Todos os dias, em diversos momentos, me vejo diante de situações que trazem à tona uma vontade absurda de escrever. Seja quando saio para dar uma volta no quarteirão com o cachorro, quando estou atendendo meus pacientes, quando faço leituras, quando converso com desconhecidos na rua. Tudo se transforma em texto, gramática e narrativa dentro da minha cabeça. Faço anotações no meu bloco de notas, gravo áudios para mim mesma, tudo para não perder essa flecha criativa quando ela me atravessa.
Até hoje.
Me sento na frente do computador da mesma forma que me sento na frente da minha analista e digo: Hoje não tenho nada a dizer, nem sei por onde começar.
Revirei minhas anotações, ouvi meus próprios áudios, assisti filmes e séries, busquei trechos grifados nos livros que tenho lido. Nada parece fazer sentido. Penso que tenho vivido pouco demais as minhas próprias experiências para viver mais a experiência do meu trabalho. Esse trabalho que consiste, entre tantas coisas, tornar-me o outro durante cinquenta minutos, exercendo toda minha empatia, atenção e respeito por aquela história que de certa forma, passa a ser minha também. Uma história que me foi confiada, para cuidar com toda a dedicação, esforço e profissionalismo que merece. E é justamente por esse motivo, que seria no mínimo antiético trazer tais histórias para essa coluna.
Mas há uma história que eu tenho acompanhado durante muitas noites, que ainda estou na metade e por isso, ainda não me foi ao todo revelada. O livro “Bom dia Inverno” de Tamara Klink tem sido líder de vendas no país durante semanas. E não é para menos. Uma jovem de vinte e poucos anos, resolve passar o inverno em um veleiro na Groenlândia. Adotei Tamara como minha paciente secreta. Temos sessões diárias e fico fascinada com cada sentença formada por ela. Eu não sei dizer se o livro tem as letras miúdas demais, se a minha vista funciona de menos, só sei que não estou conseguindo devorar esse livro como já fiz com tantos outros. A verdade é que eu não quero dar alta para Tamara. Quero ela ali no meu divã, me contando do frio, dos icebergs, dos ursos, das raposas. Quero saber como se alimenta, como dorme, o que faz quando adoece, como usa o banheiro. Tamara fala sobre ouvir sua própria voz, sua própria risada e sobre os dias inteiros sem emitir nenhum som. Narra as noites escuras por mais de vinte e quatro horas, as dores de frio, o peso da âncora, os medos que sente, e as alegrias também. Tamara fala do silêncio tão absurdo a ponto de ouvir seu próprio coração e respiração. Fico encantada.
Tudo que Tamara vive, poderia facilmente ser um filme de terror para mim. Mas é como se, ao ir com ela, ficasse tudo bem. Não tenho mais medo do mar, do escuro, dos bichos. Quero agradecer a Tamara por tornar minhas noites mais leves. Tamara é tão corajosa que, ao ver um bote se aproximando de seu veleiro, com dois homens dentro, ela os convida para entrar e tomar chá. Dois homens que falam um idioma que ela nem entende. Desejo ser como ela, e convidar meus medos para tomar um chá e conversar também.
Logo nas primeiras páginas do livro, o que Tamara conta é justamente que pensava no medo da solidão, mas que estando só, não se sente assim. Lamenta até o contato raro com o namorado, de quem ela gostava, mas agora, é apenas um fio que a liga a um passado que ela não vive mais.
A solidão tem muitas geometrias. A de Tamara é vasta, gelada e cercada por oceanos. Diferente da maioria das pessoas, que muitas vezes cabe na palma da mão e brilha em luz azul.
Tenho observado com um olhar curioso, um misto de fascínio e sobressalto a onda de pessoas que buscam na Inteligência Artificial um lugar de refúgio psíquico. Uma tentativa de estancar a dor de não serem ouvidas. Talvez, pelo pavor da vulnerabilidade que um encontro humano exige, acabam entregando seus medos mais íntimos a um algoritmo formulado para agradar.
Para nós, psicólogos e profissionais da saúde, pode ser que fique mais claro o fato de que, o que a inteligência artificial oferece não é uma escuta clínica, mas sim um espelho de gelo, que devolve exatamente o que se quer, de forma polida, segura e indolor. Não há contradição, não há o silêncio denso que convida à elaboração, não há o risco do olhar do outro. É o ensaio de um diálogo onde só existe um sujeito.
