Devo ter um perfil nas redes sociais?

DEVO TER UM PERFIL NAS REDES SOCIAIS?

É muito comum o pessoal se formar e construir um perfil nas redes sociais, um perfil “.psi” no Instagram. Algumas pessoas também gostam de usar o LinkedIn ou outras plataformas.

Mas antes de sair criando conta profissional em rede social temos uma dica: CALMA!

Diferente de um site que você cria e ele está pronto, as redes sociais exigem que você as alimente cotidianamente, e isso vai te demandar muito trabalho (se você for fazer algo bem feito). Então é preciso avaliar muito bem se, para você, vale a pena estar nas redes sociais.

Nesse assunto, a primeira coisa a se fazer é gastar umas boas horas pesquisando sobre marketing digital, marketing de conteúdo, marketing no Instagram, no Facebook, no LinkedIn, no Whatsapp Business ou onde mais você queira estar presente.

Termos como funil de vendas, persona, avatar, aquecer os leads, conversão, geração de valor, call to action, entre outros, vão começar a ficar familiares para você e, aí sim, você pensa se irá criar uma rede social e fará um PLANEJAMENTO para ela.

Existem muitos apps gratuitos que fazem com que você, mesmo que de forma amadora, consiga fazer posts, editar fotos, fazer vídeos, e ter uma aparência mais profissional, mais bacana. Mas ter uma rede social de qualidade dá muito trabalho e envolve muito estudo.

De início, você não poderá pagar alguém para fazer isso para você (o mundo ideal – se puder, pague!), então pesquise, estude, converse com amigos que são dessa área, assista essas “aulas online” gratuitas que muitos especialistas oferecem antes de te vender algum curso. Se for mesmo entrar nessa, daí vale até buscar cursos pagos para fazer algo bacana, bem feito e ter resultado.

ALERTA:
Além de estudar as resoluções do Conselho de Psicologia que falam sobre as questões éticas na publicização dos serviços de Psicologia, fique atenta para não reproduzir discursos patologizantes, psicologizantes e culpabilizantes nas redes sociais. É muito difícil elaborar conteúdo para o público em geral sem falar em “psicologuês”.

Lembre-se que, se você está oferecendo conteúdo para as pessoas, você está oferecendo um serviço de psicoeducação para seus seguidores, então faça isso de uma maneira ética, crítica e com qualidade.

Como conseguir pacientes?

COMO CONSEGUIR PACIENTES? 

Esta é a pergunta que eu mais recebi em quase 9 anos promovendo dezenas de atividades para milhares de estudantes e profissionais na Sala ABC! Afinal, esta é a grande “dor” das psicólogas, principalmente das que estão começando na Clínica. 

Os gurus do marketing ensinam que devemos conhecer bem nosso cliente e conhecer quais são as dores deles (os problemas para os quais poderemos vender a solução). Não à toa que toda hora somos atravessadas por propagandas de cursos e mentorias que ensinam a ter “agenda cheia em 3 meses“, “faturar 10k em 6 meses“, “como conseguir pacientes high-ticket“, etc. 

Todo mundo sabe que este é o grande desafio de quem começa na clínica ou de quem quer levar seu consultório para um outro patamar de retorno financeiro. E dai chegam as promessas, são “metodologias comprovadas”, uso de redes sociais, Google Ads, Meta Ads, comunidades, plataformas, etc, mas no fundo a promessa é a mesma: vou te ajudar a conseguir seus pacientes. E as psicólogas compram essas promessas, às vezes pagam bem caro, inclusive. 

Então, primeiro de tudo, cuidado com quem te promete este tipo de coisa, e não saia gastando seu dinheiro com isso. Lembre-se: não existe caminho fácil e nem rápido! 

Este “conseguir pacientes” eu tenho chamado de “construir sua rede de encaminhamentos“, um processo artesanal, que leva tempo e depende de uma série de variáveis que nem sempre são passíveis de controle e previsibilidade. 

Quando faço reflexões e orientações sobre esta questão, gosto de dizer que nosso desafio é transformar nossa rede de contatos – o famoso “network” – em uma rede de encaminhamentos. E existem diferentes caminhos para isso. 

Porém, antes de sair investindo tempo, energia e dinheiro nisso, tem uma pergunta fundamental na qual a resposta mudará tudo o que você deverá fazer depois: 

Quem é o paciente que eu quero ter? 

E a resposta a essa pergunta deve ser completa, tipo um episódio do Globo Repórter de sexta-feira a noite: quem são, o que fazem, onde vivem?

