Todos os dias, em diversos momentos, me vejo diante de situações que trazem à tona uma vontade absurda de escrever. Seja quando saio para dar uma volta no quarteirão com o cachorro, quando estou atendendo meus pacientes, quando faço leituras, quando converso com desconhecidos na rua. Tudo se transforma em texto, gramática e narrativa dentro da minha cabeça. Faço anotações no meu bloco de notas, gravo áudios para mim mesma, tudo para não perder essa flecha criativa quando ela me atravessa.
Até hoje.
Me sento na frente do computador da mesma forma que me sento na frente da minha analista e digo: Hoje não tenho nada a dizer, nem sei por onde começar.
Revirei minhas anotações, ouvi meus próprios áudios, assisti filmes e séries, busquei trechos grifados nos livros que tenho lido. Nada parece fazer sentido. Penso que tenho vivido pouco demais as minhas próprias experiências para viver mais a experiência do meu trabalho. Esse trabalho que consiste, entre tantas coisas, tornar-me o outro durante cinquenta minutos, exercendo toda minha empatia, atenção e respeito por aquela história que de certa forma, passa a ser minha também. Uma história que me foi confiada, para cuidar com toda a dedicação, esforço e profissionalismo que merece. E é justamente por esse motivo, que seria no mínimo antiético trazer tais histórias para essa coluna.
Mas há uma história que eu tenho acompanhado durante muitas noites, que ainda estou na metade e por isso, ainda não me foi ao todo revelada. O livro “Bom dia Inverno” de Tamara Klink tem sido líder de vendas no país durante semanas. E não é para menos. Uma jovem de vinte e poucos anos, resolve passar o inverno em um veleiro na Groenlândia. Adotei Tamara como minha paciente secreta. Temos sessões diárias e fico fascinada com cada sentença formada por ela. Eu não sei dizer se o livro tem as letras miúdas demais, se a minha vista funciona de menos, só sei que não estou conseguindo devorar esse livro como já fiz com tantos outros. A verdade é que eu não quero dar alta para Tamara. Quero ela ali no meu divã, me contando do frio, dos icebergs, dos ursos, das raposas. Quero saber como se alimenta, como dorme, o que faz quando adoece, como usa o banheiro. Tamara fala sobre ouvir sua própria voz, sua própria risada e sobre os dias inteiros sem emitir nenhum som. Narra as noites escuras por mais de vinte e quatro horas, as dores de frio, o peso da âncora, os medos que sente, e as alegrias também. Tamara fala do silêncio tão absurdo a ponto de ouvir seu próprio coração e respiração. Fico encantada.
Tudo que Tamara vive, poderia facilmente ser um filme de terror para mim. Mas é como se, ao ir com ela, ficasse tudo bem. Não tenho mais medo do mar, do escuro, dos bichos. Quero agradecer a Tamara por tornar minhas noites mais leves. Tamara é tão corajosa que, ao ver um bote se aproximando de seu veleiro, com dois homens dentro, ela os convida para entrar e tomar chá. Dois homens que falam um idioma que ela nem entende. Desejo ser como ela, e convidar meus medos para tomar um chá e conversar também.
Logo nas primeiras páginas do livro, o que Tamara conta é justamente que pensava no medo da solidão, mas que estando só, não se sente assim. Lamenta até o contato raro com o namorado, de quem ela gostava, mas agora, é apenas um fio que a liga a um passado que ela não vive mais.
A solidão tem muitas geometrias. A de Tamara é vasta, gelada e cercada por oceanos. Diferente da maioria das pessoas, que muitas vezes cabe na palma da mão e brilha em luz azul.
Tenho observado com um olhar curioso, um misto de fascínio e sobressalto a onda de pessoas que buscam na Inteligência Artificial um lugar de refúgio psíquico. Uma tentativa de estancar a dor de não serem ouvidas. Talvez, pelo pavor da vulnerabilidade que um encontro humano exige, acabam entregando seus medos mais íntimos a um algoritmo formulado para agradar.
Para nós, psicólogos e profissionais da saúde, pode ser que fique mais claro o fato de que, o que a inteligência artificial oferece não é uma escuta clínica, mas sim um espelho de gelo, que devolve exatamente o que se quer, de forma polida, segura e indolor. Não há contradição, não há o silêncio denso que convida à elaboração, não há o risco do olhar do outro. É o ensaio de um diálogo onde só existe um sujeito.
