tem de certos atos importantes. Por exemplo, anos atrás, um paciente, Michael, um romancista, um dia me informou que acabara de fechar sua caixa postal secreta.

Durante anos, essa caixa de correio foi seu meio de comunicação em uma longa série de casos extraconjugais clandestinos. Portanto, fechar a caixa foi um ato importante, e considerei minha responsabilidade apreciar a grande coragem de seu ato e fiz questão de expressar a ele minha admiração por sua ação.

Alguns meses depois, ele ainda se sentia atormentado por imagens e desejos recorrentes por sua última amante. Ofereci apoio.

Sabe, Michael, o tipo de paixão que você teve nunca se evapora rapidamente. Claro que você vai sentir saudades. É inevitável, isso faz parte da sua humanidade.”

“Parte da minha fraqueza, você quer dizer. Eu gostaria de ser um homem de aço e poder deixá-la para sempre.

Temos um nome para esses homens de aço: robôs. E robô, graças a Deus, você não é. Falamos com frequência sobre sua sensibilidade e sua criatividade – essas são suas qualidades mais ricas -; é por isso que sua escrita é tão poderosa e é por isso que outras pessoas são atraídas por você. Mas essas mesmas características têm um lado sombrio – a ansiedade -, que torna impossível para você viver essas circunstâncias com tranquilidade.

Um belo exemplo de comentário que me trouxe muito conforto ocorreu algum tempo atrás, quando expressei a um amigo – William Blatty, autor de O exorcista – meu desapontamento com uma crítica negativa de um de meus livros. Ele respondeu de uma maneira maravilhosamente solidária, que num instante curou minha ferida: “Irv, é claro que você está chateado com a crítica. Graças a Deus! Se você não fosse tão sensível, não seria um escritor tão bom“.

Todos os terapeutas descobrirão a própria maneira de apoiar os pacientes. Tenho uma imagem indelével em minha mente: Ram Dass descrevendo sua despedida de um guru com quem estudou por muitos anos em um asbram na Índia. Quando Ram Dass lamentou não estar pronto para partir por causa de suas muitas falhas e imperfeições, seu guru levantou-se e, lenta e solenemente, andou à sua volta em minuciosa inspeção, a qual concluiu com um pronunciamento oficial: “Não vejo imperfeições“.

Nunca circulei os pacientes, inspecionando-os visualmente, e nunca sinto que o processo de crescimento termina, mas, no entanto, essa imagem muitas vezes guiou meus comentários.

O apoio pode incluir comentários sobre a aparência: alguma peça de roupa, um semblante bem descansado e bronzeado, um novo penteado. Se um paciente fica obcecado com a falta de atratividade física, acredito que a coisa humana a fazer é comentar (se de fato se sentir assim) que você o considera atraente e se perguntar sobre as origens do mito de sua falta de atratividade.

Em uma história sobre psicoterapia em Mamãe e o sentido da vida, meu protagonista, Dr. Ernest Lash, é encurralado por uma paciente excepcionalmente atrativa que o pressiona com perguntas explícitas: “Sou atraente para os homens? Para você? Se você não fosse meu terapeuta, você se atrairia sexualmente por mim?”. Essas indagações são um pesadelo – ⁠questões que os terapeutas temem acima de todas as outras. É o medo de tais perguntas que faz muitos terapeutas darem tão pouco de si. Mas acredito que o medo é injustificado. Se você achar que isso é o melhor para o paciente, por que não dizer, como fez meu personagem fictício:

“Se tudo fosse diferente, nos conhecêssemos em outro mundo, eu fosse solteiro, não fosse seu terapeuta, aí sim eu acharia você muito atraente e com certeza faria um esforço para conhecê-la melhor”. Qual é o risco? Na minha opinião, tal franqueza simplesmente aumenta a confiança do paciente em você e no processo de terapia. É claro que isso não exclui outros tipos de indagação a respeito da questão – sobre, por exemplo, a motivação ou o momento do paciente (sendo “Por que agora?” a pergunta padrão), ou uma preocupação desordenada com fisicalidade ou sedução, que podem obscurecer questões ainda mais significativas.
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Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia

Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Há uma semana tive uma conversa com uma colega recém-formada e uma psicóloga que já atua na clínica há mais tempo. Durante nossa conversa, surgiu um tema muito comum para quem está começando a atender, a insegurança e o medo de agir de forma antiética. E, de certa forma, acho positivo que esses questionamentos apareçam, porque demonstram cuidado e responsabilidade com o paciente.