Não basta apenas saber qual faixa etária você quer atender, que é o recorte mais comum das psis pensarem. É preciso pensar em tipos de demandas, questões identitárias, classe social, território e uma série de características para que, primeiro vc entenda bem quem é o público que você deseja atrair para o seu consultório, e só depois começar a criar estratégias para ir até eles, ou ainda melhor, para eles virem até você! 

O digital é um caminho que chegou para ficar, ultimamente tenho visto psicólogas já consolidadas entrando nas redes também, mas vale lembrar que o digital é apenas um dos caminhos, e nem todo mundo se sente confortável com ele. 

Na Psicologia Clínica de consultório, pela característica dos processos serem com encontros semanais ou quinzenais, não precisamos de muito pacientes, 20 ou 30 pacientes já configuram uma agenda cheia, então ter uma rede de encaminhamento, ainda que pequena, mas eficiente, pode fazer você construir seu consultório em poucos meses. 

Tem algumas psis que tem perfil para ter aquele posicionamento mais “blogueirinha/ tiktoker” que a cartilha do marketing digital propõe, e algumas tem realmente bons resultados em transformar sua rede social em um espaço de encaminhamento de pacientes, mas arrisco dizer que 90% dos perfis profissionais na rede social não conseguem fazer isso. 

Ainda no digital, ter um site, um blog, um perfil “vitrine”, um Google Meu Negócio, um cadastro em algumas plataformas de busca por psis e até investir em tráfego no Google ou na Meta podem dar resultado, desde que você tenha conhecimentos básicos deste universo e saiba o que está fazendo (ou contrate alguém que saiba). 

Mas existe vida fora da Internet, e muitas possibilidades para construir sua rede de encaminhamentos fora dela também. 

Parcerias com psicólogas de outras abordagens ou que atendem outros públicos, parcerias com profissionais da saúde, parceria com projetos ou instituições, participar de comunidades, frequentar grupos de supervisão e de estudos, ir a eventos, palestras, congressos e tudo quanto é lugar onde as pessoas possam te conhecer como psicóloga são maneiras de investir na construção da sua rede de contatos e, portanto, na sua rede de encaminhamentos. 

Não acredito que exista a melhor estratégia, aquela que garanta resultados bons e rápidos. O resultado virá com as estratégias com as quais você se identifica e investe, com constância e dedicação por um período considerável, não será uma coisa de dias ou semanas. 

Construir um consultório sólido é construir uma rede de encaminhamentos capaz de, primeiro, construir uma boa agenda e, segundo, fazer a manutenção diante das variações de entrada e saída de pacientes. Inclusive, com o tempo, suas próprias pacientes e ex-pacientes vão se tornar sua rede de encaminhamentos. Quando isso acontecer, seu consultório estará quase que “rodando sozinho”. 

No entanto, este processo não é simples e nem rápido, envolve conhecimento, tempo e ação. Sua rede começa a ser construída ainda durante sua graduação, com suas professoras, supervisoras e colegas de turma e de curso. Ou seja, não é um processo que você só começa depois de ter o CRP na mão.

Bora estudar e construir sua rede! 

Forte abraço!
Rafa Dutra

Quem dá conta de tudo não dá conta de si mesmo

Bora estrear uma coluna de dicas aqui em nosso blog?!

Essa semana lançou o livro “Quem dá conta de tudo não dá conta de si mesmo: como o antiprodutivismo pode revolucionar nossos modos de vida, trabalho e afeto“, de Mariane Santana.

Mariane vem trazendo as discussões sobre antiprodutivismo em seu instagram (@marianecsantana) e acaba de lançar um livro para ampliar esta discussão. Em tempos de cansaço crônico e exaustão generalizada, é preciso parar e repensar a lógica produtivista com a qual temos organizado e orientado nossas escolhas e nosso modo de vida.


“Meu compromisso é com a vida, e esta não mora em um checklist”

A produtividade é a palavra-chave que define nosso estilo de vida. Quem somos, então, quando não estamos produzindo? Em uma sociedade cansada, marcada pela intensificação do trabalho e pela gestão permanente de si, o tempo livre e o descanso passam a ser vistos como luxo, mas deveriam ser considerados nossos por direito.

Em Quem dá conta de tudo não dá conta de si mesmo , Mariane Santana nos mostra que colocar limites na lógica do trabalho é um exercício revolucionário. Ela nos ensina que o antiprodutivismo – a recusa de viver para produzir – é a semente que nos permite nutrir outras formas de existência.

