
DESAFIOS DA TERAPIA | OFEREÇA APOIO
Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!
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Um dos grandes valores da terapia pessoal intensiva é experimentar por si mesmo o grande valor do apoio positivo. Pergunta: de que os pacientes se lembram quando, anos depois, olham para trás, para a experiência na terapia? Resposta: não são os insights, não são as interpretações do terapeuta. Na maioria das vezes, eles se lembram das declarações positivas de apoio de seu terapeuta.
Faço questão de expressar regularmente meus pensamentos e sentimentos positivos sobre meus pacientes, perpassando uma ampla gama de atributos – por exemplo, suas habilidades sociais, curiosidade intelectual, cordialidade, lealdade aos amigos, articulação, coragem para enfrentar seus demônios internos, dedicação para mudar, vontade de se revelar, gentileza amorosa com seus filhos, compromisso de quebrar o ciclo de abuso e decisão de não passar a “batata quente” para a próxima geração.
Não seja mesquinho – não faz sentido; há todos os motivos para expressar essas observações e seus sentimentos positivos. E tome cuidado com elogios vazios – torne seu apoio tão incisivo quanto seu feedback ou interpretações. Tenha em mente o grande poder do terapeuta – poder que, em parte, decorre de termos conhecimento do evento, pensamentos e fantasias mais íntimas da vida de nossos pacientes. A aceitação e o apoio de alguém que o conhece em seu íntimo são positivos ao extremo.
Se os pacientes derem um passo terapêutico importante e corajoso, elogie-os por isso. Se estive profundamente envolvido na sessão e lamento que ela tenha chegado ao fim, digo que é uma pena ter que encerrar. E (uma confissão – todo terapeuta tem um estoque de pequenas transgressões secretas!) não hesito em expressar isso de forma não verbal, ultrapassando a sessão em alguns minutos.
Com frequência, o terapeuta é o único público que assiste a grandes dramas e atos de coragem. Tal privilégio exige uma resposta ao ator. Embora os pacientes possam ter outros confidentes, é provável que nenhum tenha a compreensão abrangente que o terapeuta tem de certos atos importantes. Por exemplo, anos atrás, um paciente, Michael, um romancista, um dia me informou que acabara de fechar sua caixa postal secreta.
Durante anos, essa caixa de correio foi seu meio de comunicação em uma longa série de casos extraconjugais clandestinos. Portanto, fechar a caixa foi um ato importante, e considerei minha responsabilidade apreciar a grande coragem de seu ato e fiz questão de expressar a ele minha admiração por sua ação.
Alguns meses depois, ele ainda se sentia atormentado por imagens e desejos recorrentes por sua última amante. Ofereci apoio.
“Sabe, Michael, o tipo de paixão que você teve nunca se evapora rapidamente. Claro que você vai sentir saudades. É inevitável, isso faz parte da sua humanidade.”
“Parte da minha fraqueza, você quer dizer. Eu gostaria de ser um homem de aço e poder deixá-la para sempre.“
“Temos um nome para esses homens de aço: robôs. E robô, graças a Deus, você não é. Falamos com frequência sobre sua sensibilidade e sua criatividade – essas são suas qualidades mais ricas -; é por isso que sua escrita é tão poderosa e é por isso que outras pessoas são atraídas por você. Mas essas mesmas características têm um lado sombrio – a ansiedade -, que torna impossível para você viver essas circunstâncias com tranquilidade.“
Um belo exemplo de comentário que me trouxe muito conforto ocorreu algum tempo atrás, quando expressei a um amigo – William Blatty, autor de O exorcista – meu desapontamento com uma crítica negativa de um de meus livros. Ele respondeu de uma maneira maravilhosamente solidária, que num instante curou minha ferida: “Irv, é claro que você está chateado com a crítica. Graças a Deus! Se você não fosse tão sensível, não seria um escritor tão bom“.
Todos os terapeutas descobrirão a própria maneira de apoiar os pacientes. Tenho uma imagem indelével em minha mente: Ram Dass descrevendo sua despedida de um guru com quem estudou por muitos anos em um asbram na Índia. Quando Ram Dass lamentou não estar pronto para partir por causa de suas muitas falhas e imperfeições, seu guru levantou-se e, lenta e solenemente, andou à sua volta em minuciosa inspeção, a qual concluiu com um pronunciamento oficial: “Não vejo imperfeições“.
Nunca circulei os pacientes, inspecionando-os visualmente, e nunca sinto que o processo de crescimento termina, mas, no entanto, essa imagem muitas vezes guiou meus comentários.
O apoio pode incluir comentários sobre a aparência: alguma peça de roupa, um semblante bem descansado e bronzeado, um novo penteado. Se um paciente fica obcecado com a falta de atratividade física, acredito que a coisa humana a fazer é comentar (se de fato se sentir assim) que você o considera atraente e se perguntar sobre as origens do mito de sua falta de atratividade.