O que Yalom traz nesse capítulo pode parecer contraditório com algumas coisas que aprendemos na graduação. Dependendo do contexto, do paciente e do momento do processo terapêutico, acredito que seja válido reforçar avanços e oferecer apoio positivo, como ele propõe. Mas também penso que o psicólogo precisa compreender profundamente aquele processo para avaliar se esse tipo de intervenção faz sentido. Como acontece em grande parte da clínica, tudo depende, do paciente, do vínculo, do tempo e do momento.

Pensando especificamente nesse trecho, não sei se concordo totalmente quando Yalom afirma que os pacientes se lembram mais das declarações positivas de apoio do que dos insights ou interpretações. Talvez isso varie de pessoa para pessoa. No meu caso, enquanto paciente, o que mais fica marcado são os insights que tenho ao falar em voz alta durante a sessão. E também as contribuições da minha psicóloga, seja quando ela resgata algo que trouxe anteriormente, seja quando apresenta uma nova possibilidade de compreensão sobre aquilo que venho elaborando.

Ao mesmo tempo, reconheço que esses insights provavelmente só acontecem porque existe uma relação terapêutica na qual me sinto acolhida, compreendida e segura para me expressar. Talvez seja justamente isso que Yalom esteja tentando destacar: “o impacto de ser visto e aceito por alguém que conhece nossas vulnerabilidades mais profundas“.
Também acho importante destacar que ele não está falando de elogios vazios, mas de reconhecer genuinamente movimentos importantes do paciente. Existe uma diferença entre simplesmente validar e destacar a coragem, o esforço e as mudanças que a pessoa está construindo ao longo do processo. Nesse sentido, consigo compreender o valor que ele atribui ao apoio positivo.

Para mim, a psicoterapia vai muito além da validação. Muitas vezes, entrar em contato com aspectos dolorosos da própria história, reconhecer padrões ou dar nome a experiências difíceis também gera insights que ficam marcados na memória. Inclusive, já ouvi que costumamos responder com mais facilidade à pergunta “qual foi o pior momento da sua vida?” do que “qual foi o dia mais feliz da sua vida?“. Talvez porque experiências difíceis costumam nos atravessar de formas muito profundas.

Por isso, fico pensando, será que lembramos mais dos momentos de apoio ou dos insights? Ou será que um depende do outro? Afinal, talvez alguns dos nossos maiores insights só sejam possíveis porque nos sentimos suficientemente apoiados para olhar para aquilo que antes evitávamos enxergar.

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Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor

Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.

O apoio é fundamental, no sentido de fundamento/fundação do processo terapêutico. Do lugar de psicólogas, entramos na vida do outro sob uma perspectiva de intimidade muito particular e profunda. De fato, nos tornamos testemunha de uma história e de um projeto de vida, e damos suporte e acolhimento a uma série de contradições, “fraquezas”, “imperfeições” e dificuldades que compõem a experiência humana.

Lendo este texto do Yalom, me vem uma palavra que Paulo Freire nos deixou como presente: ESPERANÇAR!

O processo terapêutico é um espaço de produzir esperanças, na jornada na vida, nas possibilidades de caminhos e nas potências do paciente. Oferecer apoio é algo fundamental para construir essa esperança, sobretudo em si mesmo.

Como Byung-Chul Han nos provoca em “Sociedade do Cansaço”, internalizamos o algoz e com isso a autocobrança, a insegurança e até mesmo a desconfiança sobre nossas próprias capacidades se estabeleceram em um novo patamar.

Oferecer apoio pode ser, muitas vezes, uma intervenção divisora de águas não apenas no processo terapêutico, mas principalmente no enfrentamento da vida. É difícil, exige sensibilidade, posicionamento ético e até mesmo uma pré-disposição para arriscar na construção da relação terapêutica.