Com análises profundas sobre nossa sociedade, articulando relatos de uma rotina automática e reflexões de grandes pensadores, este livro nos mostra a urgência de um modo de vida que possa ser definido pelo ócio, em que o tempo deixa de ser associado ao capital para ser afirmado como experiência de vida. Porque viver é muito mais do que produzir.


Reflexões importantes, tanto para cada profissional da Psicologia repensar sobre seu trabalho e sua vida, quanto para ampliar e qualificar a escuta clínica para compreender mais profundamente as estruturas sociais que tem produzido tanto adoecimento nos últimos anos.

Pensar as condições concretas de vida e as escolhas possíveis diante deste cenário se afastando das leituras individualizantes e das fórmulas mágicas de autogestão como saída deste complexo fenômeno é essencial para compor uma escuta crítica diante de tanto sofrimento provocado pela lógica produtivista.

Bora prestigiar nossas autoras brasileiras!

Forte abraço!
Rafa Dutra

A repetição que não se repete

“A REPETIÇÃO QUE NÃO SE REPETE”

Existe uma pergunta que aparece na clínica e que tenho percebido com frequência logo na primeira sessão com um paciente. Apesar de ela ser feita na primeira sessão, ela não vem logo de cara, junto com as demais questões burocráticas como valores, datas e horários. Ela se descola dessa parte prática, caminha lenta, olhando desconfiada para trás por um corredor de silêncio até a porta da subjetividade, às vezes até com um tom de voz diferente e sai baixinha no exato momento em que o relógio transforma quarenta e nove minutos em cinquenta:

Você vai ter paciência de me ouvir falar sobre a mesma história repetidas vezes?

Não existe uma resposta prática para uma pergunta como essa. Não há um sim capaz de entregar ao paciente tudo que ele me confia ao deixar essa pergunta no ar antes de sair. Porque sim, nem sempre eles ficam ali paradinhos esperando uma resposta. Pode ser apenas um teaser do próximo ato que vai ser revelado quando estivermos juntos de novo, e de novo e de novo. A pergunta é muitas vezes, para nós mesmos e nem sempre um pedido de garantia.

Meses atrás estive no teatro para assistir uma peça chamada “Dois de Nós”, que narra a história de um casal maduro, com crises conjugais que se acumulam ao longo de anos de convivência, amor, desgaste, segredos, alegrias, medos e escolhas, raivas e mágoas. Em meio a uma discussão muito da acalorada, esbarram em um outro casal, de mesmo nome, que para o espanto dos quatro, são eles mesmos, no passado, ainda jovens e apaixonados.
A peça é um lindo encontro através da repetição do passado para o presente. Onde o casal mais maduro, só consegue compreender certas coisas ao olhar para eles mesmos, como se sentiam, como se imaginavam, como se relacionavam, como imaginavam o futuro. Não é spoiler para ninguém aqui que existem algumas decepções em relação as expectativas, mas eu não vou me alongar muito para não tirar a emoção da primeira vez para quem for vê-la.

Mas o mais interessante é que eu vou assistir ao espetáculo novamente hoje à noite. E eu estou extremamente empolgada com isso. Não tem problema eu já conhecer a história, eu quero ouvir de novo, saborear as falas e mais, o improviso que o teatro oferece (diferente do cinema) onde as palavras podem mudar, algo novo pode surgir e tudo pode ser visto e vivido de uma maneira completamente diferente por mim, pelo elenco, mesmo que eles estejam há mais de um ano em cartaz, viajando o Brasil com a peça. Não vai ser a mesma coisa.

Me dei conta enquanto pensava esse texto, que tenho o hábito da repetição. O espetáculo “O céu da língua”, monólogo maravilhoso escrito e encenado pelo ator Gregório Duvivier, vi três vezes. Gregório traz na etimologia das palavras humor, angústia, admiração, surpresa e mudanças e adaptações de sentido. O público se encanta com o quanto é importante essa troca com alguém, que desembaralha o emaranhado de letras que usamos repetidamente, diariamente, muitas vezes sem nem saber de onde vem. Mas veja, não estamos ali trocando com qualquer pessoa. Gregório estudou Letras. Ele claramente gosta de estar ali e acredita na capacidade da plateia em compreender suas analogias, piadas e texto às vezes até áspero, mas que provoca reflexão, que faz querer ver de novo, que faz querer levar tudo isso para casa.