Psicoterapia é mar aberto. É sustentar a dúvida, encarar a profundidade dos icebergs que estão submersos em nós e aceitar que o outro, aquele que nos escuta, não está ali para concordar com nossos scripts, mas para nos acompanhar na travessia. Assim como Tamara descobriu na Groenlândia, encarar os próprios medos exige corpo, tempo e coragem. E para isso, não há atalho sintético: precisamos da presença real de quem aceite sentar conosco e tomar esse chá.
Talvez, depois de tanta privação e silêncio, a perspectiva em relação ao perigo mude. Tamara não viu naqueles dois desconhecidos uma ameaça, mas a oportunidade de uma presença. Ela escolheu a vulnerabilidade do encontro em vez do abrigo seguro do isolamento.
Pensar na coragem de Tamara no gelo me faz olhar com uma certa inquietação para o que vivemos do lado de cá. Cercados de gente, mas emparedados na própria solidão, vejo crescer o movimento de pessoas que buscam na Inteligência Artificial um lugar para pedir “terapia”. Buscam uma escuta sem presença, um espelho dócil que nunca nos devolve o silêncio denso de uma pergunta real, um algoritmo programado concordar. É a tentativa desesperada de encontrar aconchego sem correr o risco de ser ferido. Queremos a ilusão do chá, mas sem a imprevisibilidade daqueles homens no bote.
Só que a clínica, e a vida, não se faz no circuito fechado de um monólogo. A IA pode até simular a sintaxe do afeto e organizar nossas frases, mas ela jamais suportará a falta, o mistério e a dor de existir que só outro ser humano é capaz de acolher. No fim, Tamara nos lembra que a cura não está em anestesiar o medo dentro de uma cabine isolada, mas na coragem imperfeita de se sentar à mesa com a alteridade.
Para nos curar da solidão, ainda precisamos do olhar e da escuta de alguém que também é feito de carne, osso e falta.
DESAFIOS DA TERAPIA | EMPATIA: OLHANDO PELA JANELA DO PACIENTE
Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem! _________________________________________________________________________
É estranho como certas frases ou eventos se alojam na mente de alguém e oferecem orientação ou conforto contínuos. Décadas atrás, atendi uma paciente com câncer de mama que passou toda a adolescência travada em uma longa e amarga luta com seu pai pessimista.
Ansiosa por alguma forma de reconciliação, por um novo começo para o relacionamento deles, esperava viajar com seu pai para a faculdade – um momento em que ficaria sozinha com ele por várias horas. Mas a tão esperada viagem provou-se um desastre: ele se comportou como sempre, reclamando sobre o riacho feio e cheio de lixo ao longo da estrada. Ela, por outro lado, não viu lixo algum no belo, rústico e intocado riacho. Como a minha paciente não encontrava jeito de responder, por fim, caiu em silêncio e os dois passaram o resto da viagem sem olhar um para o outro.
Em outro momento, ela fez a mesma viagem sozinha e ficou surpresa ao notar que havia dois riachos – um de cada lado da estrada. “Dessa vez eu estava dirigindo“, disse ela com tristeza, “e o riacho que vi pela janela do lado do motorista era tão feio e poluído quanto meu pai tinha descrito“. Quando aprendeu a olhar pela janela de seu pai, porém, já era tarde demais – seu pai estava morto e enterrado.
Essa história permaneceu comigo e, em muitas ocasiões, lembrei a mim mesmo e a meus alunos: “Olhe pela janela do outro. Tente ver o mundo como seu paciente o vê“. A mulher que me contou essa história morreu pouco tempo depois, de câncer de mama, e lamento não poder contar a ela como sua história foi útil ao longo dos anos, para mim, meus alunos e muitos pacientes.
Cinquenta anos atrás, Carl Rogers identificou a “precisão empática” como uma das três características essenciais do terapeuta eficaz (juntamente com a “aceitação positiva incondicional” e a “autenticidade”) e lançou o campo da pesquisa em psicoterapia, que acabou reunindo consideráveis evidências para apoiar a eficácia da empatia.