Psicoterapia é mar aberto. É sustentar a dúvida, encarar a profundidade dos icebergs que estão submersos em nós e aceitar que o outro, aquele que nos escuta, não está ali para concordar com nossos scripts, mas para nos acompanhar na travessia. Assim como Tamara descobriu na Groenlândia, encarar os próprios medos exige corpo, tempo e coragem. E para isso, não há atalho sintético: precisamos da presença real de quem aceite sentar conosco e tomar esse chá.
Talvez, depois de tanta privação e silêncio, a perspectiva em relação ao perigo mude. Tamara não viu naqueles dois desconhecidos uma ameaça, mas a oportunidade de uma presença. Ela escolheu a vulnerabilidade do encontro em vez do abrigo seguro do isolamento.
Pensar na coragem de Tamara no gelo me faz olhar com uma certa inquietação para o que vivemos do lado de cá. Cercados de gente, mas emparedados na própria solidão, vejo crescer o movimento de pessoas que buscam na Inteligência Artificial um lugar para pedir “terapia”. Buscam uma escuta sem presença, um espelho dócil que nunca nos devolve o silêncio denso de uma pergunta real, um algoritmo programado concordar. É a tentativa desesperada de encontrar aconchego sem correr o risco de ser ferido. Queremos a ilusão do chá, mas sem a imprevisibilidade daqueles homens no bote.
Só que a clínica, e a vida, não se faz no circuito fechado de um monólogo. A IA pode até simular a sintaxe do afeto e organizar nossas frases, mas ela jamais suportará a falta, o mistério e a dor de existir que só outro ser humano é capaz de acolher. No fim, Tamara nos lembra que a cura não está em anestesiar o medo dentro de uma cabine isolada, mas na coragem imperfeita de se sentar à mesa com a alteridade.
Para nos curar da solidão, ainda precisamos do olhar e da escuta de alguém que também é feito de carne, osso e falta.
DESAFIOS DA TERAPIA | EMPATIA: OLHANDO PELA JANELA DO PACIENTE
Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem! _________________________________________________________________________
É estranho como certas frases ou eventos se alojam na mente de alguém e oferecem orientação ou conforto contínuos. Décadas atrás, atendi uma paciente com câncer de mama que passou toda a adolescência travada em uma longa e amarga luta com seu pai pessimista.
Ansiosa por alguma forma de reconciliação, por um novo começo para o relacionamento deles, esperava viajar com seu pai para a faculdade – um momento em que ficaria sozinha com ele por várias horas. Mas a tão esperada viagem provou-se um desastre: ele se comportou como sempre, reclamando sobre o riacho feio e cheio de lixo ao longo da estrada. Ela, por outro lado, não viu lixo algum no belo, rústico e intocado riacho. Como a minha paciente não encontrava jeito de responder, por fim, caiu em silêncio e os dois passaram o resto da viagem sem olhar um para o outro.
Em outro momento, ela fez a mesma viagem sozinha e ficou surpresa ao notar que havia dois riachos – um de cada lado da estrada. “Dessa vez eu estava dirigindo“, disse ela com tristeza, “e o riacho que vi pela janela do lado do motorista era tão feio e poluído quanto meu pai tinha descrito“. Quando aprendeu a olhar pela janela de seu pai, porém, já era tarde demais – seu pai estava morto e enterrado.
Essa história permaneceu comigo e, em muitas ocasiões, lembrei a mim mesmo e a meus alunos: “Olhe pela janela do outro. Tente ver o mundo como seu paciente o vê“. A mulher que me contou essa história morreu pouco tempo depois, de câncer de mama, e lamento não poder contar a ela como sua história foi útil ao longo dos anos, para mim, meus alunos e muitos pacientes.
Cinquenta anos atrás, Carl Rogers identificou a “precisão empática” como uma das três características essenciais do terapeuta eficaz (juntamente com a “aceitação positiva incondicional” e a “autenticidade”) e lançou o campo da pesquisa em psicoterapia, que acabou reunindo consideráveis evidências para apoiar a eficácia da empatia.
A terapia é aprimorada se o terapeuta entrar com precisão no mundo do paciente. Os pacientes lucram muito apenas com a experiência de serem enxergados e compreendidos por completo. Portanto, é importante que apreciemos como nosso paciente vivencia o passado, o presente e o futuro. Faço questão de verificar repetidamente minhas suposições. Por exemplo:
“Bob, quando penso em seu relacionamento com Mary, é isso que entendo. Você diz que está convencido de que você e ela são incompatíveis, que deseja muito se separar dela, que se sente entediado em sua companhia e evita passar noites inteiras com ela. No entanto, agora, quando ela fez o movimento que você queria e se afastou, você mais uma vez anseia por ela. Acho que ouvi você dizer que não quer ficar com ela, mas não suporta a ideia de ela não estar disponível quando você precisar dela. Estou certo até agora?”.