E foi por isso que, logo na primeira vez, comprei o texto da peça. Mesmo tendo visto mais duas vezes, me pego relendo o jogo de palavras feito de forma tão sagaz e certeiro que me faz querer decorar aquilo tudo. Só que a cada vez que leio, uma parte diferente me toca. Não é o texto que muda, mas como eu me encontro, para onde está dirigido meu olhar, onde está minha emoção.

Quantas vezes ouvimos uma música até decorá-la? Quantos dias são necessários de repetição para se construir um hábito? Se temos tantas divergências entre as abordagens da psicologia, eu arrisco dizer que esse é sim o ponto de convergência. Freud escreveu “Repetir, recordar, elaborar”. O método ABA, sem faz sem repetição? A Terapia Comportamental e a Cognitivo Comportamental estão isentas? Eu acho que não.
Se hoje falamos tanto em algoritmo e redes sociais; em uma linguagem crua e superficial posso afirmar que ele nos vence pela repetição, nos convence de algo seja verdade ou não de tanto aparecer diante dos olhos na tela de um celular.

E funciona porque nós funcionamos da mesma forma e nos convencemos de algo que pode nos ajudar ou prejudicar de tanto repetir. Essa diferenciação do que nos é útil, do que nos faz bem, e que oferece autonomia para cada indivíduo só é possível se houver um espaço de se ouvir, quantas vezes forem necessárias, até que se faça sentido, que se perca sentido e seja possível criar um sentido novo.

Dito tudo isso, se você me pergunta se eu vou ter paciência de ouvir diversas vezes a mesma história? Posso afirmar: eu não vejo a hora!

Desafios da Terapia | Terapeuta e paciente como “companheiros de viagem”

DESAFIOS DA TERAPIA | TERAPEUTA E PACIENTE COMO “COMPANHEIROS DE VIAGEM”

Nesta coluna trazemos um capítulo do livro “Desafios da Terapia: reflexões para a nova geração de pacientes e terapeutas” do médico, psicoterapeuta e escritor Irvin D. Yalom. Depois do texto, você poderá conferir as reflexões da Maria Fernanda, enquanto estudante de Psicologia, e do Rafa Dutra, enquanto psicólogo clínico, professor e supervisor. Aproveitem!


O romancista francês André Malraux escreveu sobre um padre com quem se confessou por muitas décadas e resumiu desta maneira o que aprendeu com ele a respeito da natureza humana: Em primeiro lugar, as pessoas são muito mais infelizes do que se pensa (…) e “pessoa adulta’ é coisa que não existe”. Todos – e isso inclui terapeutas e pacientes – estão destinados a experimentar não apenas a euforia da vida, mas também sua escuridão inevitável: desilusão, envelhecimento, doença, isolamento, perdas, falta de sentido, escolhas dolorosas e morte.

Ninguém definiu essas coisas de forma mais direta e sombria do que o filósofo alemão Arthur Schopenhauer:

No início da juventude, ao contemplarmos nossa vida futura, somos como crianças em um teatro antes que a cortina seja levantada, sentadas ali de bom grado e esperando ansiosamente pelo início da peça. É uma bênção não sabermos o que de fato vai acontecer. Se pudéssemos prever, há momentos em que as crianças podem parecer prisioneiras condenadas – condenadas não à morte, mas à vida, e ainda totalmente inconscientes do significado de sua sentença.

Ou ainda:

Somos como cordeiros no campo, divertindo-nos sob o olhar do açougueiro, que escolhe primeiro um e depois outro para sua faca. Assim é que, em nossos dias bons, todos nós estamos inconscientes do mal que o Destino pode ter reservado para nós – doença, pobreza, mutilação, perda da visão ou da razão.

Embora a visão de Schopenhauer seja fortemente influenciada pela própria infelicidade pessoal, ainda assim é difícil negar o desespero inerente à vida de cada indivíduo autoconsciente. Minha esposa e eu às vezes nos divertimos planejando jantares imaginários para grupos de pessoas que compartilham propensões semelhantes – por exemplo, uma festa para monopolistas, ou fogosos narcisistas, ou passivo-agressivos engenhosos que conhecemos ou, inversamente, uma festa “feliz” para a qual convidamos apenas as pessoas de fato felizes que encontramos. Embora não tenhamos encontrado problemas para preencher todos os tipos de outras mesas caprichosas, nunca fomos capazes de preencher uma mesa completa para nossa festa de “pessoas felizes”. Cada vez que identificamos alguns indivíduos alegres e os colocamos em uma lista de espera enquanto continuamos nossa busca para completar a mesa, descobrimos que um ou outro de nossos convidados felizes acaba sendo atingido por alguma adversidade importante na vida – muitas vezes uma doença grave, da própria pessoa ou de um filho ou cônjuge.