A terapia é aprimorada se o terapeuta entrar com precisão no mundo do paciente. Os pacientes lucram muito apenas com a experiência de serem enxergados e compreendidos por completo. Portanto, é importante que apreciemos como nosso paciente vivencia o passado, o presente e o futuro. Faço questão de verificar repetidamente minhas suposições. Por exemplo:
“Bob, quando penso em seu relacionamento com Mary, é isso que entendo. Você diz que está convencido de que você e ela são incompatíveis, que deseja muito se separar dela, que se sente entediado em sua companhia e evita passar noites inteiras com ela. No entanto, agora, quando ela fez o movimento que você queria e se afastou, você mais uma vez anseia por ela. Acho que ouvi você dizer que não quer ficar com ela, mas não suporta a ideia de ela não estar disponível quando você precisar dela. Estou certo até agora?”.
A precisão empática é mais importante no domínio do presente imediato – isto é, o aqui e agora da sessão da terapia. Tenha em mente que os pacientes veem as sessões de terapia de maneira muito diferente dos terapeutas. Repetidas vezes, os terapeutas, mesmo os mais experientes. ficam muito surpresos ao redescobrir esse fenômeno. Não é incomum que um de meus pacientes comece uma sessão descrevendo uma intensa reação emocional a algo que ocorreu durante a sessão anterior, e eu me sinto perplexo, sem poder imaginar o que aconteceu para provocar uma reação tão poderosa.
Essas visões divergentes entre paciente e terapeuta chamaram minha atenção pela primeira vez anos atrás, quando eu estava conduzindo uma pesquisa sobre a experiência dos membros de grupos, tanto de terapia quanto os de encontro. Pedi a muitos deles que preenchessem um questionário no qual identificassem os acontecimentos críticos de cada reunião. Os ricos e variados acontecimentos descritos diferiam muito das avaliações dos líderes de seus grupos sobre os acontecimentos críticos de cada reunião, e uma diferença semelhante existia entre a seleção dos membros e líderes dos acontecimentos mais críticos para toda a experiência do grupo.
Meu próximo encontro com as diferenças nas perspectivas do paciente e do terapeuta ocorreu em um experimento informal, no qual um paciente e eu escrevemos resumos de cada sessão de terapia. A experiência tem uma história curiosa. A paciente, Ginny, era uma talentosa escritora que estava sofrendo não só de um grave bloqueio de escrita, mas também de todas as formas de expressividade. A participação de um ano em meu grupo de terapia foi relativamente improdutiva: ela revelou pouco de si mesma, deu pouco de si aos outros membros e me idealizou tanto que nenhum encontro genuíno foi possível.
Então, quando Ginny teve que deixar o grupo por causa de pressões financeiras, propus um experimento incomum. Ofereci-me para encontrá-la em terapia individual com a condição de que, como pagamento, ela escrevesse um resumo livre e sem censura de cada sessão, expressando todos os sentimentos e pensamentos que não tivesse verbalizado durante os encontros. Eu, de minha parte, propus fazer exatamente o mesmo e sugeri que cada um de nós entregasse nossos relatórios semanais lacrados à minha secretária e que, a cada poucos meses, lêssemos as anotações um do outro.
Minha proposta tinha muitas serventias. Eu esperava que a tarefa de redação pudesse não apenas liberar a escrita de minha paciente, mas também encorajá-la a se expressar mais livremente na terapia. Talvez, eu esperava, ela ler minhas anotações pudesse melhorar nosso relacionamento. Eu pretendia escrever notas sem censura, revelando minhas experiências durante a sessão: meus prazeres, frustrações e distrações.
Era possível que, se Ginny pudesse me enxergar de forma mais realista, ela pudesse começar a me desidealizar e se relacionar comigo de uma forma mais humana.
(Como um aparte não pertinente a essa discussão sobre empatia, eu acrescentaria que essa experiência ocorreu em um momento em que eu estava tentando desenvolver minha voz como escritor, e minha oferta de escrever em paralelo com minha paciente também teve um motivo autointeressado: ela me proporcionou um exercício de escrita incomum e uma oportunidade de quebrar meus grilhões profissionais para, liberando minha voz, escrever tudo o que me viesse à mente de imediato depois de cada sessão).