A precisão empática é mais importante no domínio do presente imediato – isto é, o aqui e agora da sessão da terapia. Tenha em mente que os pacientes veem as sessões de terapia de maneira muito diferente dos terapeutas. Repetidas vezes, os terapeutas, mesmo os mais experientes. ficam muito surpresos ao redescobrir esse fenômeno. Não é incomum que um de meus pacientes comece uma sessão descrevendo uma intensa reação emocional a algo que ocorreu durante a sessão anterior, e eu me sinto perplexo, sem poder imaginar o que aconteceu para provocar uma reação tão poderosa.
Essas visões divergentes entre paciente e terapeuta chamaram minha atenção pela primeira vez anos atrás, quando eu estava conduzindo uma pesquisa sobre a experiência dos membros de grupos, tanto de terapia quanto os de encontro. Pedi a muitos deles que preenchessem um questionário no qual identificassem os acontecimentos críticos de cada reunião. Os ricos e variados acontecimentos descritos diferiam muito das avaliações dos líderes de seus grupos sobre os acontecimentos críticos de cada reunião, e uma diferença semelhante existia entre a seleção dos membros e líderes dos acontecimentos mais críticos para toda a experiência do grupo.
Meu próximo encontro com as diferenças nas perspectivas do paciente e do terapeuta ocorreu em um experimento informal, no qual um paciente e eu escrevemos resumos de cada sessão de terapia. A experiência tem uma história curiosa. A paciente, Ginny, era uma talentosa escritora que estava sofrendo não só de um grave bloqueio de escrita, mas também de todas as formas de expressividade. A participação de um ano em meu grupo de terapia foi relativamente improdutiva: ela revelou pouco de si mesma, deu pouco de si aos outros membros e me idealizou tanto que nenhum encontro genuíno foi possível.
Então, quando Ginny teve que deixar o grupo por causa de pressões financeiras, propus um experimento incomum. Ofereci-me para encontrá-la em terapia individual com a condição de que, como pagamento, ela escrevesse um resumo livre e sem censura de cada sessão, expressando todos os sentimentos e pensamentos que não tivesse verbalizado durante os encontros. Eu, de minha parte, propus fazer exatamente o mesmo e sugeri que cada um de nós entregasse nossos relatórios semanais lacrados à minha secretária e que, a cada poucos meses, lêssemos as anotações um do outro.
Minha proposta tinha muitas serventias. Eu esperava que a tarefa de redação pudesse não apenas liberar a escrita de minha paciente, mas também encorajá-la a se expressar mais livremente na terapia. Talvez, eu esperava, ela ler minhas anotações pudesse melhorar nosso relacionamento. Eu pretendia escrever notas sem censura, revelando minhas experiências durante a sessão: meus prazeres, frustrações e distrações.
Era possível que, se Ginny pudesse me enxergar de forma mais realista, ela pudesse começar a me desidealizar e se relacionar comigo de uma forma mais humana.
(Como um aparte não pertinente a essa discussão sobre empatia, eu acrescentaria que essa experiência ocorreu em um momento em que eu estava tentando desenvolver minha voz como escritor, e minha oferta de escrever em paralelo com minha paciente também teve um motivo autointeressado: ela me proporcionou um exercício de escrita incomum e uma oportunidade de quebrar meus grilhões profissionais para, liberando minha voz, escrever tudo o que me viesse à mente de imediato depois de cada sessão).
A troca de notas a cada poucos meses forneceu uma experiência semelhante ao efeito Rashomon. Embora tivéssemos compartilhado a sessão, nós a vivenciamos e nos recordamos dela de forma idiossincrática. Por um lado, valorizamos partes muito diferentes da sessão. Minhas interpretações elegantes e brilhantes? Ela nem as ouviu. Em vez disso, Ginny valorizava os pequenos atos pessoais que eu mal notava: elogiar suas roupas, aparência ou escrita, minhas desculpas desajeitadas por chegar alguns minutos atrasado, rir de sua sátira, provocá-la quando encenávamos.
Todas essas experiências me ensinaram a não supor que o paciente e eu tivemos a mesma experiência na sessão. Quando os pacientes discutem sentimentos que tiveram na sessão anterior, faço questão de indagar sobre sua experiência e quase sempre aprendo algo novo e inesperado.