Essa visão da vida – trágica, mas realista – há muito influencia meu relacionamento com aqueles que buscam minha ajuda. Embora existam diversos termos para a relação terapêutica – paciente/terapeuta, cliente/conselheiro, analisando/analista, cliente/facilitador e (o mais recente – e, de longe, o mais repulsivo) usuário/provedor -, nenhum deles transmite com precisão minha percepção da relação terapêutica. Em vez disso, prefiro pensar em meus pacientes e em mim como companheiros de viagem, um termo que anula as distinções entre “eles” (os aflitos) e “nós” (os curandeiros). Durante meu treinamento, inúmeras vezes fui exposto à ideia do terapeuta totalmente analisado, mas, à medida que progredi na vida, estabeleci relacionamentos íntimos com muitos de meus colegas terapeutas, conheci as figuras mais importantes da área, fui chamado para prestar auxílio aos meus antigos terapeutas e professores e tornei-me um professor e um ancião, percebendo a natureza mítica desta ideia. Estamos todos juntos nisso e não há terapeuta nem pessoa imune às tragédias inerentes à existência.

Uma das minhas histórias favoritas de cura, encontrada em O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, envolve José e Dion, dois curandeiros renomados que viveram nos tempos bíblicos. Embora ambos fossem altamente eficazes, eles funcionavam de maneiras diferentes, O curandeiro mais jovem, José, curava por meio de uma escuta silenciosa e inspirada. Os peregrinos confiavam em José. O sofrimento e a ansiedade derramados em seus ouvidos desapareciam como água na areia do deserto, e os penitentes deixavam sua presença esvaziados e acalmados. Dion, o curandeiro mais velho, por sua vez, confrontava ativamente aqueles que buscavam sua ajuda. Ele adivinhava seus pecados não confessados. Era um grande juiz, castigador, repreensivo e retificador, e curava por meio de intervenção ativa. Tratando os penitentes como crianças, dava conselhos, punia com penitências, ordenava peregrinações e casamentos e obrigava inimigos a se reconciliarem.

Os dois curandeiros nunca se encontraram e trabalharam como rivais por muitos anos, até que José adoeceu espiritualmente, caiu em profundo desespero e foi assaltado por ideias de autodestruição. Incapaz de se curar com os próprios métodos terapêuticos, ele partiu em uma jornada para o sul em busca da ajuda de Dion.

Em sua peregrinação, José descansou uma noite em um oásis, onde começou a conversar com um viajante mais velho. Quando José descreveu o propósito e o destino de sua peregrinação, o viajante se ofereceu como guia para ajudar na busca por Dion. Mais tarde, no meio de sua longa jornada juntos, o velho viajante revelou sua identidade a José.

Mirabile dictu: ele mesmo era Dion – o homem que José procurava.

Sem hesitar, Dion convidou seu rival mais jovem e desesperado para sua casa, onde viveram e trabalharam juntos por muitos anos. Dion primeiro pediu a José que fosse um servo. Mais tarde, ele o elevou a aluno e, por fim, a colega de trabalho. Anos depois, Dion adoeceu e em seu leito de morte chamou seu jovem colega para ouvir uma confissão. Ele narrou a terrível doença anterior de José e sua viagem ao velho Dion para pedir ajuda. Falou sobre como José sentiu que era um milagre que seu companheiro de viagem e guia fosse o próprio Dion.

Agora que ele estava morrendo, era chegada a hora, disse Dion a José, de quebrar o silêncio a respeito daquele milagre. Dion confessou que na época também lhe pareceu um milagre, pois ele também caíra em desespero. Ele também se sentia vazio e morto espiritualmente e, incapaz de se ajudar, partiu em uma jornada em busca de ajuda. Na mesma noite em que se encontraram no oásis, ele estava em peregrinação a um famoso curandeiro chamado José.

A história de Hesse sempre me comoveu de uma forma sobrenatural. Parece-me uma declaração profundamente esclarecedora sobre dar e receber ajuda, sobre honestidade e duplicidade e sobre o relacionamento entre o curador e o paciente. Os dois homens receberam ajuda poderosa, mas de maneiras muito diferentes. O curandeiro mais jovem foi nutrido, cuidado, ensinado e orientado, teve a atenção de um pai. O curandeiro mais velho, por outro lado, foi ajudado servindo ao outro, obtendo um discípulo de quem recebeu amor filial, respeito e bálsamo para seu isolamento.