Existem momentos em que quem “empresta” a esperança, acredita e apoia o paciente é o terapeuta, e apenas ele. E sem dúvidas, esses são momentos que marcar a jornada terapêutica. Isso não significa reduzir a experiência e a troca terapêutica apenas ao “apoio” e ao “acolhimento”, mas significa compreender que este manejo compõe e é fundamental para o processo, desde que seja autêntico!

Quanto cobro pela minha sessão?

QUANTO COBRO PELA MINHA SESSÃO?

Muitas pessoas pensam que vão começar a cobrar pouco e poderão aumentar o valor com o passar do tEmpo, conforme se tornar uma psicóloga mais experiente. Esse raciocínio tem lógica, mas na prática não é assim que as coisas funcionam. Vivemos em uma sociedade de classes marcada por profundas desigualdades, e são as classes sociais que determinam o valor da sua sessão.

Se sua rede de encaminhamentos se encontra na elite e você cobrar pouco não vão te contratar porque provavelmente vão considerar que seu serviço não é de qualidade. Se sua rede está na classe média alta, você trabalhará em uma faixa de preço dessa realidade e, se cobrar mais, ninguém terá condições de pagar. Se sua rede estiver na classe-média baixa, trabalhará em uma faixa menor de preços; e por mais experiente que se torne, não conseguirá cobrar mais do que a classe social que você tem como rede de encaminhamentos é capaz de pagar.

Nesse sentido, uma psicóloga recém-formada que vem da elite, estudou em universidade de elite e tem uma rede de encaminhamentos da elite, talvez comece cobrando o que uma psicóloga muito experiente de classe média-baixa, que estudou em universidades mais populares e tem uma rede de encaminhamento dentro da sua classe social nunca irá cobrar em uma sessão. Por isso não podemos falar em meritocracia quando estamos em um país com profunda desigualdade social!

Além de precificar o seu serviço, é preciso fazer uma básica pesquisa de mercado e saber quanto as psicólogas do seu círculo social e da sua região estão cobrando. Considere algumas coisas: quanto você gastará para atender (local, transporte) e quanto você pagará de imposto (falaremos disso na DICA 6).

Um exemplo simples: se você cobrar R$80,00 uma sessão e gastar R$25,00 para sublocar uma sala, R$12,00 de transporte e descontar os impostos, você terá aproximadamente uns R$45,00 de gastos e estará ganhando, na realidade, menos de 50% do valor que achou que estava ganhando. Será preciso pesquisar bastante, aprender sobre essa questão financeira e fazer as contas para chegar ao valor da sua sessão.

A Tabela do CRP é uma referência, mas sabemos que na prática são outras as questões como classe social, território e trajetória profissional que vão determinar o valor que você cobrará.

É difícil estipular uma referência pois a diferença pode chegar em 1500% entre uma psi e outra. Tem quem cobre R$30 e tem quem cobre R$500 por uma sessão.

DICA EXTRA: Além de tudo isso, vale lembrar que mesmo com uma agenda cheia, não serão todos os pacientes que irão pagar o valor integral que você cobra pela sua sessão.

Na prática, negociar (e diminuir) valores é algo comum no consultório particular, sobretudo para quem está começando na Clínica.

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E-book “10 dicas para quem está começando na Clínica”
Dica 4: Quanto cobro pela minha sessão?

A estática e a estética do amor perfeito

A ESTÁTICA E A ESTÉTICA DO AMOR PERFEITO

Nesse Dia dos Namorados eu vou comentar em todas as fotos de casais que eu vir: Ué…? 

Essa frase foi dita num vídeo curto do comediante Yuri Marçal em suas redes sociais na semana do dia 12. Assisti ao vídeo e dei uma boa gargalhada espontânea. Mas eu não poderia somente rir, se na clínica percebo o exercício que é, entre chistes e recalques, captar as mensagens subliminares por trás de falas carregadas de humor. A graça é a permissão para falar do que incomoda de uma maneira que não assuste, que não abra brechas para o julgamento. Longe de mim julgar o Yuri, e até agradeço o gancho para abrir a coluna desse mês. 