Ser empático é tão parte do discurso cotidiano – cantores populares cantam platitudes sobre estar na pele do outro – que tendemos a esquecer a complexidade do processo. É extraordinariamente difícil saber de fato o que o outro sente; com muita frequência, projetamos nossos sentimentos no outro.
Ao ensinar os alunos sobre empatia, Erich Fromm com frequência citava a declaração de Terêncio de dois mil anos atrás – “Sou humano: nada do que é humano me é estranho” – e nos exortava a estarmos abertos para aquela parte de nós mesmos que corresponde a qualquer ação ou fantasia trazidas pelos pacientes, não importa quão hedionda, violenta, lasciva, masoquista ou sádica. Se não agíssemos assim, ele sugeria que investigássemos por que escolhemos fechar essa parte de nós mesmos.
Claro, o conhecimento do passado do paciente aumenta muito nossa capacidade de olhar pela janela do paciente. Se, por exemplo, os pacientes sofreram uma longa série de perdas, eles verão o mundo através das lentes da perda. Eles podem não estar inclinados, por exemplo, a deixar você chegar muito perto por medo de sofrer mais uma perda. Portanto, a investigação do passado pode ser importante não para construir cadeias causais, mas porque nos permite ser empáticos com mais precisão.
Maria Fernanda | Estudante de Psicologia
Estudante do 8º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Esse conceito de “olhar pela janela do paciente” me trouxe na lembrança as aulas de fenomenologia. Lembrei de um exemplo que discutimos em sala sobre uma garrafa de vinho. O capítulo II do livro “O paciente psiquiatrico” de J.H. Van den Berg dizia que uma garrafa de vinho não possui um significado único e fixo, ela pode representar coisas completamente diferentes para pessoas diferentes e, inclusive, assumir significados distintos para a mesma pessoa, dependendo do momento da vida em que ela se encontra.
Olhar pela perspectiva do paciente é essencial na psicoterapia justamente porque aquilo que aconteceu, ou aquilo que está sendo vivido, nunca carrega um significado universal. Cada pessoa atribui sentidos às suas experiências a partir da própria história, das relações que construiu e da forma como enxerga o mundo naquele momento.
Também ficou marcado o trecho que Yalom fala sobre as diferentes percepções da sessão. Muitas vezes o terapeuta considera uma interpretação muito importante, enquanto o paciente guarda justamente um comentário que o terapeuta considera simples. Isso reforça que por mais que planejemos nossas intervenções e falas, nunca temos total controle sobre aquilo que será significativo para o outro.
Para mim, a empatia é um exercício contínuo de reconhecer que sempre haverá algo da experiência do outro que ainda não conseguimos enxergar ou compreender. E de construir, junto com o paciente, um ambiente seguro para ele possa nos mostrar e falar sobre suas interpretações e significados.
Rafa Dutra | Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
Empatia talvez seja um dos maiores clichês no universo da Psicologia, e como sempre gosto de dizer, não é por acaso que os clichês são clichês, é preciso reconhecer o valor deles. Se por um lado resumir o encontro terapêutico apenas à empatia é reduzir toda a potência deste encontro, por outro, sem empatia, o encontro terapêutico não acontece.
Lembro da primeira vez que uma professora falou sobre empatia em sala de aula, ela deu o exemplo de “vestir o sapato do outro e caminhar pelo mundo a partir dos passos do outro”, mas logo depois nos advertiu: “só não esqueçam de tirar os sapatos dele e voltar para os seus!”.
Penso que o importante é este movimento, compreender o mundo do outro para se conectar, mas intervir a partir do seu mundo para produzir reflexões e deslocamentos, como uma dança, mas de improviso. De fato, não temos tanto controle como gostaríamos (e algumas psis e abordagens teóricas tentam).
Este exercício que Yalom comenta que fez com sua paciente se tornou um livro, “Cada dia mais perto” é o nome em português, e sem dúvida vale a leitura. Perceber tão explicitamente a diferença de percepção do terapeuta e da paciente sobre a mesma sessão é uma maneira bastante didática de nos colocar para pensar sobre como devemos nos movimentar neste encontro.
A declaração de Terêncio citada por Erich Fromm que Yalom traz para o texto: “Sou humano: nada do que é humano me é estranho”, reforça algo que acredito muito; quanto mais repertório humano eu tenho, mais facilidade (ou menos dificuldade) eu terei de me conectar com meu paciente. Por isso sempre digo às estudantes e psis que tenho a oportunidade de conversar que ampliar nossa visão e vivência de mundo nos faz uma psicóloga melhor.