A troca de notas a cada poucos meses forneceu uma experiência semelhante ao efeito Rashomon. Embora tivéssemos compartilhado a sessão, nós a vivenciamos e nos recordamos dela de forma idiossincrática. Por um lado, valorizamos partes muito diferentes da sessão. Minhas interpretações elegantes e brilhantes? Ela nem as ouviu. Em vez disso, Ginny valorizava os pequenos atos pessoais que eu mal notava: elogiar suas roupas, aparência ou escrita, minhas desculpas desajeitadas por chegar alguns minutos atrasado, rir de sua sátira, provocá-la quando encenávamos.
Todas essas experiências me ensinaram a não supor que o paciente e eu tivemos a mesma experiência na sessão. Quando os pacientes discutem sentimentos que tiveram na sessão anterior, faço questão de indagar sobre sua experiência e quase sempre aprendo algo novo e inesperado.
Ser empático é tão parte do discurso cotidiano – cantores populares cantam platitudes sobre estar na pele do outro – que tendemos a esquecer a complexidade do processo. É extraordinariamente difícil saber de fato o que o outro sente; com muita frequência, projetamos nossos sentimentos no outro.
Ao ensinar os alunos sobre empatia, Erich Fromm com frequência citava a declaração de Terêncio de dois mil anos atrás – “Sou humano: nada do que é humano me é estranho” – e nos exortava a estarmos abertos para aquela parte de nós mesmos que corresponde a qualquer ação ou fantasia trazidas pelos pacientes, não importa quão hedionda, violenta, lasciva, masoquista ou sádica. Se não agíssemos assim, ele sugeria que investigássemos por que escolhemos fechar essa parte de nós mesmos.
Claro, o conhecimento do passado do paciente aumenta muito nossa capacidade de olhar pela janela do paciente. Se, por exemplo, os pacientes sofreram uma longa série de perdas, eles verão o mundo através das lentes da perda. Eles podem não estar inclinados, por exemplo, a deixar você chegar muito perto por medo de sofrer mais uma perda. Portanto, a investigação do passado pode ser importante não para construir cadeias causais, mas porque nos permite ser empáticos com mais precisão.
Maria Fernanda | Estudante de Psicologia
Estudante do 8º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Esse conceito de “olhar pela janela do paciente” me trouxe na lembrança as aulas de fenomenologia. Lembrei de um exemplo que discutimos em sala sobre uma garrafa de vinho. O capítulo II do livro “O paciente psiquiatrico” de J.H. Van den Berg dizia que uma garrafa de vinho não possui um significado único e fixo, ela pode representar coisas completamente diferentes para pessoas diferentes e, inclusive, assumir significados distintos para a mesma pessoa, dependendo do momento da vida em que ela se encontra.
Olhar pela perspectiva do paciente é essencial na psicoterapia justamente porque aquilo que aconteceu, ou aquilo que está sendo vivido, nunca carrega um significado universal. Cada pessoa atribui sentidos às suas experiências a partir da própria história, das relações que construiu e da forma como enxerga o mundo naquele momento.
Também ficou marcado o trecho que Yalom fala sobre as diferentes percepções da sessão. Muitas vezes o terapeuta considera uma interpretação muito importante, enquanto o paciente guarda justamente um comentário que o terapeuta considera simples. Isso reforça que por mais que planejemos nossas intervenções e falas, nunca temos total controle sobre aquilo que será significativo para o outro.
Para mim, a empatia é um exercício contínuo de reconhecer que sempre haverá algo da experiência do outro que ainda não conseguimos enxergar ou compreender. E de construir, junto com o paciente, um ambiente seguro para ele possa nos mostrar e falar sobre suas interpretações e significados.
Rafa Dutra | Psicólogo Clínico e Professor
Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.
Empatia talvez seja um dos maiores clichês no universo da Psicologia, e como sempre gosto de dizer, não é por acaso que os clichês são clichês, é preciso reconhecer o valor deles. Se por um lado resumir o encontro terapêutico apenas à empatia é reduzir toda a potência deste encontro, por outro, sem empatia, o encontro terapêutico não acontece.
Lembro da primeira vez que uma professora falou sobre empatia em sala de aula, ela deu o exemplo de “vestir o sapato do outro e caminhar pelo mundo a partir dos passos do outro”, mas logo depois nos advertiu: “só não esqueçam de tirar os sapatos dele e voltar para os seus!”.