É interessante pensar no que os conteúdos aos quais somos expostos despertam em nós. O que o Yuri quis dizer com essa piadinha disfarçada? O que se pensa tanto ao ver casais completamente felizes, quanto ao ver alguém zombar e brincar com esse incomodo? 

Afinal, junho é o mês do amor, dos presentes, dos buquês de flores, das viagens. Das declarações com trezentos caracteres escritas na legenda de uma foto em alta resolução, onde uma mão é puxada por alguém que carrega no rosto um sorriso refletindo o pôr-do-sol. É o mês dos jantares à luz de velas, dos finais de semana num chalé com duas taças de vinho harmonizadas com o fogo de uma lareira, das duas xícaras de café fumegantes diante de um horizonte desfocado. Junho é o mês dos pares. De mostrar pares que não brigam, que não traem, que não erram, que não falham. Para permanecer assim, só na estática e na estética da foto mesmo. 

Par é um conjunto de dois. Precisa de outro presente para ser par, mesmo que a meia fure, ela ainda vai ser guardada com a outra na gaveta. O problema é quando uma delas some para sempre na máquina de lavar. Algumas pessoas têm seus pares, outras não, mas pode ser que em ambos os casos, o que haja em comum seja a indignação sobre a forma que esse amor tem se expressado nas redes. Há quem admita, há quem não. Há quem use o humor para deixar vazar essa angústia causada pela falta.

Como pode o amor, esse sentimento tão sublime e capaz de produzir imagens e textos tão tocantes, despertar tantos outros sentimentos opostos a ele? Sentimentos estes que em muitos momentos, só se permitem sair através de uma piada mesmo, sem o risco da má interpretação. Sentir amor não significa sentir somente amor. E estar ou não numa relação, não é garantia de amor. Aliás aí estão dois conceitos dignos de apaixonamento na Psicanálise: Garantia & Amor. O que se sabe sobre a garantia, é que não há garantias. Mas o que se sabe sobre o amor? 

Sem precisar entrar em teoria, pode-se pensar no amor como forma de identificação. Se um influenciador, assim como o Yuri, consegue alcançar tantas pessoas, é através do quanto as pessoas se identificam com o que ele fala. Amamos ver nossos sentimentos e pensamentos sendo traduzidos e reproduzidos. Gerar identificação é uma forma potente de comunicação. Logo, a não identificação gera a recusa, a rechaça, às vezes o ranço. Acontece no amor, na política, no futebol e em tudo onde cabe a ambiguidade. A verdade é que sempre há algo, mesmo que oposto, que precisa ser visto. Nada é ignorado, por mais que se acredite nisso. Se produz algo, mesmo que seja uma fala engraçada, há de ter sua importância, e necessite ser identificado, trabalhado, lapidado, amado ou odiado. 

Sendo assim, não se identifica como amor, o amor que não está ali representado nesses conteúdos. Se não é possível identificar a relação que se vive, com a relação que se vende, não há amor de verdade. A falta que se sente do que os outros casais demonstram ter, elimina as possibilidades de viver uma experiência de amor ao pé da letra. Encobre com fantasias as chances de estar em um relacionamento em que haja espaço para o jantar em casa, sem velas, mas com diálogos; sem presentes caros, mas com demonstrações genuínas de carinho. A fantasia pode ser a porta de entrada para o início do que se aproxima do amor, mas a realidade é que oferece a opção de escolher ficar mesmo depois de atravessadas as primeiras impressões, e principalmente ao viver momentos em que se compartilham a dois, que não são necessariamente instagramáveis. 

É ainda mais interessante pensar que o que se posta, pode esconder uma necessidade de validação que o próprio sujeito não acredita, não sustenta no cotidiano. O que sustenta é o olhar dos demais. Quanto mais os outros curtem e comentam, maior a necessidade dessa validação. Um círculo vicioso perigoso. 