É preciso olhar pela janela do outro, é preciso calçar os sapatos do outro, mas não se esqueçam de tirar os dele, calçar os seus e seguir construindo a relação a partir do seu papel de terapeuta. Explorar sentidos, significados, percepções de mundo é parte essencial de um bom processo e de um vínculo terapêutico que permita produz trocas, deslocamentos e transformações, mas isso é apenas o ponto de partido, é preciso ir muito além.
No início você provavelmente vai começar atuando como pessoa física, pois enquanto psicóloga, uma vez que sua profissão é regulamentada, você não poderá ser uma MEI. Ou você será pessoa física e vinculará seus recebimentos ao seu CPF e os recibos via Receita Saúde, ou você abrirá um CNPJ e emitirá nota fiscal. Existem diferentes tipos de CNPJ e você poderá decidir junto a uma consultoria em contabilidade qual seria a melhor opção para a sua realidade.
De maneira geral, no início de tudo, até mesmo os contadores orientam a começar como pessoa física e se preocupar com CNPJ apenas quando seu consultório começar a se consolidar e você estiver ganhando mais de R$5.000,00, até porque com a reforma tributária até R$5.000,00 mensais você estará isenta de pagar imposto. De pagar, e não de declarar, ok?
Uma das grandes questões é, como pessoa física, o imposto pago sobre cada recibo pode chegar em 27,5%; já como pessoa jurídica, o imposto é de 6% (para faturamento de até R$360.000,00 anuais) se fizer o Fator R para se enquadrar no anexo III (se você não entendeu essa última linha, sua contabilidade poderá te explicar!rs). No entanto, há a taxa da mensalidade do contador e também as taxas para abertura da empresa que precisam entrar nessa conta.
Mas de início valerá mais a pena declarar Imposto como Pessoa Física. Para isso, precisará ver a questão do ISS (Imposto Sobre Serviços) no seu município (que pode ter isenção ou não a depender de onde você atua), fazer o Carne Leão mensalmente (ainda que tenha isenção) e também pagar o INSS (Intituto Nacional de Seguridade Social).
Tudo isso você é quem precisará aprender para entender a respeito e se organizar para fazer. Quando você está em uma empresa é o DP (Departamento Pessoal) quem cuida disso, como trabalhadora autônoma é você quem precisará aprender, fazer escolhas e cuidar de todos esses detalhes dessa parte burocrática que é, também, muito importante para você estar regularizada frente à Receita Federal e podendo receber seus direitos relacionados à Seguridade Social.
Nesse sentido, a melhor coisa que podemos deixar como dica é: agende um horário para conversar com um contador e deixe esse profissional conhecer sua realidade e te dar as orientações corretas de como você deve conduzir essa parte da regulamentação.
Na Plataforma Psi da Sala ABC também temos um Workshop sobre “Contabilidade para Psis” que vale a pena assistir, entender como funciona, as novidades e atualizações. Nós o atualizamos todos os anos.
Muitas vezes essa questão contábil é negligênciada, sobretudo por quem está iniciando a jornada na Clínica, mas é fundamental, desde os primeiros recebimentos, saber como tudo funciona para não se colocar em risco e se manter regular. Estude!
E quem não quer? As férias são uma grande conquista dos trabalhadores brasileiros. Um direito conquistado em 1925, inicialmente de 15 dias remunerados, que depois foi ampliado para 30 dias em 1943 com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e em 1988 com a nova Constituição Federal ainda se agregou o valor a ser recebido de 1/3 do salário.
Tudo isso é ótimo, mas apenas para quem é CLT, para quem é trabalhadora autônoma como quase 100% das psicólogas clínicas, as férias tem um significado muito diferente e coloca alguns desafios que com o tempo vamos aprendendo a lidar.
Primeiro desafio é o mais óbvio, quando um profissional autônomo não trabalha, ele não recebe. E aí as férias se colocam como um desejo e uma necessidade de descanso e, ao mesmo tempo, um receio e até um medo. Tanto da desorganização financeira porque ficará sem receber, quanto dos pacientes “desistirem” e não voltarem.
Eu lembro que nos meus primeiros anos como autônomo eu tirava férias de uma semana, no máximo 10 dias, basicamente entre o Natal e Ano Novo. E na primeira segunda-feira dia útil do ano já retornava ao trabalho. Que bom que essa fase já passou.
Nos últimos anos tenho conseguido tirar em torno de 45 dias de férias do consultório por ano, às vezes mais, às vezes menos. Mas para isso é preciso planejamento e organização.