Penso que o importante é este movimento, compreender o mundo do outro para se conectar, mas intervir a partir do seu mundo para produzir reflexões e deslocamentos, como uma dança, mas de improviso. De fato, não temos tanto controle como gostaríamos (e algumas psis e abordagens teóricas tentam).
Este exercício que Yalom comenta que fez com sua paciente se tornou um livro, “Cada dia mais perto” é o nome em português, e sem dúvida vale a leitura. Perceber tão explicitamente a diferença de percepção do terapeuta e da paciente sobre a mesma sessão é uma maneira bastante didática de nos colocar para pensar sobre como devemos nos movimentar neste encontro.
A declaração de Terêncio citada por Erich Fromm que Yalom traz para o texto: “Sou humano: nada do que é humano me é estranho”, reforça algo que acredito muito; quanto mais repertório humano eu tenho, mais facilidade (ou menos dificuldade) eu terei de me conectar com meu paciente. Por isso sempre digo às estudantes e psis que tenho a oportunidade de conversar que ampliar nossa visão e vivência de mundo nos faz uma psicóloga melhor.
É preciso olhar pela janela do outro, é preciso calçar os sapatos do outro, mas não se esqueçam de tirar os dele, calçar os seus e seguir construindo a relação a partir do seu papel de terapeuta. Explorar sentidos, significados, percepções de mundo é parte essencial de um bom processo e de um vínculo terapêutico que permita produz trocas, deslocamentos e transformações, mas isso é apenas o ponto de partido, é preciso ir muito além.
No início você provavelmente vai começar atuando como pessoa física, pois enquanto psicóloga, uma vez que sua profissão é regulamentada, você não poderá ser uma MEI. Ou você será pessoa física e vinculará seus recebimentos ao seu CPF e os recibos via Receita Saúde, ou você abrirá um CNPJ e emitirá nota fiscal. Existem diferentes tipos de CNPJ e você poderá decidir junto a uma consultoria em contabilidade qual seria a melhor opção para a sua realidade.
De maneira geral, no início de tudo, até mesmo os contadores orientam a começar como pessoa física e se preocupar com CNPJ apenas quando seu consultório começar a se consolidar e você estiver ganhando mais de R$5.000,00, até porque com a reforma tributária até R$5.000,00 mensais você estará isenta de pagar imposto. De pagar, e não de declarar, ok?
Uma das grandes questões é, como pessoa física, o imposto pago sobre cada recibo pode chegar em 27,5%; já como pessoa jurídica, o imposto é de 6% (para faturamento de até R$360.000,00 anuais) se fizer o Fator R para se enquadrar no anexo III (se você não entendeu essa última linha, sua contabilidade poderá te explicar!rs). No entanto, há a taxa da mensalidade do contador e também as taxas para abertura da empresa que precisam entrar nessa conta.
Mas de início valerá mais a pena declarar Imposto como Pessoa Física. Para isso, precisará ver a questão do ISS (Imposto Sobre Serviços) no seu município (que pode ter isenção ou não a depender de onde você atua), fazer o Carne Leão mensalmente (ainda que tenha isenção) e também pagar o INSS (Intituto Nacional de Seguridade Social).
Tudo isso você é quem precisará aprender para entender a respeito e se organizar para fazer. Quando você está em uma empresa é o DP (Departamento Pessoal) quem cuida disso, como trabalhadora autônoma é você quem precisará aprender, fazer escolhas e cuidar de todos esses detalhes dessa parte burocrática que é, também, muito importante para você estar regularizada frente à Receita Federal e podendo receber seus direitos relacionados à Seguridade Social.
Nesse sentido, a melhor coisa que podemos deixar como dica é: agende um horário para conversar com um contador e deixe esse profissional conhecer sua realidade e te dar as orientações corretas de como você deve conduzir essa parte da regulamentação.
Na Plataforma Psi da Sala ABC também temos um Workshop sobre “Contabilidade para Psis” que vale a pena assistir, entender como funciona, as novidades e atualizações. Nós o atualizamos todos os anos.