Na literatura mais antiga, muitos dos romances distribuem estórias de amores impossíveis vencendo bravas lutas para no final viverem felizes para sempre, ou morrer. Oito ou oitenta. Ou se é eternamente feliz ou o amor morre. Uma grande mentira. O amor pode justamente ser o não se ver feliz o tempo todo, e sentir-se feliz em reconhecer isso.

Carla Madeira em seu livro “Tudo é Rio”, obra amada por muitos, odiada por tantos outros, traz uma história de amor carregada de realidade e muita dor. Talvez por isso incomode tanto. Impossível não odiar o que se lê naquelas páginas, mas totalmente possível de compreender e amar a história. Conhecer o outro também exige disponibilidade para compreensão. O amor pode ser quase tudo. Tudo de bonito, de feio, de gostoso, de amargo. Tudo menos fácil como vemos nas fotos. As lentes do olhar humano têm uma resolução diferente das câmeras que registram apenas os bons momentos postados no Instagram. Não temos escolha, senão olhar para o outro inteiro. E se olhar para o outro inteiro, ainda fizer querer ficar, pode ser que se chame amor. 

A realidade é um alívio. Segundo Ana Suy, esse será o nome do seu próximo livro. A escritora, que fala de amor em todas as suas publicações como “A gente mira no amor e acerta na solidão” e “Não pise no meu vazio” deixa nessa afirmação um pensamento possível para o que esperar dos relacionamentos amorosos. Uma delícia passear por seus escritos, que reforça o quanto somos seres sociais e capazes de amar e sermos amados, de se identificar até com a estranheza do outro.

É possível se aquecer no afeto de alguém sem precisar da lareira. Para focar no futuro, pode ser necessário tirar as xícaras da frente e enxergar no horizonte os planos que realmente fazem sentido para a vida a dois. É possível se reconhecer dentro de um convívio, com um parceiro, parceira e não apenas um par para sair na foto. E ainda, é importante ser quem caminha do lado, e não apenas ser arrastado para ver o pôr-do-sol. É necessário realmente querer ver o pôr-do-sol também. E por fim, rir de si mesmo e do outro, das diferenças suportáveis. No amor, também tem que caber o humor. As risadas e as piadas nem sempre serão chistes ocultando algo, mas podem ser refúgio para o enfrentamento das dificuldades que o amor pode oferecer. 

E para não deixar de fora quem não tem alguém, o amor pode ser sempre distribuído (e deve!) nas demais relações, no lazer, no trabalho e no descanso, sem nunca se esvaziar de amor-próprio.

Os desafios do atendimento online!

OS DESAFIOS DO ATENDIMENTO ONLINE

A pandemia mudou tudo! Podemos falar sobre o lugar do atendimento online na Psicologia como “antes e depois” de 2020. Não que ele não existia, mas era marginal, poucas eram as psicólogas que faziam, muitas eram as críticas e se sabia ser algo que provavelmente cresceria no futuro, mas o futuro parecia um pouco mais distante.

Em março de 2020 com o lockdown, de repente, praticamente todas as psicólogas migraram todos os seus pacientes para o atendimento online e foram conhecer este universo. Fizemos nosso cadastro no e-psi (que era preciso na época, hoje não mais) e descobrimos, da noite para o dia, como era atender online. Ali começava uma nova realidade para quem trabalha com Clínica em Psicologia. 

Até fevereiro de 2020, 95% dos meus pacientes eram presenciais, atualmente tenho 75% online e mais uns 10% que são “híbridos”, às vezes online, às vezes presencial. Em apenas 6 anos tudo mudou, e mudou muito rápido. Primeiro por sobrevivência, depois por tendência e “facilidade”. 

Hoje as psis que acabam de se formar só falam sobre atendimento online, pois à primeira vista ele é mesmo sedutor. Poder atender de casa ou em qualquer lugar do mundo (o fetiche de ser nômade digital que atravessa esta nova geração), além do principal atrativo, baixar drasticamente o investimento e o custo fixo para manter um consultório ou ter um espaço de atendimento presencial além de quebrar a barreira territorial e ao invés de ter a possibilidade de atender apenas pessoas que poderiam chegar até você, passar a poder atender qualquer pessoa que fale sua língua e tenha acesso à internet em qualquer lugar do mundo. E sair de um raio de alguns milhares de possíveis pacientes para alguns milhões em qualquer canto do planeta é estatisticamente um ganho substancial. É bastante sedutor, né?