Uma organização muito importante é a financeira, outra é a organização das datas e o período que ficará de férias. É importante levar em consideração que nossos pacientes tiram férias também, e via de regra, quando eles saem de férias, a gente também não recebe. Então são muitas variáveis que precisam ser levadas em consideração na hora de “construir suas férias”.
Sobre a organização financeira, é bem simples: se você quer ter 30 dias de férias no ano igual a um CLT, precisará calcular o valor do seu salário e das despesas do seu consultório, entender qual o valor total e dividir por 11. E ai você terá 11 meses pagando para si mesmo uma reserva de férias e no 12° mês você poderá ficar sem receber e utilizar essa reserva para não ter problemas com o seu financeiro.
Já o período das férias depende bastante do público, normalmente Natal, Ano Novo e a primeira ou segunda semana de janeiro muitos pacientes também estão de férias e o fluxo de atendimentos cai bastante, então é um bom período para fazer as suas férias também.
Outros períodos e sazonalidades dependem do público que você atende, com dois ou três anos de consultório você consegue mapear bem isso e ir se programando e alinhando o período da sua pausa nos atendimentos com o período em que boa parte dos seus pacientes também param.
Sobre as datas, eu tenho 2 sugestões. Uma é emendar feriados, principalmente os prolongados. É só pegar os outros três dias da semana e quando você soma os 2 dias do final de semana com os 3 dias que você decide pausar e mais os 4 dias de um feriado prolongado, você “perde” 3 dias de faturamento e faz uma pausa de 9 dias!
Por fim, para pausas mais longas, minha sugestão é pegar, por exemplo, 10 dias em um mês e 10 dias em outro mês, ou 15 e 15 se for parar por 30 dias. De preferência escolher meses que tem “5 semanas” com dias úteis de atendimento, isso minimiza muito o impacto financeiro das férias.
Que precisamos descansar é um fato, nosso trabalho é muito cansativo e essas pausas são extremamente importantes, eu particularmente gosto de fazer diferentes pausas ao longo do ano, algumas mais curtas e outras mais longas, mas, infelizmente para muitas psicólogas clínicas as férias se tornam um problema a ser enfrentado.
No entanto, com organização financeira, planejamento e escolhas estratégicas, as merecidas férias podem fluir bem sem grandes prejuízos, culpas ou preocupações.
Descansar é preciso. E se organizar para o descanso é indispensável. Com o tempo essa reserva das férias pode ir ficando maior e quem sabe você consegue até se pagar aquele 1/3 a mais do salário como os CLTs recebem.
Das reservas financeiras que um consultório precisa, penso que as férias são a primeira, pois garantem esse período de descanso sem grandes turbulências, depois o capital de giro e por fim a reserva de emergência, mas isso é conversa para outro texto.
Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem! _________________________________________________________________________
Um dos grandes valores da terapia pessoal intensiva é experimentar por si mesmo o grande valor do apoio positivo. Pergunta: de que os pacientes se lembram quando, anos depois, olham para trás, para a experiência na terapia? Resposta: não são os insights, não são as interpretações do terapeuta. Na maioria das vezes, eles se lembram das declarações positivas de apoio de seu terapeuta.
Faço questão de expressar regularmente meus pensamentos e sentimentos positivos sobre meus pacientes, perpassando uma ampla gama de atributos – por exemplo, suas habilidades sociais, curiosidade intelectual, cordialidade, lealdade aos amigos, articulação, coragem para enfrentar seus demônios internos, dedicação para mudar, vontade de se revelar, gentileza amorosa com seus filhos, compromisso de quebrar o ciclo de abuso e decisão de não passar a “batata quente” para a próxima geração.
Não seja mesquinho – não faz sentido; há todos os motivos para expressar essas observações e seus sentimentos positivos. E tome cuidado com elogios vazios – torne seu apoio tão incisivo quanto seu feedback ou interpretações. Tenha em mente o grande poder do terapeuta – poder que, em parte, decorre de termos conhecimento do evento, pensamentos e fantasias mais íntimas da vida de nossos pacientes. A aceitação e o apoio de alguém que o conhece em seu íntimo são positivos ao extremo.
Se os pacientes derem um passo terapêutico importante e corajoso, elogie-os por isso. Se estive profundamente envolvido na sessão e lamento que ela tenha chegado ao fim, digo que é uma pena ter que encerrar. E (uma confissão – todo terapeuta tem um estoque de pequenas transgressões secretas!) não hesito em expressar isso de forma não verbal, ultrapassando a sessão em alguns minutos.