Em uma história sobre psicoterapia em Mamãe e o sentido da vida, meu protagonista, Dr. Ernest Lash, é encurralado por uma paciente excepcionalmente atrativa que o pressiona com perguntas explícitas: “Sou atraente para os homens? Para você? Se você não fosse meu terapeuta, você se atrairia sexualmente por mim?”. Essas indagações são um pesadelo – questões que os terapeutas temem acima de todas as outras. É o medo de tais perguntas que faz muitos terapeutas darem tão pouco de si. Mas acredito que o medo é injustificado. Se você achar que isso é o melhor para o paciente, por que não dizer, como fez meu personagem fictício:
“Se tudo fosse diferente, nos conhecêssemos em outro mundo, eu fosse solteiro, não fosse seu terapeuta, aí sim eu acharia você muito atraente e com certeza faria um esforço para conhecê-la melhor”. Qual é o risco? Na minha opinião, tal franqueza simplesmente aumenta a confiança do paciente em você e no processo de terapia. É claro que isso não exclui outros tipos de indagação a respeito da questão – sobre, por exemplo, a motivação ou o momento do paciente (sendo “Por que agora?” a pergunta padrão), ou uma preocupação desordenada com fisicalidade ou sedução, que podem obscurecer questões ainda mais significativas.
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Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia
Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Há uma semana tive uma conversa com uma colega recém-formada e uma psicóloga que já atua na clínica há mais tempo. Durante nossa conversa, surgiu um tema muito comum para quem está começando a atender, a insegurança e o medo de agir de forma antiética. E, de certa forma, acho positivo que esses questionamentos apareçam, porque demonstram cuidado e responsabilidade com o paciente.
O que Yalom traz nesse capítulo pode parecer contraditório com algumas coisas que aprendemos na graduação. Dependendo do contexto, do paciente e do momento do processo terapêutico, acredito que seja válido reforçar avanços e oferecer apoio positivo, como ele propõe. Mas também penso que o psicólogo precisa compreender profundamente aquele processo para avaliar se esse tipo de intervenção faz sentido. Como acontece em grande parte da clínica, tudo depende, do paciente, do vínculo, do tempo e do momento.
Pensando especificamente nesse trecho, não sei se concordo totalmente quando Yalom afirma que os pacientes se lembram mais das declarações positivas de apoio do que dos insights ou interpretações. Talvez isso varie de pessoa para pessoa. No meu caso, enquanto paciente, o que mais fica marcado são os insights que tenho ao falar em voz alta durante a sessão. E também as contribuições da minha psicóloga, seja quando ela resgata algo que trouxe anteriormente, seja quando apresenta uma nova possibilidade de compreensão sobre aquilo que venho elaborando.
Ao mesmo tempo, reconheço que esses insights provavelmente só acontecem porque existe uma relação terapêutica na qual me sinto acolhida, compreendida e segura para me expressar. Talvez seja justamente isso que Yalom esteja tentando destacar: “o impacto de ser visto e aceito por alguém que conhece nossas vulnerabilidades mais profundas“.
Também acho importante destacar que ele não está falando de elogios vazios, mas de reconhecer genuinamente movimentos importantes do paciente. Existe uma diferença entre simplesmente validar e destacar a coragem, o esforço e as mudanças que a pessoa está construindo ao longo do processo. Nesse sentido, consigo compreender o valor que ele atribui ao apoio positivo.
Para mim, a psicoterapia vai muito além da validação. Muitas vezes, entrar em contato com aspectos dolorosos da própria história, reconhecer padrões ou dar nome a experiências difíceis também gera insights que ficam marcados na memória. Inclusive, já ouvi que costumamos responder com mais facilidade à pergunta “qual foi o pior momento da sua vida?” do que “qual foi o dia mais feliz da sua vida?“. Talvez porque experiências difíceis costumam nos atravessar de formas muito profundas.
Por isso, fico pensando, será que lembramos mais dos momentos de apoio ou dos insights? Ou será que um depende do outro? Afinal, talvez alguns dos nossos maiores insights só sejam possíveis porque nos sentimos suficientemente apoiados para olhar para aquilo que antes evitávamos enxergar.
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Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
O apoio é fundamental, no sentido de fundamento/fundação do processo terapêutico. Do lugar de psicólogas, entramos na vida do outro sob uma perspectiva de intimidade muito particular e profunda. De fato, nos tornamos testemunha de uma história e de um projeto de vida, e damos suporte e acolhimento a uma série de contradições, “fraquezas”, “imperfeições” e dificuldades que compõem a experiência humana.
Lendo este texto do Yalom, me vem uma palavra que Paulo Freire nos deixou como presente: ESPERANÇAR!
O processo terapêutico é um espaço de produzir esperanças, na jornada na vida, nas possibilidades de caminhos e nas potências do paciente. Oferecer apoio é algo fundamental para construir essa esperança, sobretudo em si mesmo.
Como Byung-Chul Han nos provoca em “Sociedade do Cansaço”, internalizamos o algoz e com isso a autocobrança, a insegurança e até mesmo a desconfiança sobre nossas próprias capacidades se estabeleceram em um novo patamar.
Oferecer apoio pode ser, muitas vezes, uma intervenção divisora de águas não apenas no processo terapêutico, mas principalmente no enfrentamento da vida. É difícil, exige sensibilidade, posicionamento ético e até mesmo uma pré-disposição para arriscar na construção da relação terapêutica.
Existem momentos em que quem “empresta” a esperança, acredita e apoia o paciente é o terapeuta, e apenas ele. E sem dúvidas, esses são momentos que marcar a jornada terapêutica. Isso não significa reduzir a experiência e a troca terapêutica apenas ao “apoio” e ao “acolhimento”, mas significa compreender que este manejo compõe e é fundamental para o processo, desde que seja autêntico!