Mas agora, reconsiderando a história, questiono se esses dois curandeiros feridos não poderiam ter prestado ainda mais serviços um ao outro.

Talvez tenham perdido a oportunidade de algo mais profundo, mais autêntico, mais poderosamente transformador. Talvez a verdadeira terapia tenha ocorrido na cena do leito de morte, quando eles foram sinceros com a revelação de que eram companheiros de viagem, ambos simplesmente humanos, demasiadamente humanos. Os vinte anos de segredo, por mais úteis que tenham sido, podem ter obstruído e impedido um tipo mais profundo de ajuda. O que poderia ter acontecido se a confissão de Dion no leito de morte tivesse ocorrido vinte anos antes, se curador e buscador tivessem se unido para enfrentar as questões que não têm respostas?

Tudo isso ecoa as cartas de Rilke a um jovem poeta nas quais ele aconselha: “Tenha paciência com tudo o que não está resolvido e tente amar as questões em si”. Eu acrescentaria: “Tente amar também os questionadores”.


Maria Fernanda |
Estudante de Psicologia

Estudante do 7º semestre do curso de Psicologia da USCS – Universidade de São Caetano do Sul, Maria se interessa pela Clínica em Psicologia e vem se inspirando pelas discussões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Olhar para o terapeuta na poltrona da frente e enxergá-lo como um ser humano que não está imune ao sofrimento e aos acontecimentos da vida rompe com a ideia de que o terapeuta ocupa um lugar de saber absoluto ou estabilidade emocional. A ideia de Yalom sobre pensar paciente e terapeuta como “companheiros de viagem” reconhece o que há de maior potência nessa troca: a humanidade. 

A partir da reflexão do Schopenhauer também podemos pensar sobre a humanidade que todos nós compartilhamos enquanto vivos: o sofrimento, a falta de garantias, os problemas e as alegrias. 

Esses sentimentos e acontecimentos cada um de nós experienciamos de uma forma, mas de fato, todos nós experienciamos. E para mim, não há nada mais humano e sinônimo de vida do que isso. 

Somos seres completos em nossa incompletude.

E o final da história dos curandeiros neste capítulo evidencia que o cuidador também precisa ser cuidado e, principalmente, a importância de um encontro humano, transparente e verdadeiro. 

Que os papéis de terapeuta e paciente não nos limite, mas sim nos potencializem como seres humanos. 


Rafa Dutra |
Psicólogo Clínico e Professor

Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica, em Psicologia Escolar e mestre em Educação. Atua como psicoterapeuta desde 2008 em consultório particular a partir da Psicologia Sócio-Histórica. É, também, professor e supervisor.

Há uns 15 anos eu utilizo esta metáfora do “companheiros de viagem” quando, na primeira sessão com um novo paciente, eu vou explicar a minha maneira de entender o que é a terapia. E depois de todo esse tempo e de ter realizado milhares de atendimentos com centenas de pacientes, essa metáfora me faz ainda mais sentido.

Enquanto psicólogas/terapeutas não estamos acima de nenhuma das grandes questões humanas, estamos imersos, talvez até de maneira mais profunda, em todas elas. E nosso lugar nesta relação terapêutica jamais será a posição de um “guru” que já atingiu a iluminação, tão pouco de um “coach” que já atingiu o sucesso.

Esta partilha humana, verdadeira e transparente é, sem dúvida, uma das maiores potências e, ao mesmo tempo, uma das maiores dificuldades no encontro terapêutico. Levei anos para conseguir construir este tipo de relacionamento do lugar de psicólogo, e ainda hoje às vezes não consigo.

Penso que esta concepção é ainda mais importante nos dias de hoje em que o trabalho é atravessado pelas redes sociais, em que muitas das vezes as psicólogas se apresentam como aquelas que estão bem, fazendo os enfrentamentos das questões e dos desafios da vida e vencendo, cuidando da saúde, estudando, tendo vida social, construindo suas famílias, fazendo suas viagens, construindo uma imagem de sucesso e bem-estar. Esta imagem não condiz com a vida privada em que estamos todos tentando dar conta de um mundo difícil e uma vida que cheia de faltas, dúvidas, angústias e carências.

A cultura da performance e o marketing pessoal atravessou as profissionais da Psicologia (não só as que estão no início da carreira, mas principalmente elas) de um jeito muito intenso e precisamos olhar para tudo isso com atenção. É indispensável lembrar que, do início ao fim, seremos apenas companheiros de uma viagem.