Com frequência, o terapeuta é o único público que assiste a grandes dramas e atos de coragem. Tal privilégio exige uma resposta ao ator. Embora os pacientes possam ter outros confidentes, é provável que nenhum tenha a compreensão abrangente que o terapeuta tem de certos atos importantes. Por exemplo, anos atrás, um paciente, Michael, um romancista, um dia me informou que acabara de fechar sua caixa postal secreta.
Durante anos, essa caixa de correio foi seu meio de comunicação em uma longa série de casos extraconjugais clandestinos. Portanto, fechar a caixa foi um ato importante, e considerei minha responsabilidade apreciar a grande coragem de seu ato e fiz questão de expressar a ele minha admiração por sua ação.
Alguns meses depois, ele ainda se sentia atormentado por imagens e desejos recorrentes por sua última amante. Ofereci apoio.
“Sabe, Michael, o tipo de paixão que você teve nunca se evapora rapidamente. Claro que você vai sentir saudades. É inevitável, isso faz parte da sua humanidade.”
“Parte da minha fraqueza, você quer dizer. Eu gostaria de ser um homem de aço e poder deixá-la para sempre.“
“Temos um nome para esses homens de aço: robôs. E robô, graças a Deus, você não é. Falamos com frequência sobre sua sensibilidade e sua criatividade – essas são suas qualidades mais ricas -; é por isso que sua escrita é tão poderosa e é por isso que outras pessoas são atraídas por você. Mas essas mesmas características têm um lado sombrio – a ansiedade -, que torna impossível para você viver essas circunstâncias com tranquilidade.“
Um belo exemplo de comentário que me trouxe muito conforto ocorreu algum tempo atrás, quando expressei a um amigo – William Blatty, autor de O exorcista – meu desapontamento com uma crítica negativa de um de meus livros. Ele respondeu de uma maneira maravilhosamente solidária, que num instante curou minha ferida: “Irv, é claro que você está chateado com a crítica. Graças a Deus! Se você não fosse tão sensível, não seria um escritor tão bom“.
Todos os terapeutas descobrirão a própria maneira de apoiar os pacientes. Tenho uma imagem indelével em minha mente: Ram Dass descrevendo sua despedida de um guru com quem estudou por muitos anos em um asbram na Índia. Quando Ram Dass lamentou não estar pronto para partir por causa de suas muitas falhas e imperfeições, seu guru levantou-se e, lenta e solenemente, andou à sua volta em minuciosa inspeção, a qual concluiu com um pronunciamento oficial: “Não vejo imperfeições“.
Nunca circulei os pacientes, inspecionando-os visualmente, e nunca sinto que o processo de crescimento termina, mas, no entanto, essa imagem muitas vezes guiou meus comentários.
O apoio pode incluir comentários sobre a aparência: alguma peça de roupa, um semblante bem descansado e bronzeado, um novo penteado. Se um paciente fica obcecado com a falta de atratividade física, acredito que a coisa humana a fazer é comentar (se de fato se sentir assim) que você o considera atraente e se perguntar sobre as origens do mito de sua falta de atratividade.
Em uma história sobre psicoterapia em Mamãe e o sentido da vida, meu protagonista, Dr. Ernest Lash, é encurralado por uma paciente excepcionalmente atrativa que o pressiona com perguntas explícitas: “Sou atraente para os homens? Para você? Se você não fosse meu terapeuta, você se atrairia sexualmente por mim?”. Essas indagações são um pesadelo – questões que os terapeutas temem acima de todas as outras. É o medo de tais perguntas que faz muitos terapeutas darem tão pouco de si. Mas acredito que o medo é injustificado. Se você achar que isso é o melhor para o paciente, por que não dizer, como fez meu personagem fictício:
“Se tudo fosse diferente, nos conhecêssemos em outro mundo, eu fosse solteiro, não fosse seu terapeuta, aí sim eu acharia você muito atraente e com certeza faria um esforço para conhecê-la melhor”. Qual é o risco? Na minha opinião, tal franqueza simplesmente aumenta a confiança do paciente em você e no processo de terapia. É claro que isso não exclui outros tipos de indagação a respeito da questão – sobre, por exemplo, a motivação ou o momento do paciente (sendo “Por que agora?” a pergunta padrão), ou uma preocupação desordenada com fisicalidade ou sedução, que podem obscurecer questões ainda mais significativas. _________________________________________________________________________
Maria Fernanda | Estudante de Psicologia
Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Há uma semana tive uma conversa com uma colega recém-formada e uma psicóloga que já atua na clínica há mais tempo. Durante nossa conversa, surgiu um tema muito comum para quem está começando a atender, a insegurança e o medo de agir de forma antiética. E, de certa forma, acho positivo que esses questionamentos apareçam, porque demonstram cuidado e responsabilidade com o paciente.