E isto não é uma possibilidade, é uma realidade, é assim que a Clínica em Psicologia em 2026 vem se construindo – e sim, aqui faço um recorte do trabalho numa perspectiva de atendimento individual de classe média e rica, no estilo tradicional da clínica psi mesmo. Esta quebra de barreira territorial, a diminuição do custo para realizar o serviço, a liberdade geográfica e a ideia de trabalhar de casa podem ser realmente coisas muito boas. Mas vamos também às problematizações. 

Primeiro do ponto de vista técnico, logo que começou a pandemia, uma das maiores dificuldades foi das profissionais que atendiam crianças, a migração para o atendimento online de adultos foi bem tranquila, dos adolescentes um pouco mais delicada, agora das crianças foi bastante complexo. Se por um lado fomos descobrindo e criando ferramentas e estratégias digitais para realizar o atendimento, o desafio deste tipo específico de atendimento é bem grande. Assim como com avaliação psicológica, a aplicação de testes também se tornou um desafio pois muitos testes são elaborados e validados para aplicação presencial, e nem sempre a adaptação é possível. 

Além disso, do ponto de vista menos óbvio, três questões se sobressaem, primeiro o “paciente-sem-corpo”. Na tela perde-se boa parte da expressão corporal do paciente, o que não inviabiliza – de maneira alguma – o atendimento, mas reduz a percepção da psicóloga. Outra questão, a concentração do paciente que às vezes está com outras telas abertas e até vendo (e respondendo) mensagens ou e-mails, principalmente de coisas do trabalho, durante a sessão, ou então os atravessamentos no atendimento, seja o filho chamando, o pet sentando na frente da tela, o interfone tocando ou outras tantas coisas que atravessam a sessão quando “entramos” na casa das pessoas (e as pessoas nas nossas casas), além da perda do tempo e do ritual de ir e voltar do atendimento, um espaço-tempo que tem sua importância no processo. Hoje é comum terminar a sessão, mudar de tela e começar, imediatamente, outra atividade. Nada disso impossibilita o atendimento, mas é inevitável que algumas coisas se percam no caminho. 

No entanto, existe algo mais que ainda é pouco falado: por trás dessa grande liberdade e desse conforto de trabalhar de casa, também se estabelece uma grande dificuldade da psicóloga estabelecer rotina de trabalho, fronteiras entre o trabalho e a casa, a solidão que já era presente no trabalho na clínica, aumenta, e muitas psis acabam adoecendo silenciosamente e sem perceber por conta dessa dinâmica meio caótica e desregrada de trabalho. 

Não acredito que o atendimento online seja um caminho que será revertido, acredito que nos próximos anos os atendimentos presenciais devem aumentar um pouco em relação ao como tem sido hoje em dia pelo fato das pessoas voltarem a trabalhar nas empresas e, também, nos atendimentos das pessoas de classes sociais mais ricas, afinal, nos dias de hoje tempo é um luxo que poucos podem ter (e aí a desigualdade se expressará mais uma vez). 

Penso que aos poucos a Psicologia vai produzir referencial teórico, adaptar e criar técnicas e instrumentos 100% voltados para os atendimentos online, e é preciso que este processo seja acompanhado de perto, sobretudo pelo Sistema Conselhos (CFP e CRPs), responsável, entre outras coisas, pela regulamentação dos serviços em Psicologia.

O atendimento online é a modalidade de atendimento que dominou a Clínica em Psicologia nos últimos anos e, para além das questões simples de estrutura e equipamentos, é preciso que pensemos em como nos organizar para que a gente não adoeça trabalhando desta maneira. 

Trabalhar como psicóloga é muito desafiador; e agora o atendimento online, embora sedutor, traz novas camadas de desafios para o cotidiano do nosso trabalho. É preciso pensar e se posicionar a respeito deles. 

Forte abraço!
Rafa Dutra