Muitas vezes essa questão contábil é negligênciada, sobretudo por quem está iniciando a jornada na Clínica, mas é fundamental, desde os primeiros recebimentos, saber como tudo funciona para não se colocar em risco e se manter regular. Estude!
E quem não quer? As férias são uma grande conquista dos trabalhadores brasileiros. Um direito conquistado em 1925, inicialmente de 15 dias remunerados, que depois foi ampliado para 30 dias em 1943 com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e em 1988 com a nova Constituição Federal ainda se agregou o valor a ser recebido de 1/3 do salário.
Tudo isso é ótimo, mas apenas para quem é CLT, para quem é trabalhadora autônoma como quase 100% das psicólogas clínicas, as férias tem um significado muito diferente e coloca alguns desafios que com o tempo vamos aprendendo a lidar.
Primeiro desafio é o mais óbvio, quando um profissional autônomo não trabalha, ele não recebe. E aí as férias se colocam como um desejo e uma necessidade de descanso e, ao mesmo tempo, um receio e até um medo. Tanto da desorganização financeira porque ficará sem receber, quanto dos pacientes “desistirem” e não voltarem.
Eu lembro que nos meus primeiros anos como autônomo eu tirava férias de uma semana, no máximo 10 dias, basicamente entre o Natal e Ano Novo. E na primeira segunda-feira dia útil do ano já retornava ao trabalho. Que bom que essa fase já passou.
Nos últimos anos tenho conseguido tirar em torno de 45 dias de férias do consultório por ano, às vezes mais, às vezes menos. Mas para isso é preciso planejamento e organização.
Uma organização muito importante é a financeira, outra é a organização das datas e o período que ficará de férias. É importante levar em consideração que nossos pacientes tiram férias também, e via de regra, quando eles saem de férias, a gente também não recebe. Então são muitas variáveis que precisam ser levadas em consideração na hora de “construir suas férias”.
Sobre a organização financeira, é bem simples: se você quer ter 30 dias de férias no ano igual a um CLT, precisará calcular o valor do seu salário e das despesas do seu consultório, entender qual o valor total e dividir por 11. E ai você terá 11 meses pagando para si mesmo uma reserva de férias e no 12° mês você poderá ficar sem receber e utilizar essa reserva para não ter problemas com o seu financeiro.
Já o período das férias depende bastante do público, normalmente Natal, Ano Novo e a primeira ou segunda semana de janeiro muitos pacientes também estão de férias e o fluxo de atendimentos cai bastante, então é um bom período para fazer as suas férias também.
Outros períodos e sazonalidades dependem do público que você atende, com dois ou três anos de consultório você consegue mapear bem isso e ir se programando e alinhando o período da sua pausa nos atendimentos com o período em que boa parte dos seus pacientes também param.
Sobre as datas, eu tenho 2 sugestões. Uma é emendar feriados, principalmente os prolongados. É só pegar os outros três dias da semana e quando você soma os 2 dias do final de semana com os 3 dias que você decide pausar e mais os 4 dias de um feriado prolongado, você “perde” 3 dias de faturamento e faz uma pausa de 9 dias!
Por fim, para pausas mais longas, minha sugestão é pegar, por exemplo, 10 dias em um mês e 10 dias em outro mês, ou 15 e 15 se for parar por 30 dias. De preferência escolher meses que tem “5 semanas” com dias úteis de atendimento, isso minimiza muito o impacto financeiro das férias.
Que precisamos descansar é um fato, nosso trabalho é muito cansativo e essas pausas são extremamente importantes, eu particularmente gosto de fazer diferentes pausas ao longo do ano, algumas mais curtas e outras mais longas, mas, infelizmente para muitas psicólogas clínicas as férias se tornam um problema a ser enfrentado.
No entanto, com organização financeira, planejamento e escolhas estratégicas, as merecidas férias podem fluir bem sem grandes prejuízos, culpas ou preocupações.
Descansar é preciso. E se organizar para o descanso é indispensável. Com o tempo essa reserva das férias pode ir ficando maior e quem sabe você consegue até se pagar aquele 1/3 a mais do salário como os CLTs recebem.
Das reservas financeiras que um consultório precisa, penso que as férias são a primeira, pois garantem esse período de descanso sem grandes turbulências, depois o capital de giro e por fim a reserva de emergência, mas isso é conversa para outro texto.