O que Yalom traz nesse capítulo pode parecer contraditório com algumas coisas que aprendemos na graduação. Dependendo do contexto, do paciente e do momento do processo terapêutico, acredito que seja válido reforçar avanços e oferecer apoio positivo, como ele propõe. Mas também penso que o psicólogo precisa compreender profundamente aquele processo para avaliar se esse tipo de intervenção faz sentido. Como acontece em grande parte da clínica, tudo depende, do paciente, do vínculo, do tempo e do momento.
Pensando especificamente nesse trecho, não sei se concordo totalmente quando Yalom afirma que os pacientes se lembram mais das declarações positivas de apoio do que dos insights ou interpretações. Talvez isso varie de pessoa para pessoa. No meu caso, enquanto paciente, o que mais fica marcado são os insights que tenho ao falar em voz alta durante a sessão. E também as contribuições da minha psicóloga, seja quando ela resgata algo que trouxe anteriormente, seja quando apresenta uma nova possibilidade de compreensão sobre aquilo que venho elaborando.
Ao mesmo tempo, reconheço que esses insights provavelmente só acontecem porque existe uma relação terapêutica na qual me sinto acolhida, compreendida e segura para me expressar. Talvez seja justamente isso que Yalom esteja tentando destacar: “o impacto de ser visto e aceito por alguém que conhece nossas vulnerabilidades mais profundas“. Também acho importante destacar que ele não está falando de elogios vazios, mas de reconhecer genuinamente movimentos importantes do paciente. Existe uma diferença entre simplesmente validar e destacar a coragem, o esforço e as mudanças que a pessoa está construindo ao longo do processo. Nesse sentido, consigo compreender o valor que ele atribui ao apoio positivo.
Para mim, a psicoterapia vai muito além da validação. Muitas vezes, entrar em contato com aspectos dolorosos da própria história, reconhecer padrões ou dar nome a experiências difíceis também gera insights que ficam marcados na memória. Inclusive, já ouvi que costumamos responder com mais facilidade à pergunta “qual foi o pior momento da sua vida?” do que “qual foi o dia mais feliz da sua vida?“. Talvez porque experiências difíceis costumam nos atravessar de formas muito profundas.
Por isso, fico pensando, será que lembramos mais dos momentos de apoio ou dos insights? Ou será que um depende do outro? Afinal, talvez alguns dos nossos maiores insights só sejam possíveis porque nos sentimos suficientemente apoiados para olhar para aquilo que antes evitávamos enxergar.
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
O apoio é fundamental, no sentido de fundamento/fundação do processo terapêutico. Do lugar de psicólogas, entramos na vida do outro sob uma perspectiva de intimidade muito particular e profunda. De fato, nos tornamos testemunha de uma história e de um projeto de vida, e damos suporte e acolhimento a uma série de contradições, “fraquezas”, “imperfeições” e dificuldades que compõem a experiência humana.
Lendo este texto do Yalom, me vem uma palavra que Paulo Freire nos deixou como presente: ESPERANÇAR!
O processo terapêutico é um espaço de produzir esperanças, na jornada na vida, nas possibilidades de caminhos e nas potências do paciente. Oferecer apoio é algo fundamental para construir essa esperança, sobretudo em si mesmo.
Como Byung-Chul Han nos provoca em “Sociedade do Cansaço”, internalizamos o algoz e com isso a autocobrança, a insegurança e até mesmo a desconfiança sobre nossas próprias capacidades se estabeleceram em um novo patamar.
Oferecer apoio pode ser, muitas vezes, uma intervenção divisora de águas não apenas no processo terapêutico, mas principalmente no enfrentamento da vida. É difícil, exige sensibilidade, posicionamento ético e até mesmo uma pré-disposição para arriscar na construção da relação terapêutica.
Existem momentos em que quem “empresta” a esperança, acredita e apoia o paciente é o terapeuta, e apenas ele. E sem dúvidas, esses são momentos que marcar a jornada terapêutica. Isso não significa reduzir a experiência e a troca terapêutica apenas ao “apoio” e ao “acolhimento”, mas significa compreender que este manejo compõe e é fundamental para o processo, desde que seja autêntico!